sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O último Pierrô


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E dando os trâmites por findos, acabo fevereiro me repetindo.

A dor não tem sexo

Em janeiro, acredito, já que não sou dado a pesquisar meu prório blog e não confio mais tanto assim em minha memória, coloquei, em seqüência, a Elis Atrás da Porta e Jacques Brel tocando a campainha, ambos implorando um Ne me quite pas, como exemplo das diferentes formas do amor doer. Uma, teorica e desesperadamente feminina, outra, de um macho entregue e sem vergonha.
Aqui coloco o Ne me quite pas de Brel na bela interpretação de Maísa. E mostro que cantar é interpretar, e que a dor dói por igual através dos sexos e dos séculos. E com a vantagem adicional do vídeo conter legendas, que aqui ficarão minúsculas, em português.
Penúltimo post do mês, vejo-o como um desesperado hino de horror à solidão. Quem quiser que veja outra coisa, pois o meu fevereiro foi só meu e de mais ninguém.
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Final de fevereiro, um mês em que as músicas me ajudaram a disfarçar a incapacidade da escrita. Descobri que o tédio e o espanto frente o inesperado me calam. Mas sempre havia uma música para falar por mim, mesmo que às vezes tenha postado coisas só porque são belas. Outras, no entanto, as músicas falaram por mim, de mim e comigo.
Esse será o antepenúltimo post do mês (decisão que tomo no instante mesmo em que digito isso aqui) e homenageia o jazz, o Showblog, de onde roubvo quase todos os vídeos realmente vídeos, e a boa música.
A dupla aqui presente merece uns comentários. Shirley Horn, pianista, vocalista e bandleader, é um intérprete como poucas, apesar de não ser das mais antigas na cena jazzística (começou em 1960). Um ano depois, nasce Wynton Marsalis, responsável por uma certa recuperação do prestígio do jazz atualmente (ver biografia, em inglês, no link). Trompetista clássico de renome, consegue ser, ao mesmo tempo, um excelente músico de jazz. A música é Basin Street Blues, de Spencer Willian, gravada por Louis Armstrong em 1928. Ou seja, todas as eras do jazz aqui se apresentam. Divirtam-se!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Tirando a minha cartola

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É preciso dizer alguma coisa?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Devolução de vida



Eu te agradeço

Pelas vezes que me fez sonhar,
Pelas lágrimas de emoção que me fez derramar,
Pela imensa alegria que me fez sentir,
Pela capacidade de injetar-me confiança,
Por fazer-me vislumbrar um risonho porvir.


Por ter ensejado que eu me abrisse,
Escutado minhas tolices,
Desentocando fantasmas escondidos no porão
Nesses tempos, longos tempos de desilusão.

Por cada pedaço de mim que você resgatou,
Pelo vasto território do qual se apossou,
Que é agora terreno fértil, solo promissor
Por você preparado, iluminado,
mais do que pronto para receber o amor.


E ainda, amor meu, que o destino decida
que você é somente a ponte, a fonte, o meio e não o fim,
Quando alguém real chegar para ficar,
Ele terá que amar-me e, amando-me, enfim,
Sem saber ele estará amando também a outra metade,
Que leva o teu nome ... que já faz parte de mim!

Autor, por enquanto, desconhecido

Morangos Silvestres

Era uma vez, como em todas as fábulas, uma pessoa. Homem ou mulher, aqui não faz a menor diferença. Pois caminhava essa pessoa despreocupada por uma bela floresta quando, de repente, também como costuma acontecer nas fábulas, ouviu o terrível rugido de uma onça. Assustada, se apavora ao perceber que a onça vinha em sua direção. Sai em desabalada carreira, com a onça em seus passos, por entre galhos e espinhos, na tentativa de fugir do encontro com o bicho. Sem perceber direito o caminho pelo qual fugia, pois voltava sua vista para trás controlando a aproximação da fera, eis que a pessoa se percebe chegando na beira de um profundo precipício. Pior, sem tempo para frear sua corrida assustada, escorrega na borda daquele buraco sem fundo, e, desesperada, consegue se agarrar a alguns galhos que evitam a queda mortal. E eis que ela se vê entre o fundo do precipício e a onça que a esperava na borda do penhasco.
No meio dessa situação sem saída, olha para o lado e vê umas folhagens ao alcance de suas mãos. Solta uma das mãos dos galhos onde se agarrava febrilmente, revira a folhagem, e descobre que elas ocultavam vários morangos maduros. Colhe um morango, leva-o a boca e delicia-se com seu sabor.
E assim se deixa ficar, saboreando os morangos que se oferecem ao seu paladar. A onça e o precipício permanecem onde estavam.
Fim da fábula.
.
Moral da história: Cada um que invente a sua.
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Cada um que conte a moral da história lá nos comentários.

