quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Pré-carnavalesca

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Música: Jards Macalé Coração do Brasil

No adiantado do tempo,
dou o mês por passado
e o ano começando a acabar.

O último Tarot

A Lua. A minha é em escorpião. Beware!

Round about midnight

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Round about Midnight talvez seja uma das músicas de jazz mais gravadas. Fosse só por ela e Thelonious Monk , seu autor, já mereceria seu lugar no Olimpo do Jazz. Mas seu gênio foi bem maior. Essa gravação que aqui posto é, entre todas que tenho, e tenho inúmeras, a mais "original". Tem a coisa do tango e o trumpete de Chet Baker, outro que muito sofreu com sua arte. O tango e o jazz só provam que quando se trata do blues, do lamento belamente expressado, os gêneros se diluem e só a beleza permanece. Enjoy it!

Às minhas meninas


Les Demoiselles d´Avignon, Picasso, 1907
Meninas,
Como sempre faço, ao final de cada mês posto uma página que configuro para o primeiro minuto do mês que acaba, e que tenta dizer do mês para mim aqui no blog. E como neste janeiro resolvi homenagear as minhas incansáveis comentadoras, apareçam por lá, primeira postagem (de baixo para cima), do mês de janeiro. Ou cliquem aqui.
Beijos agradecidos a todas vocês.

A arte da tradução


Picasso

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Passado a limpo

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Jards Macalé, Movimento dos Barcos
.
Seco como um sulco
marcado em minha caatinga,
nostálgica lembrança
de outras águas, outros sucos,
de verdes que já dominei,
deixo os sonhos à mingua,
largadas esperanças,
e vou,
para onde ainda não sei.
Mas indo,
de mim saberei.
Em movimentos parcos,
no rastro risca de giz,
tocarei meu barco,
e novamente serei,
por um triz.

O virtual mente

Mulher com uma flor, Picasso

O virtual é ausência
de nascença.
Eu quero carnes e ossos,
presença.
Falas, conversas, risos,
ciências.
Rosto, voz , olhar devolvido,
permanência.
Cabeças, troncos e membros,
saliências.
Bocas, línguas, suores,
indecências.
.
O virtual é ausência
desde a nascente.
Perdi a paciência.
Eu quero gente!

A morte da morte


.
.
.
.
.
.
O enterro passou
e ninguém viu.
Só eu, daqui donde estou,
percebi que o morto sorriu.






Picasso

Augusto dos Anjos


A Prisão de Prometeu, Jacob Jordaens

Ali onde nada ressuscita,
sem volta da ida não feita,
retorna só o que se regurgita:
rancores, mal ditos, desfeitas.
.
Ali onde o tudo é morto,
ainda que corpo insepulto,
nada brota, nenhum horto,
só as palavras que esculpo.
.
Ali onde o falar se cala
nas doenças do não dizer,
fica, engasgado na fala,
o decretado morrer.
.
Ali onde se oferece a tumba,
buraco que não tem mais fundo,
enterre-se, com pompas e rumbas,
uma solidão do tamanho do mundo.
Psicografado por Zédu no 30 do 01 de 2008

Derradeira homenagem

Picasso - Blue Nude


"Desejo a máquina do tempo para que não haja o havido
e eu recomece misericordiosamente."
Adélia Prado - Os componentes da Banda


"E, no entanto, o paraíso é, para sempre, perdido
e nós recomeçamos, miseravelmente."
Com o perdão, suposto, da Adélia

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Todo sentimento tem hora

Tem hora que a palavra engasga,
Que as letra deslizam e fogem.
Na boca, que se sabe amarga,
O poema suspira, e morre.
.
Tem hora que nada se acaba
Das linhas restam metades.
O pensamento revolta, e trava.
O verso, manco, já não cabe.
.
Tem hora que a pena resiste,
A tinta falta ou evapora.
O poeta, vaso, ainda insiste
O desejo, vesgo, demora.
.
Tem hora que nada se adianta
Tem hora que tudo se atrasa
Tem hora que a musa não canta
Tem hora que o peito não vaza


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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Atrás da porta dele

Homem quando dá para sofrer (aliás, a maioria que dá, dá para sofrer, mas essa é outra história), sofre como um cachorro. E ninguém se humilhou tanto no seu sofrimento como Jacques Brel em Ne me quitte pas. Enquanto Elis ficava atrás da porta, Brel topava tudo, até ser o cachorro da amada. Elis, na canção perdeu seu homem, que saiu porta afora. Brel conseguiu que ela ficasse? A que preço para ambos? No fundo, much a do about nothing. Tudo ilusão! Pois, os dramas de amor são, quase sempre, muito ridículos e cômicos quando vistos de fora (mas dão belas músicas). Mas escapar deles, quem há de? Pelo menos até uma certa idade, o sofrer é índice do grande amorIsso me faz lembrar de Fragmentos de um discurso amoroso, de R. Barthes, um livro tão mais engraçado quanto mais a gente nele se reconhece no patético do "estar apaixonado". Boa, e divertida, leitura, e um autor que vai caindo no esquecimento de forma imerecida.

