sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A outra volta do parafuso



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Saudades do outono

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Acho que de todas as coisas que vivi em meus quase quatro anos de Inglaterra, uma das que mais tenho saudades é a coisa do outono que quase não temos por aqui. A profusão de cores nas folhas das árvores, a luz já meio caída do sol ajudando a tingir tudo mais amarelo-avermelhado, o azul mais profundo do céu (coisa que, confesso, não era tão fácil assim de ver lá por Londres e seu tempo quase sempre cinza), tudo isso faz do outuno uma estação particularmente cheia de cores, mais do que consegue a primavera e suas flores.
E outono é coisa meio de calendário por aqui, A passagem do verão para o inverno se dá sem grandes explosões, apesar de que, no Rio, a mudança da luz sempre foi bela, e as amendoeiras, que por lá abundam, se amarelam e se desfolham bem no que pede a estação. A questão é que são poucas as árvores que ligam para o outono e, assim, a aquarela é bem mais pobre.
Ora direis, outono agora? certo, perdeste do senso. E eu vos direi no entanto que foi o calor insuportável da semana, agora passada em temperaturas um pouco mais primaveris, que me fizeram atento aos outonos de nunca mais.
Além disso, a saudade levou à música, outra faixa do histórico encontro entre John Coltrane e Johnny Hartman, dois veludos melodiosos, voz e sax que se desfolham como árvores no outono.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A pedidos

Adoro minhas comentaristas, mesmo sem nunca ter entendido porque só as tenho no feminino. Às vezes, quase sempre, me orgulho dessa coisa das mulheres que me comentam.
Hoje, sigo um comentário que já nem sei mais onde foi postado e, apesar de todos os encontros que desenham essa minha vida, coloco a música que, entre tantos encontros, lembrou alguém de algum desencontro, de um caso de amor sem ponto final.
E, lembro, a dor do amor quando não passa é porque o amor valeu.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ponte dos Suspiros


Andas por esos mundos como yo; no me digas
Que no existes, existes, nos hemos de encontrar;
No nos conoceremos; disfrazados y torpes
Por los caminos echaremos a andar.
No nos conoceremos, distantes uno de otro
Sentirás mis suspiros y te oiré suspirar.
¿Dónde estará la boca, la boca que suspira?
Diremos, el camino volviendo a desandar.
Quizá nos encontremos frente a frente algún día,
Quizá nuestros disfraces, nos logremos quitar.
Y ahora me pregunto... ¿Cuando ocurra, si ocurre,
Sabré yo de suspiros, sabrás tú suspirar?

Alfonsina Storni / Un día

Com Inês.

sábado, 25 de outubro de 2008

Seda


Matisse
Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluír de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir,

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas como o pensar te pudesses partir.

António Gedeão ( Poemas escolhidos)
Para Inês

Regaço


Seurat
quero...

um regaço para chorar,
mas um regaço enorme, sem forma,
espaçoso como uma noite de verão, e
contudo próximo, quente, feminino,
ao pé de uma lareira qualquer.

um colo, um berço,
um braço quente
em torno do meu pescoço,
uma voz que cante baixo
e que pareça querer fazer-me
chorar.

um calor no inverno,
um extravio morno da minha
consciência.

e depois, sem som,
um sonho calmo,
um espaço enorme como a lua
rodando entre as estrelas.