Sobre vivos

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Chet Baker. Branco numa "terra de negros", trumpetista suave, sensibilidade rara, é uma das histórias mais sofridas entre tantas outras envolvendo a complicada relação dos músicos de jazz com as drogas. Morreu misteriosamente (suicídio, acidente, loucura de um barato?) em um pequeno hotel em Amesterdã no ano de 1988. Apanhou muito dos traficantes para quem devia dinheiro( e sempre as pancadas eram no seu instrumento de trabalho, a boca) Talvez até por isso, depois de várias prisões nos EEUU e umas tantas outras surras, se "exila" na Europa e passa a cantar cada vez mais. Seu modo de cantar é inédito para a época; voz pequena, canto sussurrado. Há uma grande discussão sobre a direção da influência entre Chet Baker e alguns ícones da Bossa Nova, como João Gilberto e Carlos Lyra, por exemplo.
Mas tudo isso vocês podem ler na Wikipédia para onde o link acima os remete. Aqui o que me interessa é a canção e sua letra, que posto abaixo para que possam acompanhar o canto com as palavras. Nos créditos finais do "filminho" dou o devido reconhecimento para quem me lembrou, tempos atrás, dessa linda canção que teve que esperar seu momento para aqui se justificar.

I Get Along Without You Very Well
written by Hoagy Carmichael
© 1939 Famous Music Corp (ASCAP)

I get along without you very well
Of course I do
Except when soft rains fall
And drip from leaves
Then I recall
The thrill of being sheltered in your arms
Of course I do

But I get along without you very well
I've forgotten you just like I should
Of course I have
Except to hear your name
Or someone's laugh that is the same
But I've forgotten you just like I should

What a guy
What a fool am I
To think my breaking heart could kid the moon
What's in store
Should I fall once more
No it's best that I stick to my tune

I get along without you very well
Of course I do
Except perhaps in spring
But I should never think of spring
For that would surely break my heart in two

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Mais folhas drifting by the wind

Já contei que tudo começou com Carmen Cavalaro em 78 rpm. Depois veio Nat King Cole, no LP The Best od Nat King Cole. Naquele tempo eu nem sabia que ele havia sido uma grande figura do jazz antes de resolver ganhar dinheiro com sua voz aveludada (um dia ainda posto algo dele no jazz, e aproveito e mostro a grande cantora que era Doris Day, antes de virar namoradinha do Rock Hudson, que nunca foi chegado na coisa, e acabou morrendo de AIDS no início da epidemia). Pois é, aqui vai o romântico Nat King Cole, cantando a música de meus primeiros romances. Vídeo roubado do Showblog, é claro.
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Sexo, drogas e Rock´nd Roll