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Drama pouco é bobagem

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Interpretação para lá de dramática de Elis, com direito a desafinadas e muito, mas muito drama mesmo. Musicalmente, a versão gravada originalmente é bem melhor, mas aqui o drama é visível, em todos os sentidos. A música, para quem não se lembra, é do Chico, claro. Quem mais poderia compor com tanta beleza esse sofrimento feminino histérico e dramático, a não ser um homem, um poeta? Pois, e minhas comentadoras ficarão muito bravas comigo, as mulheres não se sabem, quase sempre. Mas dizem tudo, para quem sabe escutar. Freud inventou a histérica que o inventou, Chico cantou a mulher como encantado ao lado delas. O que me lembra outra música que outra hora eu posto por aqui.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Contagem regressiva


A brincadeira do contador me deixa ansioso pelo redondo do mil. Bonitinho, né? Mil pessoas/entradas, muitas bandeiras, um monte de lugares, mesmo que a maioria seja de lugares com uma única entrada (tipo caiu ali e não voltou). O contador deixou o blog mais divertido, pelo menos para mim. Mas feliz mesmo vou ficar o dia que a Finlândia voltar (aliás, tem uma postagem em finlandês, Lonely Rider, um poema que eu nunca soube nem do som que ele tem, assim como o meu visitante de lá também não deve ter conseguido música alguma por aqui).
Só Pipoca não está nem aí. Ele sabe das coisas.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Noite de Blues em vários tons

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Já que vocês não podem me acompanhar em minha ida ao show do Dojão do Blues, lhes deixo com T-Bone Walker em Don´t throw your love on me so strong, gravado ao vivo na Alemanha em 1962. Mais uma jóia surrupiada do ShowBlog.
Aliás, essa coisa de muita música não deixa de ser uma outra forma de me deixar saber: dize-me que músicas gostas e dir-te-ei quem és! Pena que nem tudo que me diz acho por aí em vídeo.

O brinco de pérolas do menino.

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Em um post antigo, Menina com Brinco de Pérolas, eu dizia que o poema devia ser lido ao som desta música, com este tenor. Algumas pessoas "reclamaram" que não conseguiam encontrar a referida gravação. Assim, aqui vai a música direta de meus arquivos. A música é da ópera de Bizet, O Pescador de Pérolas. A ária aqui postada chama-se Je crois entendre encore. O tenor, Alain Vanzo, é uma figurinha meio esquisita no meio dos tenores por causa do registro de sua voz (nada parecida com as vozes másculas dos tenores que nos acostumamos a escutar). Alguns amantes de ópera, no entanto, acham que essa é a mais bela gravação desta tão linda ária (os mais venenosos diriam que é a única "obra prima" de Vanzo).
Vídeo caseiro, como vocês podem notar, ainda não me dei ao trabalho de elaborar na criação das imagens que acompanham a música, mas essa é uma maneira de colocar algumas músicas que gosto, nas gravações que prefiro, sem ficar preso ao que consigo garimpar na Internet (e, até onde vai minha capacidade de manipular a criação dos posts, não posso colocar só música, pelo menos não com a facilidade com que posto vídeos). De qualquer forma, agora sem o poema que ficou no passado do blog, a música é linda, a interpretação perfeita. Fechem os olhos e escutem. Vale a pena.

A Dança da Solidão

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Tem horas que posto porque é belo
Tem horas que é tudo que quero
Tem horas que só o belo é quem diz
Tem horas que só fala o que eu quis
.
Às vezes canto com eles
Por puro encantamento.
Outras eles cantam por mim
Minhas dores, meus tormentos
.
Pois solidão é lava
Que cobre tudo.
Nos congela as palavras,
Nos cala, nos torna mudos.
.
Mas o belo sempre persiste
Naquilo que aqui se insiste.
E mesmo quando me repito
É sempre um outro dito.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A musa pela música.

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Oscar Peterson estava no primeiro Lp de jazz que comprei na vida, na Livraria Brasil, na Rua Barão de Jaguara, no centro de Campinas, coisa que nem sei se existe mais, a livraria e o centro. Era um LP Oscar Peterson & Clark Terry (trumpete), que anos depois encontrei, e comprei, em um destes sêbos de rua do Rio. Count Basie, sempre lembrado pela sua orquestra, era um exímio pianista. Aqui é interessante ver como o estilo "cheio de dedos" de OP se casa perfeitamente com a economia típica do bandleader (Duke Ellington também tocava assim, com muito poucos dedos). A música é Blues in G, gravada ao vivo em Praga, ainda vermelha, em 1974. Show de swing, de técnica e de liberdade de dois monstros que se encontram na música. Isso é jazz: tem espaço para todo mundo brilhar, cada qual a sua maneira. No meu entender, o jazz é a música dos intérpretes por excelência.
Aliás, com a descoberta do ShowBlog, o meu próprio vai se harmonizando de outra maneira. Não tem nada prá dizer? A musa fugiu no vento? Troca a musa pela música e deixa os amigos curtirem. Mas não se acostumem mal, pois uma hora eu volto com minhas carambolas. There´s no free meal e, como dizia o insuportável Z., vocês vão ter de me engolir.

