segunda-feira, 30 de junho de 2008

Sobre poetas, amantes e canções



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Para Ti
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Final de junho

Quem quiser saber de meu junho, deve voltar ao final de maio. Ali mesmo onde, sem saber. no dia 30, eu afirmava que ainda havia muito maio pela frente, maio cumpriu-se outro. 
Junho foi um mês cheio de descobertas, turbilhões, medos e ousadias, mas foi um mês absolutamente terno, que acaba como o poente que ilustra o "vídeo": tão lindo que dá até tristeza.
A música que escolhi para encerrar esse mês tão esquisito (em espanhol ou inglês, por favor) é meio que como o poente, meio que como o meu sentir nesse fechar para balanço que vou me acostumando a fazer nos finais de mês: linda, terna e, como sempre, ligeiramente triste. Mas a dupla Coltrane e Hartman, faz muito tempo, merece seu lugar no meu blog. Amo-os desde muitos junhos passados.
Junho também foi o mês de um aumento consideravel de visitantes e, paradoxalmente, um mês pobre de comentários. Já me acostumei, pois junho foi o mês quando desconstruí minha solidão e aqui, mais do que sempre, brinco, com as palavras, com as músicas, com meus sentimentos, com todos vocês que me visitam.
Junho, enfim, revirou maio e aqueceu o meu inverno.
Junho foi a nesga de azul que resistiu até o final.
Junho foi um mês que nunca se porá completamente.
Até o mês que vem. Se junho deixar.



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Hotel

Quadro do hotel
Há um hotel em uma cidade pequena
aonde os sonhos acontecem.
Lá,
a portas fechadas,
a ilusão toma forma concreta
e o belo se instala com jeito de quem veio para ficar.
As sensações se ampliam,
o coração se esquenta e dispara,
o correr da vida pára.
Na pequena cidade,
no quarto em que através da janela a vista alcança longe,
os acontecimentos transcendem o mundano
e os fatos se tornam explicáveis.
Há um hotel em uma pequena cidade
aonde o irreal toma forma e lá,
apenas lá,
todas as interrogações se fazem plausíveis.
O pequeno se torna enorme,
o inexistente se materializa,
o riso aflora
e as borboletas entram pela janela,
sem medo de pousar.
Há um hotel bem pequeno em uma cidade pequena
que guarda um sentimento que,
de tão grande,
já não cabe na pequena cidade,
no pequeno quarto,
no pequeno hotel e então,
sorrindo,
agarra-se à asa da borboleta que pousa,
foge pela janela e vai ver o mundo
só para ter a alegria de voltar.

17/06/08 

Ela é bailarina

    "Um pontinho no nariz

Alteração: Produção momentânea, no tereno amoroso, de uma contra-imagem do objeto amado. No decorrer de incidentes ínfimos ou de ligeiras características, o sujeito vê a boa Imagem repentinamente se alterar e se inverter"

Fragmentos de Um Discurso Amoroso, Roland Barthes



. video.
ilustração do vídeo: Portinari

Sem palavras


Hoy tengo casi todas las palabras.

Pero me faltan casi todas.

Cada vez me faltan más.

Apenas si puedo unir éstas que escribo

para decir el resto de ternura

y el hueco de temor

que se esconden en la ausencia de todo,

en la creciente ausencia

que no pide palabras.

O pide tal vez una:

la única palabra que no tengo

y sin embargo no me falta.

Hoy Tengo Casi Todas Las Palabras... / Roberto Juarroz

sábado, 28 de junho de 2008

Sábado, ainda a ser

Belo vídeo, roubado do Orkut de uma amiga que roubou do YouTube onde era passarinho para quem quisesse pegar. Peguei.
Antecipa essa noite de sábado que será estrelada, independente das contingencias metereológicas. Afinal, noites estreladas estão virando a especialidade deste pequeno hotel, nesta pequena cidade do interior. 


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The paintings of Vincent Van Gogh set to Don McLean's "Starry Starry Night".

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Vésperas



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As duas coisas sem nome. O que será?