Hoje saio para encontrar meus coleguinhas de ginásio e colégio, tudo cria do Colégio Estadual Culto à Ciência (apesar de que, pelo número de mails explicando a ausência, corro o risco de fumar sózinho o cigarrinho de orégano que preparei para a ocasião). A tarde será de reconhecimento, comparações de barrigas, calvícies,, e de lembranças dos meninos, e meninas, que já fomos. A grande maioria nunca mais vi desde a solene formatura em 1966.
O Culto à Ciência ocupou-me entre 1960 e 1966, anos profundamente efervescentes na cena político-cultural brasileira. Jânio Quadros, que fi-lo porque qui-lo, Jango e Brizola, política estudantil como nunca mais (o movimento secundarista, apoiado nas católicas intenções da JEC, era extremamente atuante aqui em Campinas através da UCES), o golpe de 64 (eu era, naquele 1º de abril, diretor do Departamento de Politização do Grêmio), Bossa Nova, Cinema Novo, ou seja, vivemos o começo do fim de uma época politicamente romântica. Acho até hoje que nenhuma outra geração brasileira viveu o que vivemos.
Mas, nos corredores do Culto à Ciência, éramos só moleques e meninas, que eram muito pouco molecas, e vítimas preferenciais das molecagens dos meninos. Seremos um pouco hoje a tarde? Espero que sim. Mas, mais que nada, espero encontrar em alguns dos velhos conhecidos versões 2008 que nos permitam reconhecermo-nos no daqui para a frente, porque essa coisa de irmandade do passado só é bom de vez em quando.
Ah! O título do post não tem nada que ver com aqueles tempos. Sexo, pelo menos interpares, nem pensar, que as meninjas eram todas de boa família e um eventual beijo na namorada era o máximo admitido. Muitas delas já namoravam rapazes bem mais velhos (2 ou três anos) e nos olhavam como pirralhos inconvenientes. Drogas, só o eventual cigarro da Souza Cruz fumado "escondido" atrás da sala de Física. E até mesmo o Rock´nd Roll não pintava muito naqueles tempos de Bossa Nova, a opção politicamente correta contra o tal do iê-iê-iê que Roberto Carlos iconizava (sim, ele mesmo, esse senhor que hoje é ídolo de nossas mães e tias, o maior cantor de cruzeiros deste país, caminhando célere para a churrascaria; o tempo é cruel para quem não sabe vivê-lo). Éramos tolinhos! Viramos bobões? A descobrir.
Mas a tarde promete diversão e muito chopp, coisa que nunca recuso.

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As palavras sempre retornam ao ninho.


Cinzas, Edvard Munch
Miséria

Hoje é tarde para os desejos,
e nem me interessa mais nada...
Cheguei muito depois do tempo
em que se pode ouvir dizer: «Oh! minha amada...»

O mar imóvel dos teus olhos
pode estar bem perto, e defronte.
Mas nem navega as horas
nem se cuida mais de horizonte.

Durmo com a noite nos meus braços,
sofrendo pelo mundo inteiro.
O suspiro que em mim resvala
bem pode ser, a cada instante, o derradeiro.

Morrer é uma coisa tão fácil
que todas as manhãs me admiro
de ter o sono conservado
fidelidade ao meu suspiro.

E pergunto: «Quem é que manda
mais do que eu sobre a minha vida?
Neste mar de só desencanto,
que sereia murmura uma canção desconhecida?

E em meus ouvidos indiferentes,
alheios a qualquer vontade,
que rostos vão reconhecendo
os passeios da eternidade?

Perto do meu corpo estendido,
náufrago inerte de sombras e ares,
quem chegará, desmanchando secretos níveis?
Serás tu? -- para me levares...»

(Vejo a lágrima que escorre
por cima da minha pena.
Ai! a pergunta é sempre enorme,
e a resposta, tão pequena...)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Querer baldio

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O poema já havia sido postado em algum lugar do passado (usem a busca do blog se quiserem lê-lo). Aqui retorna como um querer baldio, na voz do poeta e na linda interpretação de Clara Nunes.
Ai quem me dera!

Metonímico


foto e montagem: Zédu
Na música,
o antepenúltimo som.
Na imagem,
a inacabada perfeição.
Na palavra,
a letra que diz não.
No amor,
a indiscutível ilusão.
.
Mas na vida,
basta um colchão.
Ou talvez não.
Um outro alguém.
Ou talvez nem.

Ella é o máximo

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Várias das grandes cantoras de jazz começaram como crooners na época das Bigbands. Na medida em que faziam seu nome, tornavam-se cantoras de pleno direito. Ella, além disso, foi quaase que ao longo de toda sua vida, uma excepcional cantora de bigbands. Notem que uma bigband não é a mesma coisa que uma grande orquestra. Uma bigband é um "instrumento" do jazz. Duke Ellington, Count Basie, e outros, são intépretes jazzísticos. Ella é minha cantora predileta com uma bigband.
A faixa que aqui separei tem tudo que n´Ella se destacava; o tremendo swing, a voz poderosa que virava outro instrumento na banda, o casamento perfeito e o bom gosto musical. Essa faixa está em uma caixa com 4 CD´s cheios de preciosidades (The Legendary Decca Records), mas a escolha não significa que seja nada do gênero da "melhor faixa". O conjunto é tão excepcional, que é quase feito só de "melhores faixas" Esta é só uma delas. Aqui ela canta (Love Is) The Tender Trap (de Sammy Cahn/van Heusen) com arranjo de Toots Camarata. Sinatra também gravou essa mesma música com a Orquestra de Count Basie. Enjoy it.
E, by the way, love is the tender trap!
Ah!, nos comentários colocarei a letra para os interessados (pescado de http://www.metrolyrics.com/love-is-the-tender-trap-count-basie-orchestra-lyrics-frank-sinatra.html)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Rap é isso aí