Música em paz

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Belissima interpretação de Joe Cocker, ao vivo, na Alemanha, em 1993. Aliás, a maior parte dos vídeos aqui postados "roubo" de um outro blog, o Showblog, que acho que já coloquei nos Links que eu gosto de passear, lá na lateral das páginas das postagens. O site é uma fonte inesgotável de coisas lindas, raras, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Visitem-no e tenho certeza que acharão a belezura que cada um prefere.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Os estatutos desta gafieira 2ª ed corrigida


Esse blog é uma zorra? Talvez seja. Mas é meu e aqui quem manda sou eu. Se as gafieiras têm estatuto (que até dão belo samba), se até o Buraco da Lacraia tem lá suas regras malucas, aqui também há que se manter um mínimo de ordem e dignidade.
Assim, na condição de dono pedaço e das Carambolas, e dado os recentes ataques que o blog vem sofrendo e os atos pouco condizentes
com a elegância do local, reunimo-nos, Pipoca, CEO da Coisa e pouco afeito às mesquinharias humanas, e eu, e decidimos alterar os estatutos desta gafieira:
  • Os comentários agora passam primeiro por mim antes da sua publicação, ou seja, virei aquilo que na linguagem do blog é chamado de "moderador dos comentários", nome elegante para a função de (s/c)ensor que passo a exercer e que só faço por necessidade
  • Isso não afeta em nada a vida da maioria de vocês, já que podem continuar postando seus comentários como sempre fizeram (eu havia feito uma besteira na configuração e só leitores com conta no Google podiam comentar, mas já corrigi). A única diferença é que eles não vão automaticamente para o blog, pois terão que esperar que o mail que me avisa sobre eles me faça autorizá-los. É claro que autorizarei tudo, menos a deselegância e o abuso.
  • No mais, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.
O samba, Estatuto da Gafieira, me remete a outro episódio da MPB antiga: a separação de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, que se deu, no que as separações sempre implicam em um período de "roupa suja lavada em público", através de músicas, que Dalva cantava por um lado, e Herivelto compunha por outro. Dessa briguinha de amor, ridícula como soem as dita cujas, nos ficaram músicas fantásticas como Caminhemos, Segredo e outras tantas mais (além de um bom cantor com péssimo gosto, Pery Ribeiro). Mas já não se fazem gafieiras e sambas de separação como antigamente.
Mas insisto, para todos os amigos do blog nada muda, já que acredito que os comentários são postados para que eu os leia e os coloque no devido lugar, na exata dependência de sua adequação ao Desejo, Morte e Carambolas de que aqui se trata.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Simplesmente

Meu instante me foge,
sempre.
Esse um amor desejei,
sempre.
Esse filho, tive e não tive,
sempre.
Orfão de mim,
sempre.
No momento, te querendo,
sempre.
Mas sou, sempre,
de repente.
Risca fugaz de giz,
só mente.
Emoldurada cicatriz,
se mente.
Feliz?
Quase, e sempre
por um triz.
Sem meio termo,
sem beira, nem ermo,
sou, sempre,
simplesmente,
algum a gente.
.
Orai por nós
que me amarrem,
para sempre.

Rio, 18/01/08 e Barão 23/01/08
comentário do autor

São Sebastião do Rio de Janeiro

Te pinto
por detrás da porta
perdida.
E o que pressinto
de mim,
te corta.
Já não sinto
que te presto
quando não minto.
E às janelas fecho,
para que não entre,
não me penetre,
nem mais um inseto
e, para sempre,
jamais
a flecha
torta
que te faz,
como no verso,
morta.


Homenagem a um poeta

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Eu queria muito fazer essa homenagem ao poeta Ángel González.. O poema, que reproduzo a seguir, já havia sido postado no blog. No entanto, havia uma gravação do mesmo musicada por Pedro Guerra, e com o próprio poeta declamando partes do poema, que eu queria tornar em minha homenagem ao belíssimo cantor da alma íntima que foi Ángel González. Essa musica faz parte de um CD gravado pelos dois, Ángel e Pedro Guerra, chamado La palabra en el aire. Mas eu nunca havia feito um vídeo que não fosse na máquina fotográfica. mesmo assim, tentei lá no meu Nero, acreditando que quem tocou fogo em Roma ao som de sua lira, haveria de me ajudar a acender a pira aqui devida. É claro que agora que fiz esse vídeo que aqui coloco, percebo que poderia ter feito melhor, com mais imagens, com algum texto, ou seja, enfeitar mais a coisa. Mas o que eu queria mesmo era que vocês escutassem o poema e a voz do poeta. E para isso, me basta asi!
.
Me basta asi
Si yo fuese Dios
y tuviese el secreto,
haría un ser exacto a ti;
lo probaría(a la manera de los panaderos
cuando prueban el pan, es decir:
con la boca),
y si ese sabor fuese
igual al tuyo, o sea
tu mismo olor, y tu manera
de sonreír,
y de guardar silencio,
y de estrechar mi mano estrictamente,
y de besarnos sin hacernos daño
—de esto sí estoy seguro: pongo
tanta atención cuando te beso—;
entonces,
si yo fuese Dios,
podría repetirte y repetirte,
siempre lo mismo y siempre diferente,
sin cansarme jamás del juego idéntico,
sin desdeñar tampoco lo que fuiste
por lo que ibas a ser dentro de nada;
ya no sé si me explico, pero quiero
aclarar que si yo fuese
Dios, haríalo posible por ser yo
para quererte tal como te quiero,
para aguardar con calma
a que te crees tú mismo cada día
a que sorprendas todas las mañanas
la luz recién nacida con tu propia
luz, y corras
la cortina impalpable que separa
el sueño de la vida,
resucitándome con tu palabra,
Lázaro alegre,
yo,
ojado todavía
de sombras y pereza,
sorprendido y absorto
en la contemplación de todo aquello
que, en unión de mí mismo,
recuperas y salvas, mueves, dejas
abandonado cuando —luego— callas…
(Escucho tu silencio.
Oigo
constelaciones: existes.
Creo en ti.
Eres.
Me basta).
Àngel González, 1925-2008