Bernardo Soares
Livro do Desassossego

Ponto final

Os encontros são como os escritos, dependem de nossa imaginação, de nosso se deixar neles escorrer entre linhas, entre ditos, no ouvido do outro que nos encontra em nossas próprias suposições.
Alguns encontros são fugazes, são como coisas pequenas que se escreve nas sobras do dia, de ponto final apressado, de gosto de sobras de fácil digestão. Difícil um escrito curto que nos toque para além de uma graça ligeira, uma competência com o jogar com as palavras, um "bonitinho" mortal como avaliação. São, esse tipo de escrito e encontro, feitos para nos exercitar, para nos lembrar dos verdadeiros, escritos e encontros, e nos preparar para eles. Querer, deles, mais do que eles podem dar é exercício inútil que, mesmo assim, fazemos no quando em vez de nossas ilusões. O ponto final que os encerra deixa pouco no paladar, um quase nada na lembrança, uma marca em areias que qualquer mar dissolve.
No entanto, escritos e encontros, desses que que fazem valer todas as nossas penas, têm uma diferença fundamental. O escrito está sempre fadado a ser somente depois do ponto final. Mesmo lembrando que é o ponto final que permite os próximos escritos, cada um deles termina, inexoravelmente, bem ou mal dito, no ponto final que, às vezes, relutamos em colocar. É como um bom livro que nos captura e, a medida que vamos chegando ao seu final, diminuimos o ritmo da leitura para evitar o momento da última página, do ponto final definitivo. Talvez por isso eu goste muito de algumas obras inacabadas, como O Homem Sem Qualidades, de Musil. Talvez por isso eu me estenda, quase sempre, mais do que deveria, na evitação da angústia do ponto final. Mas isso, lembro, é coisa para boas escrituras, obras com intenção e arte. E, aqui como nos bons encontros, mesmo que o ponto final seja definitivo, as marcas do escrito permanecem, embalam nossa imaginação, se metem em nossos próprios escritos, moldam nossos estilos. Pois os escritos, todos, são sempre fundados em todos os escritos que o escritor já leu até o ponto final.
Já os encontros fundamentais não acabam nunca e, portanto, nunca chegam a seu ponto final, a menos até que a morte os separe, aos encontrantes. Muitas vezes, a maioria eu acho, os aparentes pontos finais só lembram que um novo parágrafo vai começar e a história continuará em um para sempre, mesmo que outra, mas, sempre, com algo que nunca muda na teia que o encontro sempre teceu. Mesmo que, por instantes, se acredite que, na teia do encontro, só reste uma aranha alucinada e sem sentido. Pois, se o encontro valeu, cedo ou tarde, o novo parágrafo se escreverá e a teia, qual colcha de Penélope será de tessitura sem fim na odisséia dos heróis dos encontros. Porque há um heroísmo no fazer de um encontro um para sempre que dure para além de todas as tempestades, de todas as mudanças de ritmo e estilos, de propósitos e sonhos. É coisa para poucos, encontros e encontrantes.
Como o encontro que aqui reencontro sem nunca tê-lo perdido, nem quando 34 anos de pausa interromperam uma linda história de encontros, desencontros, alegrias fulminantes, olhares de despedida, chorares por detrás da porta, portas que se quebraram de pura alegria, tardes de vinho, taças de chuva, um ser que sempre foi maior que o ter, sustos, tragédias, uma vida para poucos. Mas, cada um destes momentos, destes sentimentos, foi só um parágrafo nessa escritura que não terá fim no para sempre que nos caberá nessa história que reescolhemos nossa.
E é por esse encontro que peço, com as palavras com que sei pedir, para que ele permaneça e que eu possa seguir cada vez mais encantado com nossa coragem de, deste encontro, fazer nosso conto sem ponto final.
Bom te ver novamente, menina de meus colares de pérolas.

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A música, e a traquitana que toca, roubei dela
Um Zé melhor, mais simples, mais bonito, roubei dela
A Inês, roubei dela que tem tanta Inês para dar
Dela, no reencontrando, roubei minha vontade de sonhar.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Para sempre, poesia

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Pede como puderes e souberes

Pede com o olhar ou com

um mero pensar.


Pede com as palavras silenciadas

com os acordes das músicas entoadas

ou nos teus ditos de poetizar.


Pede do jeito que quiseres

com os dedos entrelaçados

ou os joelhos dobrados

sob um ipê desflorado.


Pede no tragar de uma cerveja

a cada baforar de uma incerteza

ou nos aromas de uma tarde de vinho

servido na taça de uma chuva cristalina.


Pede pelo desatar dos meus nós

pela existência de uma estrela guia

que te aponte a evidência

do meu continuar.


Pede em todos os sinônimos

que couberem na tua súplica

em todas as crenças e convicções

de que fores capaz...

mas pede por mim.