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Nem vou falar do Jorge, que era do Ben e virou Benjor, e seus raps pré raps. Palavra cantada, o Tom até nisso deu o tom, e a Elis mandou ver. Deixa que digam, que falem....

La vida es un tango, hay que bailarla


A Queda, Michelângelo
Por outro lado,
tem o lado de lá,
que apesar de aqui colado,
é outro do lado de cá.
.
Por outro lado,
há o fim do muro,
o novo chão arriscado
e o desejo agora impuro.
.
Por outro lado,
há toda uma revolução,
e se não tentarmos cuidados,
revoltamos em repetição.
.
Por outro lado,
há sempre a possibilidade
de que, de calado em calado,
calemos as novidades.
.
Mas, enfim, por outro lado,
se soubermos prestar a tensão,
bem diremos o acabado
e haverá festa no salão.
Frango, 19 de fevereiro de 2008

Gone with the wind

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À tua figurinha rara,
só por um momento,
pensei Scarlet O´Hara
sumida num pé de vento.

Prá você que quer saber


foto e edição: Zédu

Meio maluco, meio beleza,
um pouco menino, um tanto criança,
Rei de minhas nêga Tereza,
Quixote de minha própria Pança.
.
Confirmado nas carambolas,
suposto dono do Pipoca,
narciso meio gabola,
ruidoso a la pororoca.
.
Sou isso e também aquilo,
sorrisos e algumas tristezas.
Tudo faço porque qui-lo,
sujeito sem nenhuma certeza.
.
De todos meus cacos partidos
resultei em explosão.
Às vezes sou todo sentido,
outras tantas multidão.
.
E assim vou me levando,
oculto de toda ciência,
Zé(du) de vez em quando,
falente desde nascença.

(U/I)m certo futuro


Renoir. Promenade
Quando você foi embora
nos tantos anos passados,
te chamei minha senhora
e restei apaixonado.
.
Mas quando você foi embora
nesse ainda inacabado,
calou-se um perdido agora
e fiquei meio assustado.
.
Quando você retornou,
da ida da outra hora,
tive medo do que voltou,
medrei e fui me embora.
.
Mas quando você voltar
desta ida inda partida,
nossos olhos vão se abraçar
e dividir o em seguida.
.
E neste incerto futuro
que une nossos temores,
seremos, para além dos muros,
de nossos desejos, senhores.

Comovido como o diabo


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração

Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte
Quase não conversa
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Poema de sete faces, Carlos Drummond de Andrade
desenho por: marllon martins


Ouvindo Stabat Mater com Pergolesi


Pergolei sempre me disse
que em toda dor existe
um olor de beleza,
um mais além da tristeza.
Para todo filho morto,
há sempre uma mãe dolorida
que, chorando, recolhe o corpo
e, amante, lhe dá guarida,
enquanto um anjo canta
do gesto o haver sublime
e, com música, decanta,
da dor, o que nos redime.
Os pregos, a cruz, a lança;
martírio, espinhos, sina;
homem, jovem, criança,
o canto recorta e assina.
E se a mãe é dolorosa
e do calvário faz seu cume,
no ar um olor de rosas,
pois toda música é perfume.