O que quer uma mulher?


Courbet, Nú
A histérica é muito chata.
Com uma mão levanta a saia,
com a outra te dá um tapa.

O dia em que os astros me acertaram

Foi num domingo, início de maio de 2006, cerca de dez dias depois de meu infarto. Eu já havia saído da UTI e me mal humorava no quarto, sob o olhar carinhoso de Gilza, a única paciente por ali. Gilza pega a Revista de Domingo d´O Globo e se propõe a ler meu horóscopo (por absoluto desejo de me distrair, já que nem ela nem eu éramos chegados nos astros distraídos). Busca meu signo e lê: "Hoje você deve estar se sentindo meio afixiado...". Quase reinfartei de rir. A foto a seguir havia sido tirada momentos antes deste episódio (clique para ampliá-la)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Folhas secas

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E para encerrar essa minha volta triunfo-musical, Keith Jarrett Trio, coisa finíssima mesmo para quem não é fã de jazz. A música, Autumn Leaves, conheço desde pequeno. Meu pai adorava um pianista, que sumiu na poeira da estrada, chamado Carmen Cavalaro (ou não seria Carmem? sempre pensei que fosse homem!; esse Buraco da Lacraia me deixou meio confuso com essa coisa de gênero). Pianista daqueles cheio de dedos, cascata de acordes, ´ssas coisas. Lá na casa da Emílio Ribas havia um monte de discos 78 rpm do dito cujo. Eu escutava no vitrolão da sala e Autumn Leaves era uma de minhas prediletas. Depois, já em LP, gamei na versão gravada por Nat King Cole. E um dia, já me acariocando, escutei Folhas Secas com Nelson Cavaquinho. Levei um tempo para retornar às folhas drifting by the wind originais. Hoje, gosto de ambas, já não sou mais carioca, perdi o Cavalaro e o cavaquinho, mas morro de saudades do outono que por aqui não outona como lá, apesar de sempre dar para pisar numas folhas secas lá na Praça.

Minha querida Anna Maria, em seu comentário, explica o nome do homem. Coisa de mãe, do Cavalaro

Saudades de Elis

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Como dizem os argentinos sobre Carlos Gardel (é, de vez em quando eles acertam), a Elis anda cantando cada vez melhor. Boa noite, meus amores!

O Buraco da Lacraia

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Sobre O Buraco da Lacraia não conto nem "morta"! E entre The Old Blues Eyes e a versão de Chitãozinho e Chororó (Minha Vida), essa raridade fica aqui dedicada ao Ricardo, novo amigo no velho Rio. Além de ser muito divertido ver o Elvis Gordinho dando uma de Sinatra.

Um pouco de música, até eu voltar

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A música é linda e Caetano um belo cantor. No mais é uma chegada que ainda não cheguei, mas estou quase. Pipoca manda lembranças a todos. Saudades do Barão!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Morrendo um pouco também

El poeta Ángel González ha fallecido esta noche a la edad de 82 años en una clínica de Madrid, según fuentes próximas al literato. González, nacido en Oviedo en septiembre de 1925, era uno de los grandes vates españoles del siglo XX. Ha sido merecedor de premios como el Príncipe de Asturias de las Letras y el Reina Sofía de Poesía Hispanoamericana. Además era miembro de la Real Academia Española. Su cuerpo será incinerado mañana en el cementerio de San Isidro. Sus cenizas serán trasladadas a Oviedo. (12/01/2008)
.
Aqui no blog, Ángel González compareceu com um lindo poema que vocês podem encontrar posts ago (Me basta asi!). Em meus sentimentos, o poeta marcou-se tão fundo que morro um pouco com ele.
.
Aliás, o poema Me basta asi! foi musicado belamente e gravado por Pedro Guerra juntamente com Ángel González. Aos interessados nessa gravação, que aqui não saberia postar, é só deixar pedido, endereço e eu prometo que mando. Dele deixo um pequeno poema, bastante apropriado para essas mortes todas (pois muitas mortes morrem com os poetas).
-

Epílogo...