Essa música, todos vocês sabem, tem duas versões, na realidade e na minha história. Falo um pouco das duas que, no fundo, são uma só.
Para mim a coisa começou em Londres. E deve ter sido em algum momento de 1977/78. Alguém chegou de visita, como sempre com a mala cheia de LP's (década de 70, gente!) para saciar minha saudade das músicas brasileiras. Naquele tempo não se achava tudo em qualquer lugar como achamos hoje, não havia Internet, o globo ainda era só a bola em que habitávamos antes de virar globolizado. A saída do Brasil, por mais que fosse feita por razões de nossa própria vontade (de Nina e eu) tinha um que de exílio inevitável. Eu já não era tão jovem para cair na farra do novo Velho Mundo, Londres já não era tão maluquinha assim, a onda do início dos anos 70 já havia passado.
A estadia em Londres poderia ser dividida em três partes que O que será cortou pelo meio. No início, tudo era novidade, havia uma língua a dominar minimamente, uma cultura nova para tentar começar entender, um maravilhamento com o toda Europa tão ali pertinho, o deslumbre com uma outra qualidade de vida, ou seja, tudo era novo, tudo era diferente, a surpresa não tinha fim e a curiosidade dominava nosso encantamjento. A gente nem lembrava do Brasil lá longe, a não ser no quando em vez da saudade de um ou de outro. Morávamos em Bayswater, na beira do Hyde Park, no coração de Londres, durante toda essa fase. Éramos Nina e eu, rejuntados na novidade estrangeira, nos passeios pelo Parque, nas viagens pela Europa, no aprender um novo tempo, literalmente.
Depois vem uma segunda fase, mais madura, menos deslumbrada. Para Nina e eu ela começou com a gravidez, com o Bruno anunciado, com a mudança que sabíamos isso iria marcar em nossas vidas. Começou se marcando na mudança para East Finchley, para uma daquelas casinhas semidetached típicas de um bairro classe média baixa do norte de Londres. Mas aí já não precisávamos mais do Central London, já tínhamos nosso carro, já conhecíamos os caminhos, e pudemos optar pelo mais espaço para acolher Bruno que nem tinha nome ainda. Foi uma fase de muita tranquilidade, de barriga crescendo, eu descobrindo a fotografia, a gente continuando a descobrir a Europa, os sapatinhos sendo tricotados aqui no Brasil. As visitas vindas daqui começaram a aumentar na mesma proporção que a barriga da Nina. Sempre com novidades musicais. A saudade do Brasil começa a se infiltrar, o diferente indigesto a incomodar, o inverno a virar um deserto difícil de atravessar. Buscávamos o sol sempre que podíamos, tanto que conhecemos mais da Espanha, Itália, etc, do que da própria Inglaterra.
A terceira fase, Bruno já nascido, é igual a segunda com uma saudade que vai crescendo exponencialmente, com uma falta das nossas coisas, do nosso clima, das nossas pessoas, da nossa língua. Até um dia estourar e nos mandar de volta antes da hora.
Pois então, em algum momento, bem no meio desta três fases, alguém chega com um LP onde Chico e Milton cantam a versão original da música Ou era a outra versão, já não sei mais e nem é importante para o que aqui se conta). O Brasil desabou dentro de mim. A voz de Milton e Chico, a beleza da canção e da letra, tudo se transformou num Tâmisa de lágrimas que escorreram por minha face querendo ser Tietê ou toda a água da baia da Guanabara. Pela primeira vez eu chorava de saudade na minha vida. Por isso digo que marcou o meio das três fases, pois depois d' O que será não dava mais para não sentir saudade e essa só fez aumentar.
Essa é a música que Milton canta com Chico em um dos dois vídeos coloco nesta postagem. Essa é a música que me fez chorar de vontade de Brasil e acabou me mandando de volta para casa tempos depois.
A segunda versão, com letra feita para o filme Dona Flor (eu acho) ou Gabriela (talvez), é outra coisa. A ditadura dos generais acabou, mas a ditadura da coisa sem nome não acaba nunca. E, ainda hoje, dependendo de meu estado amoroso, essa coisa sem nome, nem explicação, esse o que será que nos dá, me mareja o olhar, seja por excesso de amor, seja por sua falta. E essa, a segunda e mais comercial das versões, é a que fará muita gente se emocionar por muito tempo ainda. Além disso, essa versão amorosa na voz do Milton é de degelar corações enpedernidos.
Nos comentários colocarei as duas letras. No post, as duas músicas. Em mim uma emoção do tamanho do mundo, com uma ou com outra. 
Preparem os lenços e curtam! Cada um que chore pelo seu O que será?