Pedro Machuca 1547

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Golpe de Estado


Nós, o povo (isto é, Pipoca e eu), decidimos que a votação sobre os vídeos não tinha mais sentido e, apoiados em nossas convicções bolivarianas, decidimos acabar com a consulta popular até então vigente. Mais ainda, os institutos de opinião consultados nos garantiram que os 13 votos até então computados (em um universo de 1.400 e cacetada de reacionários não votantes, comprados com o dinheiro sujo do Império buschiano) já indicavam, de forma inequívoca, a verdadeira vontade popular.
Os vídeos continuam aqui mesmo, como novidade perfumada do segundo ano de nossas (Pipoca não abre mão da co-autoria) carambolas. Assim, por razões venezuelanas, decretamos encerrada a democracia burguesa até então vigente e os vídeos continuarão até que as razões mercadológicas do Google nos dê por excessivo. Ou seja, quem votou, votou; quem não votou, não vota mais.
Arriba los vídeos!! Que vengan las músicas!!

Torpedo

Tolinhos!

A menina em meu olhar

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Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Cantiga para não morrer
, Ferreira Gullar
(ver comentário)

Todo o sentimento


Turner
Quando eu for me embora,
minha senhora,
me guarda nos sonhos de teus pensamentos.
Quando eu for me embora,
minha senhora,
me tranca nas cores de teus sentimentos.
Quando eu for me embora,
minha senhora,
me esconde bem longe de teu esquecimento.
Quando eu for me embora,
minha senhora,
afasta de ti todo o meu sofrimento.
Quando eu for me embora,
minha senhora,
semeia nos campos os nossos momentos.
Quando eu for me embora,
minha senhora,
recolhe meu nome e me espalha ao vento.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Dois Rios, duas vozes, invento um cais

Rio de Janeiro, 1972. Rua Correa Dutra, número já esquecido, cobertura. Ali aportei no meu primeiro Rio, direto de Campinas via uma D.Pedro ainda de pista única, no fusquinha que havia acabado de ganhar pós formatura na Poli. Naquele tempo havia um programa na Rádio JB chamado Noturno, ao som do qual embalei muitas de minhas primeiras noites cariocas. O programa era de um extremo bom gosto musical, comandado por um Eliakin Araujo pré-Globo. Uma noite, dessas que se tornam inesquecíveis por razões que a razão nem desconfia, o programa apresentou o encontro das águas que aqui posto de forma canhestra. O Preto de Milton e o branco da Elis se encontram, se tocam, seguem caminho, meio como nos outros dois rios que banham Manaus, e inventam um cais. Em meu coração as águas se encontraram e seguiram comigo Rio a dentro, nessa navegação que para Campinas me retornou em busca do cais prometido.
É claro que, naquele remoto 72, tudo foi feito com muito mais competência técnica do que permite a minha ignorância com esses brinquedinhos e as gravações fundiam-se e separavam-se de uma maneira muito mais bela. Mas, seja como for, as vozes continuam como eram naquela noite, 36 anos atrás, assim como o meu desejo, tatuado no dentro de mim, naquele exato momento em que me lançava para um Rio que depois foi tantos outros, de inventar mais do que minha solidão me dá.
O cais ainda não consegui inventar direito, pois não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar.

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A morte e as Mortes de Mahler