Me arrepiento de tanta inútil queja,
de tanta
tentación improcedente.
Son las reglas del juego inapelables
y justifican toda, cualquier pérdida.
Ahora
sólo lo inesperado o lo imposible
podría hacerme llorar:
.
una resurrección, ninguna muerte.

Obrigado amiga, pela triste notícia, e Inês, que me mandou este poema tão cabido neste epílogo.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Dois Rios, duas linhas e um desencontro




O fruto de um sonho perdido
é sabor na boca acordado.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

E ternamente


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos

E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Lá vou eu, passar o Rio na minha vida, again.


.
.
.
O blogueiro viaja, o analista dos postes tira férias na casa dos primos, ou seja, uma boa oportunidade para vocês caminharem pelo passado ainda não visto do blog, já que futuras postagens deverão esperar pela minha volta do Rio, onde estarei muito ocupado para pensar as carambolas que aqui exponho.
Mas voltaremos, Mr. P. e eu, tão logo essa viagem acabe, ou mesmo lá, quem sabe.
Esse aviso se colocará adiantado na hora, para marcar o momento em que realmente já estarei na estrada. Portanto, confiram abaixo dele que pode até ser que alguma novidade pinte entre esse agora adiantado e a a hora que realmente fui.
Mas não deixem de colocar seus comentários, pois computador para ver o blog não me faltará por lá.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Ai-ai de Ano Novo

Scarlet Sunset, Turner

Arriscar o impossível

e, nas próprias carnes,

torná-lo crível.

Urgentemente

Silence, John Henry Fuseli, 1799-1801
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
.
Eugénio de Andrade(poeta português)
Obrigado, Inês.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Uruguaiana


Lo que conoces
es tan poco
lo que conoces de mí
lo que conoces
son mis nubes
son mis silencios
son mis gestos
lo que conoces
es la tristeza
de mi casa vista desde fuera
son los postigos de mi tristeza
el llamador de mi tristeza.
Pero no sabes
nada
a lo sumo,
piensas a veces
que es tan poco
lo que conozco
de ti
lo que conozco
o sea tus nubes
o tus silencios
o tus gestos
lo que conozco
es la tristeza
de tu casa vista desde afuera
son los postigos de tu tristeza
el llamador de tu tristeza.

Pero no llamo.
Pero no llamas.


Es Tan Poco/Mario Benedetti

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O Tarot da despedida

E lá vou eu, depois de ter feito que devia fazer (Orestes, matou mamãe, pela Lei dos Homens, conforme lhe exigiu Apolo, lembram-se?). Tolamente contente por haver seguido a Lei, tolamente inocente de que a vida é mais complexa do que parece.
No Tarot me esperam as Fúrias e a Outra Lei. Meus pares me julgarão, afinal.
E aqui encerro este Tarot sem sentidos que não fossem meus nem teus.
Como na carta, viajo. Como na vida, retornarei à eterna desventura do viver, como dizia Vinícius, meu tarólogo predileto, embaralhado até o fim.

Rol de promessas


No ano de 2008 prometo:

  • escutar mais música.
  • reler Mahler
  • ser uterino com a Callas
  • evitar o meloso pela diabetes
  • conhecer mais gentes
  • regar as gentes conhecidas
  • ter cabelos na fronha (de vez em quando)
  • parar de fumar (várias vezes, até parar de mentir)
  • beber cerveja mais gelada
  • esperar pelo Ipê florir
  • andar novos caminhos
  • deixar o filho casar
  • me apaixonar por carnes e ossos
  • ser mais sem vergonha
  • viajar para onde me esperam
  • me bastar, mas bem acompanhado
  • escrever mais do que ler
  • ler muito
  • do se mente fazer semente
  • cumprir-me sem promessas

Escultura

Y construí tu rostro.

Con adivinaciones del amor, construía tu rostro
en los lejanos patios de la infancia.
Albañil (pedreiro) con vergüenza,
yo me oculté del mundo para tallar tu imagen,
para darte la voz,
para poner dulzura en tu saliva.
Cuántas veces temblé
apenas si cubierto por la luz del verano
mientras te describía por mi sangre.
Pura mía,
estás hecha de cuántas estaciones
y tu gracia desciende como cuántos crepúsculos.
Cuántas de mis jornadas inventaron tus manos.
Qué infinito de besos contra la soledad
hunde tus pasos en el polvo.
Yo te oficié, te recité por los caminos,
escribí todos tus nombres al fondo de mi sombra,
te hice un sitio en mi lecho,
te amé, estela invisible, noche a noche.
Así fue que cantaron los silencios.
Años y años trabajé para hacerte
antes de oír un solo sonido de tu alma.

Fabrica del amor / Juan Gelman
Para ser escutado com Nelson Gonçalves ao fundo, cantando Escultura

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O último tarot?