Há de haver por entre céus mares e rios

alguém que acolherá o teu pedir...

Inês, 24 de outubro de 2008

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Campineira

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Carlos Gomes, campineiro, maestro. É difícil achar obras suas no meio da falta de memória nacional.
Aqui uma pequena amostra de seu talento musical. Pela música, por Campinas de minha aurora, por uma nova aurora que brilha no horizonte.
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Dez pedaços e uma palavra

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Picasso

Engasgo

No início, era só um coração

Meio morto, meio cansado

Um som de samba canção

Um sonho se querendo sonhado.

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No começo, então, foi o sonho

Um algo por demais imaginado

Uma mesa onde me proponho

E te espero de olhos calados.

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Depois um conto, uma bossa nova

O sábado, o hotel e as ancas

Um final que nos pôs a prova

E uma decisão assim meio manca.

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E fomos, de final em final

Sem nunca termos começado

Uma distância sempre fatal

Dois sonhos desacordados.

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Mas era tão forte o encontro

Que sempre que terminados

O desejo nos fazia de tontos

E nos rejuntava encantados.

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Mas entre uma razão mal temperada

E a temperança de cabeça pra baixo

Vivemos, quase sempre assustados

Um tarot onde nunca me encaixo.

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E assim o fim foi determinado

Nos nossos olhares vesgos

Cada qual enxergando um lado

Desfeitos em um nós de cegos.

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E restamos depois meio trapos

Meio bêbados, meio engasgados

Lembranças virando farrapos

Do olhar, o vento soprando os traços.

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As brigas, as farpas, as tempestades

Fugas, gavotas, o Bach desafinado

Choros, soluços, maldades

Novos amores encomendados.

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Das fugas pretendemos encontros

As marcas do outro em cada um o cravo

Na boca o amargo, os abertos pontos

O resto mal dito, nos sujeitando escravos.

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Um dia, no amor pelas palavras

Por escrito fui costurando rasgos

E semeei as letras, e conjuguei as lavras

E, na terceira pessoa, me livrei do engasgo

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Zédu, 20/10/2008



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Chico Pedreiro

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Me lembro dele. Quase tão jovem quanto eu, estreava no Cine Ouro Verde, em Campinas, sua carreira profissional em um daqueles roadshows que um tal de Pica-Pau inventava com os astros da Bossa-Nova e os meninos do momento.
O fato é que, depois de seu início carioca, a nova MPB havia se mudado para onde o dinheiro havia. São Paulo, Rede Record (que não era nem Universal, nem do Reino de Deus, muito menos do "bispo" malandro), shows pelo interior paulista. E dá-lhe Zimbo Trio, Alaíde Costa, Paulinho Nogueira e a garotada. Entre eles um carioca perdido nas faculdades paulistanas, o Carioca, de nome Francisco, filho das Raízes do Brasil, como ele, anos depois, em 1993, confirmaria em outra música magnífica, Paratodos.
Mas eram tempos primeiros. Bandas e Carolinas, Morenas de olhos d´água, Pedro Pedreiro, coisas ingênuas mas já meio Chico, sambinhas como depois quase não mais se viu na sofisticação que suas letras foram se emprestando a tantos bons parceiros, excelentes músicos (Tom e Edu, por exemplo), de harmonias mais elegantes e complicadas. Mas, no início, era década de 60 ainda e Chico fazia um sambinha com cheiro de garoa.
Seja pelos festivais, seja pelo momento brasileiro, seja por que for, Chico Buarque de Holanda fincou raízes no Brasil e nunca mais conseguiu ser arrancado.
E Chico Buarque de Holanda, com seus olhos de maresia, sua timidez que até hoje resta, foi, tijolo a tijolo construindo o Chico e um pouco de todos nós. O Brasil, nesse caminhar, se descontruia na burrice militar, nas vozes afogadas pela censura, no horror que os idiotas fardados tinham do social. Em 1969, Chico é exilado na Itália
Aí, em 1971, de volta, Chico lança o que considero uma de suas mais geniais composições: Construção. O letrista, nessa música sozinho, faz da letra um mais que tudo, restando, à música, um pontuar a beleza, e dureza, poética da letra genial. E tão genial que virá aqui, na postagem, como reconhecimento do blog a essa construção sem igual.
Chico, senhor de todas as letras, continuou (continua?), mas Construção ergueu-se como marco definitivo de sua genialidade. Há 37 anos atrás.
Crianças, escutem! Senhores, relembrem! Meninas e senhoras, suspirem!
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Construção
(Chico Buarque)
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
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Para M., que também ama esta música