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É estranho pensar que Mahler, que em duas de suas sinfonias toureia musicalmente a Morte (a 2ª e a 9ª, e última, cada qual de uma maneira), acabou, por conta do filme sobre o livro de Thomas Mann, Morte em Veneza, tendo o adagietto da 5ª inevitavelmente ligado ao morrer-se. O clima do adagietto é pura Veneza, invernal, cheia de brumas, belezas escondidas e um certo ar de bela pestilência que corrói as coisas devagar (o médico e o jovem, lembram-se?). Por isso, a obra seria sobre o corromper da morte, quando ela nos chega pelas beiradas, e bem menos sobre a Morte em si, sobre a Morte idéia (ou, como caso da 9ª, a própria morte do artista).
Nas outras duas sinfonias, a 2ª e a 9ª, vale a pena notar a diferença de tratamento. A 2ª, obra de um Mahler relativamente jovem, a idéia da Morte é tomada com toda a fanfarronice dramática que uma Idéia com a da Morte merece de quem a trata com muito distanciamento, com a prepotência "juvenil" que o tempo se encarrega de ir podando na gente. A 9ª, por outro lado, é obra de um autor que sabia-se morrendo; a serenidade, principalmente, é sua marca. Sem teorias, ela é um legado de alguém que só sabia se expressar na música (e como os invejo!). Uma despedida, um adeus, uma partida. Aliás, em se falando de despedida, recomendo, com a força de minha alma (ver a Alma do Mahler), o último movimento do Canto da Terra, uma das mais lindas despedidas "amorosas" (e as aspas aqui vão por serem dois amigos, não dois amantes, que ali se despedem) já musicadas. Uma de minhas peças prediletas, mas cuja extensão (só o último movimento dura mais do que 30 minutos) me impede de dividir com vocês. Corram para comprar; garanto o prazer!
Mas, de qualquer forma, será sempre esse lindo adagietto que nos lembrará Mahler e a morte. As carnes que se carcomem e as palavras que Thomas Mann nos faz lembrar: Entra-se por mim na cidade da tristeza; entra-se por mim no abismo da eterna dor; entra-se por mim na mansão dos condenados. A eterna Justiça moveu Deus criar-me; obra sou da Divina Potestade, da suma sapiência, e do primeiro amor. Antes de mim não foram criadas, senão substâncias eternas, e eu eternamente duro. Vós, que em mim entrais, perdei toda a esperança de sair!” (Alighieri, s/d:69). A peste, a decadência, a elegâncja de Visconti, ele próprio um ser de decadente nobreza, as imagens e o miasma que a tudo aos poucos vai dominando., escorrem pelas notas do adagietto. A música aqui se liberta, como se se bastasse, desligada dos outros movimentos mahlerianos, e, como tudo no filme, se infiltra em nós, bela, pungente e extrema, e serenamente, triste.
O post é pela beleza da música, pelo livro que evoca, pelo filme que já não se fazem mais, pelo mundo que se dilui em uma peste luminosa, como a cegueira branca de Saramago.
Quanto a Mahler, o que mais poderíamos esperar de um homem casado com a Alma?

Macho que é macho não morre


O Incrível Exército de Brancaleone
Provérbio italiano, lembrança de Sé, o boa praça


Se la vitalitá é grande e tutto va bene..
Avanti con il pene.
Ma, se la situazione é difficile e la forza mingua...
Avanti con la lingua.
Se questa posizione si torna impossibile e tutto intento é umano...
Avanti con la mano.
Ma, se niente funziona... e tutto é nulo...
Avanti con il culo.
Ma, Avanti... ! sempre Avanti !!!
que questo é il piú importante...





terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A morte e a dor do outro

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Houvesse eu morrido um pouquinho ou não, e a questão ainda se cerca de muita controvérsia, apesar do atestado médico de meu ligeiro passamento, a música de Pergolesi iria acabar achando seu lugar por aqui. É uma das mais belas peças musicais que conheço, nesta gravação primorosa do time ali intitulado. A beleza da música, a mãe dolorosa, a pungência, tudo são coisas difíceis de imaginar na criança que Pergolesi era quando a compôs. Pena que as restrições de espaço me impeçam de colocar a obra em sua totalidade. Espero que o impacto de seu primeiro "movimento" anime-os a procurar o resto. Ou, com calma, posso ir mandando para quem quiser os "movimentos" que aqui fico devendo.
Essa postagem é dedicada à Bia, que sofreu minutos de eternidade assustada enquanto eu decidia se ia ou voltava. Durante essa breve eternidade, e as eternidades, ainda que breves, são sempre eternas, ela sofreu o que eu não sabia. Pena que ela não seja internética, mas outra hora lhe conto o devido.

Aviso à praça


Este blog esteve fora do ar por motivos de ligeiro falecimento do autor. No entanto, como o falecido ressuscita a olhos vistos, é bem provável que em breve as mesmas carambolas retornem. Pede-se que suspendam as flores, o morrer de amores e demais horrores. E Pipoca manda dizer que nunca acreditou nisso e que não tem paciência para essas coisas ligeiras. O corpo, ressuscitado, será aqui novamente exposto, ainda que meio calado e cheio de músicas lamentosas.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Festa de Arromba