O Mito do Eros e da Psyche está disponível nos bons mecanismos de busca. Que cada um leia a carta como quiser.
No mito o final é feliz, mas ainda tem muito inferno pela frente. Claro que entre Eros e Psyche e nossas mortalidades amorosas, corre um Hades sem fim. E Pipoca se recusa ser o Cérbero que dele, para meu conforto, esperaria. Sábio Pipoca, analista dos postes e dos não me gostes. Um dia ainda consigo escutar o que ele vive me devolvendo.
Mas como o Tarot é meu, me dou por satisfeito com interpretação que já fiz. Resta sofrê-la.
.
Mas dou consultas, a preços módicos.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Tarot do Zédu (mais abobrinhas místicas)


Naipe de espadas: o racional, o intelectual
Personagem: Orestes (Google, please!)
Resumo da brincadeira: Orestes, filho de Agamenon e Clytemnestra. Ela, junto com o amante, mata o marido. Mais para frente, Orestes mata a mãe a mando de Apolo (a lei dos homens torna mandatório que ele mate quem matou seu pai), passa a ser perseguido pelas Fúrias ( alei das mulheres torna mandatório que seja morto quem matou a mãe) e no final, dada a indecisão das leis divinas, inaugura o tribunal do júri, é absolvido por seus pares. Esses mitos gregos são sempre uma grande ópera, onde morre quase todo mundo no final e mesmo os que sobrevivem viram seres trágicos. Nesse momento dessa viagem/ópera das Espadas, a mãe já matou o pai e Orestes se recolhe (na realidade, é exilado em Phocis) para meditar sobre o que fazer e se preparar para o que vem pela frente. Mato ou não mato aquela de quem sou o f.d.p.?, that´s the question, as always is.
No nível divinatório, a carta guarda alguma semelhança com o Eremita, no sentido em prever tempos de recolhimento e recuperação frente à um impasse trágico que deve ser pensado racionalmente. Como na carta do Eremita, é melhor pensar bem, dar um tempo e acumular forças para enfrentar as tarefas difíceis que nos esperam. Decisões devem ser tomadas, mas muito bem pensadas. Quando essa carta aparece, talvez seja sábio aceitar a solidão ou recolhimento, e não sair tentando encher o tempo como zentas atividades; pois alguma quietude é necessária para colocar os pensamentos no lugar e ordem na própria vida. Mas, jamais fazer deste fugir da cena do crime uma evitação da responsabilidade, pois a Lei do Outro há e nela somos sujeitos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Aparesida ou O Franco preconceito ou Poupem-me!

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Esse vídeo encaminhei a todos de minha lista de "undisclosed recipients" lá no meu correio elegante. E, se alguma coisa ainda não tenho nenhuma dúvida sobre o encaminhado, é que ele é elegante e belo. Um balé de corpos no fogo do desejo. Um erotismo com a elegância insinuante que nos acostumamos a esperar dos franceses (nas artes, não necessariamente nas práticas de Monsieur e Madame) quando é do erótico do que se trata (me lembro sempre de Bataille e seu livro sobre o Erotismo). Mas, infelizmente, trata-se de uma peça publicitária, fragmento da campanha lá dos franceses sobre a questão da AIDS, ou SIDA, como a coisa é chamada por lá.
Elegância a parte, me ficou uma questão a incomodar: qual a mensagem? Pois as peças publicitárias se justificam na mensagem que tentam passar, não é vero? E depois de muito olhar a beleza da dança dos corpos na fogueira dos desejos, não posso deixar de perguntar: o que dali se depreende como alerta, como cócega em nossas consciências para que doemos (o que, no final das contas, ali se pede) para atacar o problema da AIDS?
Tem hora que olho para a beleza que se me oferece ali e entendo: o sexo, com muito tesão, é perigoso. Ou: o tesão é um perigo. Ou: não transe e estará a salvo da Peste. Ou uma série de coisas que tais, quase que como uma mensagem vaticana montada com a elegante competência da publicidade dos francos.
Morre-se de AIDS? Com certeza. Mas morre-se em corpos negros, africanos, pobres, tipo o Haiti de Caetano, onde o não acesso ao medicamento caro da indústria farmacêutica (que o mercado apóia na sua pretensão de um razoável retorno sobre o investimento), ou morre-se, talvez na republicana França, porque os remédios são caros e a França não é o Brasil, que com seu programa de distribuição de medicamentos virou exemplo ainda não tão seguido assim. Morre-se porque não se doa, como pede a peça ao final e como jamais vimos o Ministério da Saúde pedir por aqui.
Mas, mais preocupante, é a associação, belamente perversa, que a coisa faz entre o tesão, o sexo e a morte, sem jamais dizer que, hoje, só se morre por falta de dinheiro, ou de Estado, ou de educação. No mais das vezes morre-se por uma combinação, um coquetel, dessas causas todas: a falta de dinheiro, a falta de Estado e a falta de educação, mistura mortal na epidemia real que a AIDS significa. Continuar a associar a AIDS ao sexo (e, percebam, até mesmo uma possível associação com a promiscuidade se perde na elegância do funil francês), ao gozo, é como repetir o discurso canônico e garantir, como solução trivial, que sem sexo, pas de SIDA.
Vocês sabiam que os remédios distribuídos para os portadores do HIV brasileiro estampam, em todas as letras, para que servem? Que, para essa doença ainda tão estigmatizada pelos nosso preconceitos, os remédio alertam, para quem quiser e poder ler, a condição do consumidor do remédio? Vocês conhecem algum outro remédio que faça o mesmo? Tipo "esse remédio se destina à diarréia do paciente", "o consumidor destas pílulas sofre de flatulência grave", "quem me toma é um deprimido", "consuma-me direitinho e acabo com sua prisão de ventre". Pois todos os remédios que o Ministério da Saúde disponibiliza aos soropositivos brasileiros cobram esse preço: estampam em seus rótulos a condição do consumidor de suas maravilhas farmacológicas. Ou seja, de graça mas nem tanto. Gozou? Agora paga o que estamos te pagando, ó gozador!
Ou seja, como a AIDS/SIDA ainda, e mais ainda depois de termos livrado a cara dos hemofílicos com controles sobre o sangue dos bancos que deveriam existir muito antes da doença, é doença de quem goza, pau no gozo. Com as bençãos de nossas católicas melhores intenções. Aqui ou ali, em dejá vú (?). Mas ainda acho que o idiota brasileiro tá mais safo que o idiota francês. É só arrancar os rótulos e voilá!, pas de denúncia, pas de cobrança. O petit français certamente ainda vive de doações e belas peças publicitárias.
Pau no gozo! Senta a pua nessa gente que ainda trepa com tesão!
Sinceramente, não consigo ver na bela peça francesa nada além disso. Ou, para não ser tão chato, posso imaginar que apelam para o melodrama dos que ainda morrem (por trepar, por falta de dinheiro, por falta de Estado, por falta de educação para tomar os remédios, por falta de egalité, fraternité, não têm liberté) para nos tomar um caraminguá em prol dos enlouquecidos sexuados.
Ou estou de muito mau humor? Digam-me vocês, mas a coisa me dá belos engulhos. Bejart e a SIDA, mas pau na trepada, ou melhor, pas de pau, pas de trepada. Vamos nos ater ao fazer francesinhos, que há muito tempo só nascem pelo estouro das camisinhas Lacoste.
Allez les enfants de ma patrie, le jour de glorie c´est arrivé. Mais, pas de trepation, si vous plais! (???) Com muito sotaque na escrita, que não ,estou com saco de consultar les diccionaires)
Poupem-me! (mas o ballet é lindo!) Agora vou eremitar sobre tudo isso.

