sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Era de luz
























Desenho e texto, Gilza, 2001

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

O farol dos olhos teus



Na ilha onde me habito,
frequentam as gaivotas.
E trazem, presas aos bicos,
ao invés de folhas de louro,
mensagens, pequenas notas,
preciosos grãos de ouro.

Notícias do mar além,
onde em terras distantes
residem meus todos bens.
Bússolas de norte constante,
consolos deste ser errante,
avalistas de meu ser alguém.

E, nestes esperados instantes,
que me trazem as gaivotas,
ouço músicas, nunca o bastante,
fugas, prelúdios, gavotas,
doçuras para meus ouvidos,
alívio para um meu castigo.

Que aqui naufraguei por besteira,
pensando em uma vida nova.
Mas sem um meu sexta-feira,
escrevo essas poucas notas,
pobres versos em tom de trova,
que devolvo às gaivotas.

E assim, do Frango à Praça,
vou habitando esta ilha,
errando pelo rés da praia,
prisioneiro, meio sem graça,
desta imaginária Tordesilhas,
aguardando que o dia raia.

No movimento dos barcos,
da janela de meu quarto,
espio por detrás da porta,
ali onde Inês era morta,
onde sonho novo momento,
eu, ela, e todo o sentimento.

Invento um cais,
e quero mais.

Há uma dor em cada canto


Silêncio
Façam silêncio
Quero dizer-vos minha tristeza
Minha saudade e a dor
A dor que há no meu canto

Oh, silenciai
Vós que assim vos agitais
Perdidamente em vão
Meu coração vos canta
A mais dolorosa das histórias
Minha amada partiu
Partiu

Oh, grande desespero de quem ama
Ver partir o seu amor.
Vinícius de Moraes, poeta e meu companheiro

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Quadrinha à moda de minha Vó Pata





Meu amor é um passarinho,
que canta com tanta beleza,
que apesar do eu sozinho,
espanta toda tristeza.






Desenho de Manoel de Barros, poeta e passarinho,

Tu figura, en el marco de la puerta.


Geografía

Esta ausencia de vos, en este espacio,
este lugar cargado de memoria,
que enhebrara mi historia con tu historia
y hoy se reduce a un rito solitario.

Esta esquina, que lleva un nombre amado
dentro de mi pequeña geografía,
que alguna vez fue tuya, como mía,
donde mi nombre propio está enredado.

Este bar, de esta esquina, que nos fuera
cómplice en tantas cosas hoy desiertas,
esa magia de estar, cálida esfera

suspendida en ternura, y ahora yerta,
este esperar, sin tiempo y sin espera,
tu figura, en el marco de la puerta.

Alberto Gustavo Amoroso — Poeta espanhol

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Safari de um fauno après-midi

Quem roubou, quem me tirou
o tesão que estava aqui?
Quem levou, escamoteou,
o querer onde me fiz?
Quem tranformou,
o desejo em dejà vu?

Pois se ainda passam as mulheres,
fêmeas para meu olhar,
e se provocam meus mal quereres
com seus modos de se mostrar,
Quem? que maldito inimigo,
tirou-me o melhor brinquedo,
roubou minha libido
e me fez esse fauno azedo?

Que mulher, em qual senhora,
recupero o que procuro?
O tesão, sem dia ou hora,
e o orgulho do pau duro?
Já cansei do velho precoce,
do tédio e do falso cansaço.
Quero de mim retomar posse
e comer tudo que caço.

Traquitana

video

Aos blogspectadores, aquele abraço!