No dia 08 de fevereiro de 2007, o blog começava neste endereço. Pena que vcs sejam todos tão virtuais e não possam festejar comigo.
O primeiro ano foi o que foi, cheio de minhas idas e vindas, mais idas do que vindas, ou vice versa, acho eu. Idas ou vindas, o blog foi sempre um espaço de prazer, meio egoísta, meio narsicista, meio mussarella, meio calabresa, mas sempre divertido, mesmo quando jorra meu sangue cenográfico nas linhas que aqui posto.
Alguns, ou sendo mais sincero, algumas, de vocês estão quase fazendo aniversário com o blog, coisa que Pipoca e eu reconhecemos agradecidos. Outras, e outros, entraram e saíram. A maioria, pelo que deduzo do contador e da enquete, passa sem deixar marcas.
Seja como for, um ano passou, o blog continua essa coisa tão solitária como sempre foi.
Coisas da vida, minha nêga. Que isso não impeça o baile e a festa.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Fragmentos


Fernando Botero, A carta, 1976

Te deixo minhas pertenças
e todas as coisas tolas
que tínhamos às pencas.
.
Te deixo as músicas olorosas,
as tardes de vinho
e as taças chuvosas.
.
Te deixo uns poemas usados
com palavras que se calaram
nas teias do já consumado.
.
Te deixo alguns sonhos tortos,
e um despertar tão súbito
que nos acordamos mortos.
.
Te deixo o quem sabe um dia
que, ainda ontem, acreditando,
nos encheu de tonterias.
.
Te deixo o gozo arranhado,
as tontas desditas
e o grito calado.
.
Te deixo a aposta falhada,
a escolha desfeita
e as cartas roubadas.
.
Te deixo o chumbo duradouro,
a mágica perdida do nada
e o nunca jamais de ouro.
.
Te deixo agora e aí,
teu futuro presente,
restos do eu em ti.
.
Fica com tudo,
colhe tua gesta,
me deixe mudo. 

Frango, fevereiro de 2008

O jazz é um estado de espírito

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.
Body and Soul, além de uma linda música que Billie Holiday gravou com todo o sentimento, é um clássico do jazz. Os dois "vídeos" aqui postados tentam demonstrar como são particulares as leituras dos instrumentistas (os cantores, que também deixam suas marcas particulares, têm, no entanto, de se prender à letra e seu desenvolvimento melódico). Escolham a sua preferida and enjoy it, body and soul.
Sonny Rollins é um dos grandes sax atuais da cena jazzística. Com 78 anos, continua em atividade. Tem uma carreira algo diferente, frequentemente interrompida por "períodos de reflexão", quando abandona a cena do jazz, seja para se livrar das drogas, seja para meditar na ìndia, seja porque está com o saco cheio. O link acima leva para algumas notas sobre ele.
Keith Jarrett, nascido em 1945, já foi "vários pianistas". De um começo tradicional, passou vários anos gravando intermináveis solos de improviso, que duravam, às vezes, horas. Em 1983 forma com Gary Peacock e Jack DeJohnette um trio para tocar Standards do jazz. O sucesso da empreitada mantem o trio vivo até hoje. Keith é também um ótimo pianista/cravista clássico. Vejam no link para a Wikipedia acima uma descrição mais detalhada do artista.
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Perder é uma arte

One art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop, 4 de novembro de 1975


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Poema na voz da atriz Blythe Danner, com um vídeo com alguns dos lugares onde a poeta viveu no Brasil. Esse video é o final de um programa de uma hora, One Art, sobre a poeta. Mas para ver o programa todo, que é ótimo, antes inscreva-se no site www.learner.org. A inscrição é gratuita.

Eu, particularmente, acho que poesia é uma coisa intraduzível. Como traduzir a música, o som das palavras, a maneira como elas se encadeiam e soam? Mas, para quem quiser, e como um exemplo de como as traduções são tantas, e tão díspares, quanto forem os tradutores, vocês poderão encontrar duas "versões" deste poema de Bishop nos comentários.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Sofrer por amor tem lá suas vantagens