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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Quadrinhas de um amor dialético

Minha poesia escorre toda para ela
Não me sobram palavras para compor
Pois voam, soltas, pelas janelas
Em cartas, bilhetes, recados de amor.

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Nem toda a dor vale a pena
Nem toda pena presta a tensão
Nem toda alma é pequena
Nem tudo é só ilusão.

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Nela eu me desfaço,
nela eu me descubro novo
Nela procuro e me acho
Nela um fim e um ovo.

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As escolhas são sempre precárias
No pretender conhecer o desejo
Mas, de nós, as coisas necessárias
Repetimos com um olhar vesgo.

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Na mesa do bar eu tento
Do amor apreender a razão
Da dor e do sofrimento,
da alegria e de todo tesão.

Frango, 26 de junho de 2008

Minha mãe, Dona Nise

Da mãe a gente nunca tem muito o que quer falar, a não ser para o nosso analista.
Ou, da mãe teríamos tanto a falar que esgotaríamos a paciência do ouvinte em uma história interminável por definição. A mãe, que vem lá da Mãe que um dia nos fez dela sujeitos até que nos libertasse com outro nome, é sempre um mistério, um resto inarredável de Real que nos contingencia.
A minha, Dona Nise, faria hoje 83 anos. E daqui a exatos 31 dias do mês passante, fará 4 anos que morreu. Tinha que falar dela, já que a percebo mais presente do que nunca. E olha que levei uma vida quase toda para poder supô-la presente.
Daí que procurei música para falar dela, sem muito ter de falar. Me lembrei de quando falei de meu pai por aqui e foi tão fácil falar dele num pai que todos reconheceriam. Buscava algo da mesma ordem para minha mãe. Aí me dei conta que a mãe é só minha, a de meus irmãos é outra, outra ainda de todos que a conheceram. Mãe é sempre não toda, onde o resto que dela escapa é o que a faz nossa e única.
Mas, precisava de uma música que falasse de minha mãe. Uma, a que mais se grudava à uma lembrança real, eu já havia colocado no blog (Love is a many splendored thing). Essa era a que mais me lembrava a mãe-minha-namorada-minha-mãe. Mas já havia, à música, usado, no dia em que lembrei  que, de mãos dadas com o meu menino, esperamos na fila do cinema para assistir Suplício de Uma Saudade. 
Daí lembrei de outra que não sei porque sempre me lembra ela (papo para um divã desconfortável). Mais exatamente, lembrava da música com Nat King Cole, de quem sei que ela sempre gostou. Já a música, seja lá com quem for, sempre fala dela para esse filho dela.
E posto aqui a música, para sempre ela, já que filho é sempre fascinado pela mãe.
A benção, minha mãe. Tua é toda a minha dor, tuas são todas as minhas formas de amor.


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PS: Desculpa, mãe, mas não consegui separá-la de papai.

Seis por meia dúzia, de quatro. Me repetindo

Bacon,
Das coisas que vão e vem
Nada volta como antes.
O novo de novo é além
O mesmo, diferente o bastante.
.
Das marés somos litoral
Contornos no eterno erodidos
Beijados de várias maneiras
Acumulados grãos de sal
Desfeitos traços lambidos
Novos desenhos de beira.
.
Pois a onda que vem não deita
E são outras as ondas de sempre
O mesmo é espuma desfeita
No igual do tudo diferente.
.
Nada se repete sem revolução
Tudo que repassa é outro
O retorno se veste de novo
No avesso da repetição
E dura, para sempre, um pouco
Germina e se desfaz em ovo.
.
O amor não se repete no dito
Mesmo quando repetem amantes
Não há eterno, nem infinito
O sempre é só um instante.
.
O instante é só uma bolha
Que voa no qualquer do vento
Redonda, brilhante e fina
Estoura na mão que a colha
Ou some no movimento
Em instantes de outras sinas.
.
Por isso, meu caro leitor
Ao tempo permaneça atento
Pois nada, nem mesmo o amor
Se repete sem falecimento
.
E d´Isso faço minha crença
Meu gozar, meu sofrimento
E invento para não repetir
Tecendo com a diferença
Que, apesar de todo tormento
Nos move e nos faz insistir.
.
Hoje existo porque sou outro
E vivo me ressuscitando
Se não morro, fico louco
Se não mudo, termino acabando.
.
Com Isso, digo e repito
Cavando minhas próprias verdades
Que as coisas que vão sem volta
Só retornam em nossos benditos
Quando no andar das vontades
O desejo lhes faz escolta.