O Tarot do Zédu (07/01/08)

O Eremita é um dos Arcanos Maiores, cartas mais fortes, mais significativas mas, ao mesmo tempo, sempre ambíguas na duplicidade de suas possíveis significações. Diferente dos arcanos menores, sempre ligados ao naipe de onde são parte de uma viagem, um Arcano Maior se encerra nele mesmo, ou se assim quisermos, é uma etapa marcante na viajem do Tolo (primeiro dos Arcanos Maiores) da caverna donde emrge Tolo ao Mundo em seu esplendor (último dos Arcanos Maiores). Cada um deles é uma marca nesse caminho, uma encruzilhada que desafia o Tolo em nós na sua busca de sabedoria e integração com a Coisa.
A figura representa Cronos, que significa Tempo, o mais jovem dos Titãs, filho de Urano (Céu) e Gaia (Terra). Urano achava toda sua prole de semi-deuses um horror: feios, imperfeitos e, pior, feitos de carnes humanas, e os baniu para o mundo subterrâneo para que eles não ofendessem seus olhos divinos. Gaia, no entanto, ficou p. da vida e arrumou uma terrível vingança contra seu marido. Ela deu uma foice afiada para seu caçulinha, Cronos. Quando Urano chegou a noite para estar com ela, Cronos, que Gaia havia escondido, tomou da foice, castrou seu pai e jogou sua genitália sangrando no mar (aliás, na carta, a forma da foice relembra a lua crescente, e simboliza os flutuações eternas e os ciclos do tempo). Cronos liberta seus irmãos e reina sobre a Terra naquilo que se tornou conhecido com os Tempos Dourados (nada que ver com a Globo, please!). O resto do mito, quando Cronos não aceita ele próprio que tudo deve passar e engole seus filhos para não ser ameaçado, vocês procuram no Google, mas nunca é demais lembrar que Zeus será o caçula entre os filhos de Cronos, aquele que destronará o pai (Cronos, que assim repete, de maneira menos drástica, o destino de seu próprio pai, Urano) e iniciará a era dos deuses olímpicos. Cronos é novamente banido, e as lendas divergem para onde (profundezas do c. do judas, ou para uma ilha meio mares do sul), mas seja onde for, se põe pacientemente a esperar a volta dos Tempos Dourados. Enquanto espera esse tempo que nunca retornará, aprende em silêncio e em silêncio se deixa estar.
No Tarot, Cronos, o Eremita, é a imagem da última das quatro lições morais que o Tolo deve aprender: a lição do tempo e das limitações da vida mortal. Nada pode viver além de seu tempo e nada permanece imutável: e este simples fato da vida, a despeito de sua obviedade e simplicidade, é muito difícil de ser apreendido por nós, razão de muito sofrimento, cuja aprendizagem costuma vir só mais tarde na vida. Cronos é, ao mesmo tempo, o significado do tempo e a revolta contra ele. Ele aprende na solidão e no silêncio. De várias formas, ele é a imagem do próprio corpo, que fica inexoravelmente mais velho e, ainda assim, rebela-se contra seu destino mortal. A aceitação de que somos, em última instância, solitários e mortais é o dilema que todo ser humano deve encarar. A aceitação desta condição é também, de um modo misterioso, uma verdadeira separação dos pais e da infância, porque ela implica no sacrifício da fantasia de que algum dia, de alguma forma, alguém virá e, magicamente, fará tudo melhor. "Viveu feliz para sempre" é um sentimento que não pode sobreviver no mundo de Cronos. A juventude se transforma em maturidade, e aquela jamais poderá retornar; mas memória e sabedoria são destiladas pela passagem do tempo, e pelo dom da paciência.
A lição do Eremita é uma que não pode ser aprendida a6través de lutas e conquistas. O Eremita é a carta que se opõe à Força, representada por Hércules, pois a força não é capaz de parar o tempo. A sabedoria de Cronos se adquire somente com o tempo, por reflexão interior, na solidão de cada um de nós. Assim, Cronos é, de certa maneira, a imagem da humildade, que freqüentemente se aprende nas humilhações que sofremos em face do que não podemos mudar, mas que podem resultar na virtude da serenidade e paciência. Seja quão esperto for o intelecto, quão ardente o coração, quão forte o senso de identidade, as vicissitudes da vida nos derrubarão se não soubermos achar na paciência e prudência do Eremita a maneira de suporta-las e aguardar em silêncio. A face negativa de Cronos é a cristalização de uma maneira de ser que resiste às mudanças e à passagem do tempo. Mas a face criativa deste deus antigo e ambivalente é a sabedoria para mudar o que podemos, aceitar o que não podemos mudar, e esperar em silêncio até que aprendamos a diferenciar as duas coisas.
No nível divinatório, a carta de Cronos, o Eremita, aponta para um tempo de solidão e retirada das atividades exteriores da vida, de maneira que a paciência possa ser adquirida e o tempo se faça sabedoria. Aponta para uma ótima oportunidade de construirmos fundações sólidas se soubermos esperar, dar um tempo, olhar profundamente para nós mesmos. E, por outro lado, nos aponta também a necessidade de abandonarmos aquilo que nos imobiliza e impossibilita que a mudança e a novidade penetrem na nossa vida. Tempos de análise, diria eu.