domingo, 19 de outubro de 2008

A ópera do Horário de verão

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Ontem, na postagem Summertime, por razões que só a postagem reconhece, Summertime ficou abortada e calou-se Sarah Vaughan. A música não merecia.
Summertime, composição de 1935 de George Gershwin para Porgy and Bess, saiu da ópera e ganhou o mundo do jazz, aliás como várias outras "árias" da referida ópera. A versão com que tento pagar a dívida com vocês é instrumental, absolutamente jazzística, com Sonny Rollins e Coleman Hawkins. As fotos me relembram o Leblon, o mirante de seu final, onde íamos, muitas vezes olhar a noite cair já bem tarde, nos horários de verão que lá passei. Esse, de 2007, foi bem mais quente do mostram as fotos.
E por falar em marcas, ontem me referi a um filme, Imitação da Vida (1959), com Lana Turner, talvez o primeiro dramalhão que me lembro ter assistido (daqueles não de sobrar olhos sem lágrimas, independente da chorosidade de cada um; eu, criança, talvez não soubesse chorar ainda, a vida me era, ainda, muito real para me deixar carregar por suas imitações, coisa que depois aprendi inevitável, o choro e a imitação). A cena do enterro da empregada negra ao som de Summertime ficou marcada em mim.
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Para Inês, que fotografou comigo

Sansão

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Em memória de Gilza, por outubro

Marcador

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figura: ferros de marcar

Adiante o relógio, pule uma hora,
Declare o seu horário de verão.
Às vezes adianta, outras vezes não.
Desculpe a paz que foi-se embora,
As marcas deixadas que já chorei,
O lápis, o ferro em brasa
O inverso, nas marcas, do que na vida
Os poucos versos
Qualquer coisa devida
O resto intragável
A aposta perdida
E o amigo impossível
Que nunca serei.

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sábado, 18 de outubro de 2008