Cheiro de ralo

Dali

Dali donde me sinto,
Me perco, de mim escorro,
Desapareço no ralo.

Daqui, donde me minto,
Vivo, engano e morro,
Mas jamais me calo.

Do baú dos ossos

E ternamente música


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Letra vadia




Não acredito em silêncios
São sempre ensurdecedores.
Se aninham, cheios de letras
Nos desvãos de nossos terrores.

E elas falam, falam, sempre vazias
Misturam-se com nossos contos
Retornam em falas vazias
Nos afogam, nos deixam tontos.

É preciso ao falar dar abrigo
Gritar se necessário for
E arrancar dos esconderijos
O sentido e sua dor.

Depois dar trabalho às letras
Fazê-las espernear
Jogá-las pelas sarjetas
E deixá-las para a chuva levar.

Praça, 26 de junho de 2008

Brevidades




I. As palavras mais se falam
quando se calam.

II. Algumas batalhas são perdidas
na razão mesma de batalhar.

III. Morrer é fácil;
difícil é ressuscitar.

IV. Para que haja a infelicidade,
é preciso que o próprio bem faça mal 
(Schiller)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Barcarola

Presente criança,
que não quero jamais passado
mesmo quando for só lembrança
lá no bazar dos sonhos guardado.

Assim desde sempre te quis,
assim, aqui, inda te quero.
Para sempre por um triz,
querendo sem saber se espero.

Meu presente é agora,
em ti que me constróis em Je,
em cores de barcarola
bandeiras de eu e você.

E assim sigo encantado
no teu olhar de passagem.
E ouso, despudorado,
dedicar-te minhas bobagens.


All of me. Why not?




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Brincando de desentender o amor

Namorados, Ismael nery
Se alguém souber explicar, não me conte. 
Gosto assim sem explicação.
Sem amanhã ou anteontem, 
meio assim, música e emoção. 

Um piano dentro da gente,
notas com muito tempero, 
um sempre assim de repente, 
um sufoco, um  exagero. 

É assim que gosto, 
assim que deve ser, 
esse não saber em que aposto,
e essa puta vontade de viver.

Para a moça que tem Ismael Nery em casa

domingo, 22 de junho de 2008

Outro domingo

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Um filme encantador, uma trilha sonora da maior beleza de Yann Tiersen
Recebi as músicas do filme de Meire, muito tempo atrás. Dormiram no meu computador durante um longo período.
Aí, me lembrei do filme, reescutei suas músicas e fiquei encantado. Usei uma delas na postagem Buracos no vazio. Essa, a Valsa de Amélie, caçada lá pelo YouTube é um presente meu e da Meire para vocês.
E mais, combina com os ecos  de um piano que ainda escuto com prazer depois de outro domingo encantador.
Barão Geraldo, 22 de junho de 2008





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sábado, 21 de junho de 2008

O amar depois do mar



















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>
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Paul-Cezanne_The-Sea-at-L'Estaque

O Amor, meu amor

(...)

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar. 

Mia Couto

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Buracos no vazio


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As coisas belas,
mais do que findas, 
permanecerão lindas.
quase  Drummond
no 20 de junho de 2008

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Apesar de tudo, um dia há de passar.



Foto: Augusto Ramasco

Eu já postei o Hino da Anistia, no bêbado que se equibrava na música primorosa de João Bosco e Aldir Blanc, que Elis tornou emocionante e inesquecível.
Mas, outro dia, numa conversa mole com Ramasco, olhei para a foto que abre esta postagem e me lembrei. Havia que falar de um certo outro hino, uma coisa da resistência tímida que fazíamos enquanto a coisa burra ainda vigorava. Daí essa postagem, essa recordação,  esse drible inteligente na censura burra, nos militares burros, na ditadura estúpida. Daí esse canto que nos permitia cantar e que dura até hoje, quando a estupidez passou mas não passam nossas lembranças nem nossos desapontamentos.
Nunca mais! Mesmo sabendo que, como tudo, a estupidez tende a retornar, a liberação a não se cumprir, os nossos desejos restarem só nossos, para sempre desejos de coisas que, sonhamos, um dia haverão de passar. Mesmo, escolados, tendo aprendido que tudo passa e nada passa, que as coisas mudam para permanecerem as mesmas. Il Gattopardo, nos lembra Lampedusa e Visconti!
Mas, em homenagem a um tempo em que sonhávamos juntos, e cantávamos, resistentementes alegres em mesas de bar, essa música aqui encontra, atrasada, seu devido lugar.