O bom Ubaldo

Alandelão de La Patrie

João Ubaldo Ribeiro


Não entendo aquele que aprecia o boi. Aqui se criava antigamente muito guzerá, que para mim tem a cara de ordinário, mentiroso, criminoso e cínico. Inclusive, a maioria possui olheiras, mostrando que são perversos devassos de pouca confiança. O sujeito que já se viu no pasto, ou mesmo no cercado, na companhia de um guzerá, esse sujeito sabe que não pode virar as costas nem se desprevenir, porque ele pega, e quem ele pega ele não trata com simpatia. De minha parte, que faço outros serviços, tudo muito geral nesta fazenda, o único boi que se dá bem comigo é o boi Bundão, assim mesmo sem essas alegrias todas, porém com bastante sossego, visto o boi holandês ser pela própria natureza uma criatura fina e de maneiras, está se vendo que é holandês mesmo. Deve ser que na terra dele tem reis e rainhas e desde que boi é boi na Holanda, ele vem sendo educado com finura. Então o boi holandês cobre as vacas dele com muito sentido de sua obrigação, e é até uma coisa bonita de se assistir, porque a vaca holandesa é também educadíssima e então quando Bundão está fazendo um serviço com uma delas até mesmo as visitas gostam de apreciar, porque, no que ele desmonta da vaca, só falta agradecer e ela dar um sorriso. É uma coisa finíssima. Este Bundão, aliás, que está ficando velho, quando eu posso boto uns amendoins no bagaço de cana que ele gosta, que é para ele conseguir desfraldar o instrumento e continuar com emprego fixo -- visto que, no dia que Bundão não for mais espadachim, adeus Bundão, e possa ser até que eu fique com saudades, sendo um boi que, não tendo intimidade com ninguém, me trata parecendo que é formado pelo menos em ginásio. Se um dia eu comer uma buchada dos buchos de Bundão, vou comer com desgosto. Eu como porque nesta vida é um comendo o outro e é melhor que a gente coma o boi do que o boi comer a gente, é uma questão política, mesmo porque o boi não fala.

Antigamente não era igual a hoje, quer dizer, não era esta organização toda. O touro guzerá encarregado de enxertar as vacas era um absurdo. Atendendo pelo nome de Nonô de Bombaim, esse touro guzerá ficava ciscando no meio das vacas da raça dele e, quando uma facilitava, até parecia que ele estava pagando e tinha direito a qualquer coisa, a vaca nem achava tempo para fazer a posição, porque ele já vinha de lá soltando fumaça e completamente armado e uma coisa que eu agradeço a deus é que Deus não me fez eu nascer vaca daquele guzerá. Inclusive, não foi uma nem duas vezes que os vaqueiros tinham que acertar a entrância correta, porque ele não queria saber, ia pincelando onde achasse quarto de vaca. Tipo do boi atrasado, rei da ignorância. Quando eu me lembro de Nonô de Bombaim tratando as vacas, fico destremecendo, a vaca sofre muito. Quando o sujeito compara o tratamento que Bundão dá às vacas holandesas com o tratamento que Nonô dava às vacas guzerás, aí é que o sujeito vê a diferença entre uma pessoa loura e educada como Bundão e uma pessoa sem princípios e amulatada, como Nonô. É por essas e outras que, na próxima encarnação, se Deus quiser e eu merecer, eu volto branco e bem educado. Não quero fazer como Nonô, que chega e vai lascando a vaca toda, se bem que ele é muito bem admirado em toda a redondeza e diz o povo que até hoje tem mulheres que, no entusiasmo de brincar de bicho de duas costas, elogiam o homem dizendo "dá nela, Nonô!", mas considero essas mulheres todas umas vacas guzerás, isto é o que considero, pois que sou a favor do carinho, porradas só quando imploradas ou merecidas verdadeiramente.