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Início da década de sessenta, eu com cerca de quinze anos, sofrendo por um já não sei mais o que de amor. E, como sabemos, as dores de amor são inversamente proporcionais à idade do dolorido. Não me perguntem porque eu sofria, só sei que sofria como um cão. Aí descobri esse Adágio, 2º movimento do Concerto de Brandenburgo nº 1. Me trancava no quarto, colocava o disco na Sonata, cerrava as janelas e me entregava à dor e à tristeza, profundas, definitivas, tanto quanto costumamos pensar serem as primeiras dores de amor. E tocava, e tocava, vezes seguidas esses violinos que me cortavam a alma ferida de morte. Às vezes, fazia uma pausa e trocava Bach por Tchaikóvski e sua Sinfonia nº 6 em Si Menor, a Patética (que é muito grande para aqui ser postada). Tudo muito patético.
Mas quando tento lembrar quem era a causa de meu tanto sofrer, nem um nome me vem a lembrança. Provavelmente alguma menina que havia me dito não e que, passada a dor, e elas sempre passam, sumiu de minha memória. Mas, graças a essa ingrata desconhecida, comecei a ouvir de outra maneira os clássicos que tínhamos em casa. E nunca mais me esqueci de Bach, com quem fui travando uma amizade que durou estes anos todos. Até mesmo a Patética de Piótr Ilyitch Tchaikóvski ainda escuto com prazer, apesar das autoridades a considerarem uma sinfonia menor. Os Concertos de Brandenburgo, todos os seis, nunca deixei de ter em meus LP´s e, depois, em meus CD´s. Anos depois, incorporei a Patética em minha coleção. Estão comigo até hoje.
Ou seja, os amores passam, as dores são sempre pátéticas, mas se soubermos sofrer, alguma beleza sempre resta de todo sofrimento. Mas gostaria muito de saber quem foi que me possibilitou Bach, Tchaikóvski e, na esteira deles, toda a música clássica

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O mais lindo hino

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O Bêbado e o Equilibrista, belíssima composição de João Bosco e Aldir Blanc, cantada por uma Elis absolutamente perfeita (gravação original de 1979), tornou-se hino de uma época. Até hoje me arrepio e me emociono quando canto/escuto a música. Mas, mais que isso, a música, e letra, e interpretação, são geniais por si mesmas. Me lembro uma época que foi montado um musical no Rio que se propunha a contar a trajetória musical de Elis. Me interessei no ato. Mas quando descobri que entre as 40 e tantas músicas escolhidas não havia uma só da genial dupla que a Elis havia lançado, desacreditei na coisa e não fui conferir. Contar Elis sem as músicas de João Bosco/Aldir Blanc é apagar um pedaço brilhante da carreira da intérprete. E se fosse para escolher só uma da dupla, certamente teria de ser essa que aqui posto, enquanto o resultado da enquete não sai.

Consulta Popular


Para os mais distraídos: verifiquem o canto esquerdo da página, logo abaixo da relação de postagens.
Negó seguin. Eu estou achando um grande barato colocar os "vídeos" com músicas por aqui. Mas, andei achando que isso podia acabar me distraindo na produção das carambolas que sempre postei (até descobrir, em janeiro, a facilidade que era postar músicas. Daí, consultei Pipoca que, como é de seu feitio, olhou-me estranhado, bocejou e continuou a se coçar. E o obsessivo em mim não consegue decidir. Tem hora que acho que, um ou dois blogs, as músicas me distrairão igualmente. Às vezes acho que vocês é que devem me dizer. Daí a enquete que ali ficará durante todo o mês de fevereiro. Votem, e no mais fiel estilo republicano, depois penso se ouço ou não a voz das urnas. Enquanto isso, fevereiro passará e poderei saber melhor dessa coisa do "nada para dizer? bota uma música legal".

domingo, 3 de fevereiro de 2008

O primeiro Elvis a gente nunca esquece

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Vitrolão da Emílio Ribas, disco ainda 78 r.p.m., lá pelos idos de 56/57. O disco foi trazido pelo Tio Naldo, irmão mais moço de minha mãe e por quem eu tinha uma admiração de menino. Criança ainda, a música me tocou e nunca mais esqueci dela. Passei a vida atrás desse Love Me Tender que tantas vezes desperdicei. O vídeo é uma gravação de um programa de TV em 1956 ("roubado" do ShowBlog, é claro).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Carnaval

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A música não sei de quem é (mas a Leila corrigiu minha estupidez: é do Paulo Vanzolini, o mesmo da genial Ronda; blog é cultura). Canta Noite Ilustrada. Conheci a música em algum momento em Santos, séculos atrás (Santos é coisa da minha meninice). Até hoje dou minhas voltas por cima com ela. E viva a alegria, que hoje é carnaval. Boa folia a todos.

Fevereiro de 2008 - A Dança da Solidão


Fevereiro, um mês que não devia ter sido