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terça-feira, 17 de junho de 2008

Um domingo qualquer

fotos: Je
Enquanto isso, em um domingo qualquer em Barão Geraldo... 

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Domingo

No domingo Deus resolveu
o mundo para além da ciência,
o macho e a fêmea,
a diferença
e as almas gêmeas.
No domingo Deus trabalhou,
criou os encontros,
todos os encantos,
dois seres tontos
e os quatro cantos.
No domingo Deus inventou
as coisas sem nome,
as palavras sem fronteira,
as bruxas e os lobisomens,
a alegria e as besteiras.
No domingo, Deus se esforçou
para além da natureza,
no mais além da humanidade,
e criou o belo e a beleza,
o bom e a felicidade.

No domingo Deus se olhou
e, finalmente, descansou.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ciranda, cirandinha

E
"...lembrando Custódio Mesquita e Mario Lago, poderíamos cantarolar : "Nada além / nada além
de uma ilusão /...", ao que a platéia em uníssono poderia pontuar: IN-VENTA."

Final dos anos 80. Nas Vitrines do Leblon. Eu cheguei meio assim distraído, como quem nem sabe o que quer. Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, onde se "ensinava" a tal da Psicanálise pintada por Jacques Lacan. E, em minha distração, quando fui me ver novamente, já me havia perdido, absolutamente perdido. Apaixonei-me pela Psicanálise e pela Coisa, sem nem desconfiar que não há uma sem a outra. Paixão grave, destas de nos fazer enxergar Lacan na Sessão Coruja (no que antecipei, sozinho, Sisek). Fiquei besta, como sempre fui.
Aí organizaram uma Ciranda, que eles tinham mania de colocar nomes engraçadinhos nos colóquios, encontros, seminários, ´ssas coisas da extensão da Coisa e da cobrança da produção. A Ciranda era uma cirandinha, coisa para iniciantes apaixonados como eu. Me meti, já que metido sempre fui e a Psicanálise agora me autorizava. 
Aí escrevi um trabalho, minha primeira produção para a nova musa. Coisa sobre o espelho lacaniano que denominei Ali se dá maravilhas, começando uma coisa de brincar com as palavras que a peste psicanalítica havia liberado em mim.
Auditório enorme, lotado, eu entrava logo depois do almoço, coisa que minha experiência de professor já havia ensinado ser o pior horário. Barrigas almoçadas, sonolência, o logo depois do almoço exige piruetas mortais, começão de fogo e outras artes e manhas para manter a platéia.
No fim, tudo se resolveu quando Nina chegou, com Bruno e Pedro, minhas então duas crianças. Sentadinhos na primeira fila que Nina não sei como cavou, o rosto orgulhoso de quem muito espera do pai no palco me iluminou. Claro que o trabalho era bom, que eu era meio diferente do resto da turma (engenheiro, fazedor de gerentes, bicho meio raro naquele grupo) o que me permitiu uma visão mais brincalhona com a Coisa. Mas o fato é que foram aquelas duas carinhas de espectative e orgulho que me salvaram dos nervosismos e inseguranças. Falei para eles. E só deles escutei as palmas que todo o auditório batia ao final. Nunca esqueci os rostinhos, a alegria que neles vi, o orgulho. Acho que poucas outras vezes fui um pai tão orgulhoso e comovido. Até hoje aqueles rostos me emocionam.
Tudo isso para dizer que o trabalho finalizava com os versos da música que aqui posto. E tudo isso para dizer, que amo meus filhos e que hoje sou eu que me orgulho deles. São, Bruno e Pedro, minhas melhores ilusões.

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16 de junho de 2008, dia dos 26 anos de meu filho Pedro

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Para Ti






Nos ridículos destes fragmentos,
espero que tu possas encontrar,
além de todo um meu sentimento,
um apreender-te e um mais gozar.

E descobrir aos poucos, aqui e ali,
não o insólito, o raro, a majestade,
mas a que chora, ama, desespera e ri, 
teus tolos pedaços de humanidade.