The woman I love

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Ella é o máximo. Uma das grandes damas do jazz, ela é a careta da turma. Nunca se drogou (demais, pelo menos), não levava porrada de homem (só quando pedia, provavelmente), nem foi presa por porra nenhuma. Isso não a impediu de ser uma das maiores entre as maiores. Reparem a aparente ausência de esforço na sua potente maneira de cantar. O vídeo não deixa claro, mas me parece que isso foi gravado (na Alemanha) quando ela já tinha amputado alguma parte de suas pernas, já que parece cantar sentada (Ella morre tendo amputado ambas as pernas por causa da diabetes) E a música, The Man I Love, um dos clássicos, sempre me lembrará G. Karan em uma peça que já esqueci o nome, vestido de Drag Queen, descendo por um daqueles postes de quartel bombeiros americanos, cantando (bem e sensualmente) essa música. Divirtam-se.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Retrato a seis por quatro


Bacon, Três estudos sobre L. Freud, 1969
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Das coisas que vão e vem
Nada volta como antes.
O novo de novo é além
O mesmo, diferente o bastante.
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Das marés somos litoral
Contornos no eterno erodidos
Beijados de várias maneiras
Acumulados grãos de sal
Desfeitos traços lambidos
Novos desenhos de beira.
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Pois a onda que vem não deita
E são outras as ondas de sempre
O mesmo é espuma desfeita
No igual do tudo diferente.
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Nada se repete sem revolução
Tudo que repassa é outro
O retorno se veste de novo
No avesso da repetição
E dura, para sempre, um pouco
Germina e se desfaz em ovo.
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O amor não se repete no dito
Mesmo quando repetem amantes
Não há eterno, nem infinito
O sempre é só um instante.
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O instante é só uma bolha
Que voa no qualquer do vento
Redonda, brilhante e fina
Estoura na mão que a colha
Ou some no movimento
Em instantes de outras sinas.
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Por isso, meu caro leitor
Ao tempo permaneça atento
Pois nada, nem mesmo o amor
Se repete sem falecimento
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E d´Isso faço minha crença
Meu gozar, meu sofrimento
E invento para não repetir
Tecendo com a diferença
Que, apesar de todo tormento
Nos move e nos faz insistir.
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Hoje existo porque sou outro
E vivo me ressuscitando
Se não morro, fico louco
Se não mudo, termino acabando.
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Com Isso, digo e repito
Cavando minhas próprias verdades
Que as coisas que vão sem volta
Só retornam em nossos benditos
Quando no andar das vontades
O desejo lhes faz escolta.