Entretanto, com nonôs e bundões e mais uns quanto outros reprodutores de alguma fama nestas terras, as coisas sempre foram dentro do normal. O galo às vezes parece que está conversando com a sombra ou está discutindo eleições ou qualquer coisa, quando que de repente sai com grande brilhantismo e vai bicando as galinhas e virando na direção do sobrecu e assim ele faz o trabalho todo em coisa de cinco minutos, igual a uma faísca. Os ovos sucedentes são pardos, não claros, galados, não pecos, e fortíssimos para a saúde, ou senão saem pintos e todas as galinhas prosseguem galinhando como quis Nosso Senhor. Assim, o calango possui dois vergalhos, um na direita outro na canhota, ficando bem municiada qualquer calanga que venha pela direita ou pela esquerda, sendo que o calango só pega uma calanga de cada vez, não se aproveitando de que pode pegar duas. Porque não é uma questão de vaidade, é um problema de não perder tempo, pois que, se a verdade é que o calango tem muitas moscas para comer, tem também muitos outros bichos desejosos de comer o calango, de forma que não se pode facilitar. O beija-flor trepa nos ares, às vezes de passagem, às vezes cumprimentando e aproveitando, visto o coração do beija-flor zumbir e ele morrer cedo, beijando flores e o coração zumbindo. As jegas e as éguas apreciam a cobertura e há casos de jegas que ficam dando uns coicezinhos no jeque a tarde toda, até conseguirem, e aí rangem os dentes dão umas babadinhas e ficam grandemente admiradoras do macho, se ele soube responder bem àqueles coicezinhos. O cágado ronca em cima da cágada, que tem toda a paciência, porque a construção deles não facilita e dever ser por isso que o cágado ronca nessas horas. O pato e o porco aplicam roscas e tem quem diga que a rosca é para estontear a fêmea, que fica olhando, olhando, até se enroscar completamente. O gato apresenta espinhos que sangram a gata na puxada, sendo porém o sangramento necessário para a gata emprenhar. O louva-deus fica parado e, antes mesmo que a louva-deusa esteja pronta, já vai mastigando o macho e ele cabe todo na barriga dela. Isto tudo se vê por aqui e muitas mais coisas, desde as lagoas com seus sapos e jias se casando pelas águas, até os barulhos dos bichos maiores. Foi assim que foi feita a natureza e, em cada uma juntada, está se sentindo a força.

Pois então, nestes tempos modernos, estamos desnaturados. Embora eu, que não gosto de boi, não estivesse muito sabendo até que tudo começou a ser modificado, recebemos diversos doutores e tudo mais. E não foi assim que, depois de muitos anúncios e forte nervosismo, levamos a gaiola grande para a estação de trem, parecia até uma festa só faltando banda de música, para receber o grande touro charolês francês, que aqui tomou o nome, mesmo antes de chegar, de Alandelão. Todo nome francês termina em ão, e o nome era para ser Napoleão, que foi outro francês retado, que invadiu a Inglaterra, escarreirou D. João VI, enfim fez o maior cacete e não perdoava nada. Mas se preferiu Alandelão, que é um artista da França muitíssimo cotado e, pelo que eu ouço falar desse Alandelão, era para as vacas aqui estarem grandemente festejando.

Agora, esse Alandelão daqui, na hora que eu vi, achei logo que era um animal bastante triste, todo escuro assim, parecendo de luto. No começo, pensei que era da natureza do boi francês, porque se sabe que o francês aprecia a safadagem mas tudo na maior decência, não é como as coisas de Nonô de Bombaim. Mas, mesmo assim, como é que esse boi podia ser tão triste, sabendo-se que de agora em diante vai ficar instalado igual a um monarca, com massagem, comidinha, alisamento e vitamina? E, se as vacas para ele trabalhar não eram vacas francesas da maior fineza, também não eram de se jogar fora, inclusive sendo começo de verão e estando a maior trepação em todas as partes da fazenda, até os motucos soltando a lenha nas motucas, os lacraios nas lacraias e assim vai, para não falar em outros, como os preás, que todo mundo sabe que quando não estão comendo estão afogando o ganso, seja inverno ou seja verão. E às vezes o sujeito se veste de preto assim mas não quer dizer nada, haja visto padre Barretinho, que Deus haja, cala-te boca.

Um emprego como o desse boi muitos de nós passamos a vida rezando para encontrar e agora ele chega todo triste, quase uma antipatia. Aquele bicho do tamanho de um elefante atarracado, todo de preto e com uma cara jururu que fazia pena, quando o natural é que estivesse sacudindo o rabo, babando um pouco e preparando o ferramental. Mas é assim que se vê como o animal também tem a sua inteligência, porque esse Alandelão já estava perfeitamente conhecedor do que ia acontecer e era por isso que não se alegrava e tinha toda a razão, coitado.

Quando eu soube, tomei um choque. Já tinha uma semana ou duas que Alandelão estava no seu apartamento, todo ventilado e cheio de nove-horas, inclusive um aparelho americano para as moscas não incomodarem ele, e então eu, que passava em busca de uns baldes e umas gamelas, perguntei quando era que a folga dele ia acabar e quando é que ele ia sair para cobrir umas vacas.