Summertime




Você,
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Têm horas que você me sabe tão menininha. Não me pergunte por causa de que, que responder eu não saberia. Mas menininha, assim de diminutivo bonitinho (que nem sempre eles são, como bem sabe você, moça das letras), assim com uma certa brejeirice que se descombina com teus tantos anos, com teu tal tamanho, e se combina com os meses em que te conheci pequena e leve.
As marcas me chamaram atenção por serem poucas, na minha expectativa, e tão leves, de lápis tímido, oferecidas para um apagamento possível, um desmarcar que nunca farei. Não passei por elas, as tuas marcas, ainda; um dia haverei de. E, como temes em outro mail, concluirei você com a ousadia de que sou capaz, mas sempre sabendo que entre você que eu suponho e você, há uma distância tamanha e um nada que me justifica. Supunha-as, às marcas, em amarelo de marcadores, em confissões explícitas das frases gostadas e abaladas, das coisas afetadas, do indelével que de mim roubaste. Não foram, não são, jamais serão. Como tudo de você, são frágeis, pedindo apagamento ou, se assim eu quiser, acolhimento e guarda. A grandona que é tão pequenininha que ninguém percebe a pequenice. A menina que, uns dias, encontrou-se com um meu menino e se deu tão bem, ele com ela, ela com ele. O menino explícito com a menina implícita, que nunca foram, por conta disso tudo, homem e mulher (ou nunca se deixaram ser, jamais hei de saber). Meu encanto te encantando e, eu, encantado pelo próprio encantamento. Até que a vida nos acordou desacordados.
Reveja as marcas e escreva, que isso você sabe fazer direitinho, seja de que marcas falamos aqui.
Eu, por outro mesmo lado, nunca soube das marcas fazer escrita. Sei, às vezes, delas fazer poemas, no enquanto elas duram na marcação, enquanto ardem na pele sob o ferro que as faz marcantes. Quando viram cicatrizes, me recomponho, desapareço com elas, desconstruo o delas em mim, me revirginizo, leão covarde das batalhas passadas. Apago, ao custo de mim mesmo, e não as pago, nem me deixo as pagar, numa dívida em suspenso que, alucino, sustenta a ilusão de que nada nunca acaba, de que sempre resta um fio para um passado que nunca existiu ou para um futuro que nunca sequer foi sonhado.
Daí, talvez, ter te pedido as marcas no livro que nunca te dei. Daí tê-las imaginado em tintas de não apagar. Daí a dúvida que agora tenho se apagarei teus traços frágeis e te contarei esquecido do que foi você em uma coisa minha.
Sobre teus textos, não me convoque opiniões que ainda não te leio livre. Um deles já conhecia; o outro tomei por encomenda contada, coisa da moça exibida que se adora publicada. Competentes os dois, o segundo bem mais bonito que o primeiro (talvez por só tê-lo visto lá, onde ele se apresentou inédito para meu olhar já desacompanhado), a coisa dos flocos de neve, essas marcas que se derretem e viram quase nada de água, esse pai que não se derrete nunca, essas lembranças, que nem sei se tuas ou das tuas escrituras, a nomenclatura que exibes orgulhosa como quem escreve se dizendo especialista na coisa, esse texto bem torrado, servido no bem coado de depois de um tempo que já não suponho.
Teus textos, ainda tuas marcas, me demandam escritas sem sentido. O louco da casa rides again. Quem me dera a tua louca te habitasse e virasse tua temperança de cabeça para cima, que a imaginação sempre assustou as tuas razões bem plantadas em outras terras de colheitas difíceis. O calor dos nortes, as matas densas, as noites sem sorte e as vidas pretensas, tuas razões para todas as evitações de agora, para as repetições sem hora, para esse colo de pai que nunca mais nevará.
O horário de verão começa daqui a pouco. Summertime, choro que aprendi na imitação da vida que descobri nas telas do cinema.
Te respondi? Te devolvi algumas marcas minhas? Grafei? Ou, como usual, escrevi sozinho uma história que nunca soube contar direito?
De resto, nada será como antes.
Beijo,

Eu

PS. Desculpa, mas seco como ando, vou transformar esse meio ousado, meio cansado, em post lá onde me demonstro por escrito.


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sábado, 11 de outubro de 2008

A música que quase não foi

The Man I Love, de George e Ira Gershwin, ficou na gaveta dos compositores por muitos anos. Ruy Castro conta, em seu livro Tempestade de Ritmos: Era uma vez um compositor e um letrista que, tendo escrito uma canção que, sozinha, poderia render dinheiro para sustentá-los a ostras e charutos pelo resto da vida, deram-se ao luxo de deixá-la na gaveta - e, se não fosse por uma amiga que levou a partitura para Londres, onde esta foi tocada e "descoberta", a tal canção ficaria desconhecida para sempre. Dúvida? A canção é The Man I Love, e seus autores, os irmãos Gershwin, os estróinas que por pouco não poderiam ser acusados de um dos crimes do século: o de sonegar 32 dos mais belos compassos da música popular". Alguém discorda que seria um crime?
A canção já apareceu por aqui pelo blog, já não me lembro em qual gravação. O fato que quase não há cantora de jazz que não tenha ousado uma sua interpretação desta música. E, como acontece no jazz, cada uma leu a canção a sua maneira. A que aqui posto, depois desta longa pausa em que o blog também ficou na gaveta, é interpretada por Betty Carter, que a traduz de uma maneira bastante diferente das gravações que nos acostumamos a ouvir. Além disso, o acompanhamento musical é de primeira qualidade.
Fora isso, resta dizer que essa música é tão bela que mesmo a maneira como ficou marcada, indelevelmente, em mim, não consegue nunca estragar meu prazer de ouví-la. Mas, vamos ao meu azar: início da década de 80 no Rio de Janeiro, tempo em que eu frequentava muito os teatros cariocas. Uma noite, assistindo uma peça da qual só me lembro que era sobre um pobre rapaz novaiorquino, judeu, comunista e homossexual (temática meio comum naquela época) e seus sofrimentos. Em um certo momento, desce por um poste, tipo aqueles que vemos nos quatéis dos bombeiros do cinema, Guilherme Karan como uma drag-queen cantando, e bem, The Man I Love. Depois disso nunca mais consegui escutar a música sem me lembrar da cena ridícula e escrachada. Mas a música é tão boa que mesmo assim continuo me deliciando.
Ah!, em tempo. Carmen McRae chegou a dizer que Betty Carter era, na verdade, a única cantora de jazz que existia. Exagero, mas diz alguma coisa sobre Mrs. Betty Carter que ainda não havia comparecido por aqui, pelo menos sozinha já que em algum lugar do blog ela faz um dueto com Ray Charles em Baby, it´s cold outside. E, último aviso, a foto que ilustra o vídeo é de Billie Holiday, meio que a dona da canção.