Barão, 14 de junho de 2008

The Devil´s Trumpeter

foto: Anton Corbijn
Que Miles Davis é um demônio quando sopra seu trumpete, ou um anjo que também pode ser, ninguém que o conheça haverá de negar. Picasso do Jazz, Rei do Cool, Príncipe das Trevas, Mago da Escuridão, Camaleão do Jazz, esses títulos pomposos, uns entre vários que ele teve ao longo de sua trajetória de quase cinco décadas, nos permitem uma pálida idéia sobre esse música que quase nunca acordava o mesmo. Mas, se conhece jazz, você sabe quem é simplesmente Miles, mesmo que dele não goste ou, o que é mais comum, que não concorde com os caminhos que esse ser inquieto foi tomando ao longo de seu tempo. Mas o Miles aqui entra como desculpa para boa música, algumas lembranças e um pouco de história do jazz.
É interessante notar que, do seu nascimento, passando por todas as grandes inflexões que sofreu pelo caminho, a curva do jazz, de New Orleans até o Jazz Fusion, sempre foi determinada por um trumpete. Primeiro o trumpete de Louis Armstrong, verdadeiro marco de nascimento do jazz moderno. Depois outros tantos como Dizzie Gillespie no movimento be-bop e Miles, no hard jazz, no cool jazz, etc. Mas sempre era um trompete que liderava a cena, acompanhado ou não de um sax, como foi o de Charlie Parker na companhia de Gillespie, Coltrane com o próprio Miles.
Interessante notar que, em um gênero tão cheio de fantásticos músicos em todos os instrumentos, pianistas de categoria incontestável, foram os sopradores de sons, de vidro como no trumpete, de vinho como no sax, que foram marcando as mudanças na cena onde o jazz nunca parou de se desenvolver.
Voltando a Miles, podemos dizer que só não esteve à frente do free jazz, época em que deu um aparente passo atrás. Mas, quem se lembra do Concerto de Aranjuez, em Sketches of Spain, não chamaria de passo atrás a tentativa de Miles juntar o jazz e o erudito. Concerto de Aranjuez, com Miles, foi a primeira peça de sopro a me emocionar, na minha, então, incipiente aprendizagem musical. 
Mais tarde, Miles comanda as tentativas de fusão com o rock, com o funk, o R&B ou o rap. É nesta época que que Miles desagrada puristas, outros músicos, críticos e até antigos fãs. Mas, The Devil´s Trumpeter seguiu o seu desejo e pagou seu preço. O Diabo tocava trumpete
A música aqui escolhida pode ser dita dos inícios do cool jazz, gravada em 1952.  Escolha minha, há um monte de Miles esperando quem gosta pelos cantos da Internet. Porque o verdadeiro nome dele sempre foi Legião. Fiquem com esse meu, busquem o de vocês.
Enjoy it!

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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dia dos Namorados

A todas as minhas namoradas,
as que foram, as que são,
dedico, de maneira apaixonada,
minha ternura feita canção.

Se soubesse cantar, cantaria,
 de coração esparramado, 
e de todas vocês me faria,
e-terno enamorado.

Quadrinha ao estilo Vó Pata, uma de minhas namoradas.

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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Perguntas a 3 por 4


 Miró

O que é esse isso que nos dá, 
que nos vicia os quereres 
num sem parar de trocar?

O que é essa alegria de ser,
que nos tinta os dizeres
e nos inventa um eu e você?

O que é esse tanto de humores,
que nos bagunça os saberes
e nos faz explodir em cores?

O que é essa coisa leve,
que nos tempera os sabores
e nos faz desejar o breve?

O que é essa louca prosa,
que nos provoca os sensores
e nos tinta em tons de rosa?

O que é que hoje nos deu,
que nos afogou os censores
neste pouco de você e eu?

O que é, o que é
essa coisa gostosa,
sem cabeça, nem pé,
que nos assola a prosa?

Que que é isso, companheira,
que nos torna tolinhos,
sem eira nem beira,
derramando carinhos?

O que é esse inverso, 
essa coisa tão pura
que nos solta o verso
e nos esconde a censura?

Responda você se puder
que eu desisti de tentar.
Responda você se quiser, 
que fico do jeito que está!

Frango, 09 de junho de 2008

Receita para me entender comigo mesmo






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Nós


Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

Mia Couto
herança bem dita

Ai-ai dialético








Mas, por outro lado,
de musa nova,
o poeta vive ocupado.