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Um vídeo Zedupoca Productions que também pode ser encontardo no YouTube
Basta clicar aqui

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Vinícius de Moraes - Parte III - O poeta

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O poeta futuro

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde amanheço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço
Meu tempo é quando

Vinícius de Moraes
Los Angeles, 15/12/1949

Idoso mas alegrinho.

Eu disse que a alegria perduraria, não disse? E perdurará para além desta postagem que encerra, por aqui, mais de mês depois, minhas comemorações. Agora é tocar os sessenta, louvar as, cada vez mais, velhinhas, e buscar novas meninas novas para brincar. As outras ficaram velhinhas comigo, e mesmo que ainda adore elas, o gavião em mim fala mais alto (culpa delas mesmas que andaram me lembrando de gaviões e infidelidades, conforme postei abaixo).
Don´t worry! Be happy!
See you next september!



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Gavião infiel

Me convidam para o carnaval paulistano. Se não gostasse dos convidantes, o carioca em mim se ofenderia. Carnaval em São Paulo? Gaviões da Fiel? Pois sim!
Só mesmo em São Paulo se poderia confundir amores tão diferentes como o sambístico e o futebolístico. Aliás, desconfio, a coisa é mais corintiana do que sambista. E eu nem corintiano sou, muito pelo contrário, como me lembram minhas raízes pontepretanas, clube bem mais antigo que esse dos mano.
Quanto ao samba, digam que eu não vou, não posso, não devo. Meus 35 anos de Rio, de um amor meio envergonhado pela Estação Primeira, não mo permitem. Aliás, se possível, Carnaval no Rio, onde tantas saudades me esperam.
Mas, como compensação, vou tentar o gavião em mim e rapinar um pouco pelas campinas gerais. De São Paulo aguardo outras danças.

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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

(Pausa) Vésperas impressionistas


Só porque depois de amanhã é sábado.

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Dedicado aos cometáristas anônimos, aqui ou acolá

Perdidos e achados

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De outros litorais parti,
em um novo busco porto.
Pois se entre eles vivi,
em algum me farei morto.
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Naveguei sem precisão, que navegar é preciso
E por escutar poetas, vivia me despedindo
Perdi/achei/tentei, rumos, prumos e juízos
Exatamente impreciso, ia assim me consumindo
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Agora desejo porto, praias e areia
quero restar inscrito em um litoral
E como Anchieta de mão cheia,
traçar efêmero, meu bem, meu mal.
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Para isso larguei amores,
amigos e coisas sem fim.
Voltei à Nossa Senhora das Dores,
para prestar a-tensão em mim.

achado, perdido, em um mail de 07 do 02 de 2007
redito no 09 de outubro de 2008


Vinícius de Moraes - Parte II - Fidelidade


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De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor que tive:
Que não seja imortal posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes
Estoril, outubro de 1939

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Vinícius, Parte I _ Separação

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SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o presentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Vinícius de Moraes
Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot,
a caminho da Inglaterra, setembro de 1938.