-- Com essa fama toda, está todo mundo querendo apreciar -- disse eu. -- Deve ser uma coisa de muita competência.

-- Mas ele não vai cobrir vaca nenhuma -- respondeu Dr. Crescêncio, que é uma espécie de engenheiro de vaca, que trabalha aqui dando orientação e é formado em vaca na faculdade.

-- Ô, e o bicho está aqui para quê? Ele não é reprodutor?

-- Um animal desses você acha que a gente ia deixar esperdiçar direto com as vacas? Não, senhor! Tudo o que sai dele vale ouro. A gente extrai, bota no gelo e depois enfia nas vacas com uma seringa. E aí se aproveita tudo.

Nisso, com a cara meio saindo pela abertura, eu vi que Alandelão já devia saber brasileiro, ou então ter estudado na França, porque entendeu a conversa toda e ficou ainda mais de beiço pendurado do que estava antes, uma infelicidade de cortar o coração. Indaguei como era que se extraía o material, se tinha de enfiar uma agulha de injeção nos quibas do coitado do animal, mas o Dr. Crescêncio disse que não. Que, de tantos em tantos dias, o pessoal encarregado ia lá e fazia a manipulação.

-- Como é essa manipulação?

-- Se você quiser, pode assistir, que daqui a pouco nos vamos coletar.

-- O boi não se aporrinha, não, doutor?

-- Que nada, ele está acostumado.

E, de fato, Alandelão, se não ficava entusiasmado, também não criava dificuldade, estava se vendo que era treinado na profissão. Ele via a turma de manipulação e já ia abrindo as pernas e olhando para o outro lado e ai aguardava a extração, tudo muito despachado, sem nem um suspirinho. Naquela hora, vendo um boi tão prestigiado, cheio de medalha e tudo, sujeito a ser chamado pelos outros de reprodutor donzelo, dava bastante pena. No finzinho, os manipuladores ainda davam uma espremidinha, mas ele não tugia nem mugia. Ficava ali passando humilhação com a melhor cara possível. Como é que uma criatura pode viver nessa situação -- ainda mais um francês?

E, inclusive, pode ser até que na França a profissão dele seja mais respeitada, mas aqui, nesta esculhambação, não demorou e ele pegou diversos apelidos -- cinco-a-um, mangueira-fria, desconhece-vaca, come-vento, cassetete-gelado, pinga-na-cumbuca, couriça-de-mão, uma porção mesmo --, que a gente ria mas sentia que não estava direito zombar de uma infelicidade do destino alheio.

Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante do Nonô de Bombaim e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha -- o que é que estamos escondendo --, que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho, enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral. Está se reconhecendo, então, que Flor de Mel não era nenhuma mocinha, mas, em primeiro lugar, sabe-se que o francês gosta de velha. E, segundo, Flor de Mel estava sempre disposta, coisa que não se pode dizer de todas a vacas, mesmo elas sendo vacas ou talvez por isso mesmo.

Então eu e Emanuel e mais o menino Ruidenor combinamos deixar Flor de Mel no cercado pequeno, que fica perto do apartamento de Alandelão e, de noite, a gente ia lá e soltava o francês. E dito e feito, até com luz de lua para completar. Quando a gente abriu a porta, o bicho tomou um susto, não estava acostumado. E não queria sair de jeito nenhum, mesmo a gente explicando. Emanuel achou até que a gente devia dar uns piparotes lá na estrovenga dele para ver se ele se animava, mas todo mundo ficou com medo de que ele achasse que algum da gente era manipulador e quisesse completar o serviço todo e um boi deste tamanho a pessoa deve procurar não contrariar. Afinal, tanto a gente fez que o bicho foi saindo para o cercado, meio estranhando. Nisso Flor de Mel, que aí foi que eu vi que é mesmo uma velha assanhadíssima, abriu logo as ventas para o lado de Alandelão e foi chegando, foi chegando, mas o boi nem deu sinal.

-- Será que tem pouco tempo que fizeram uma manipulação e ele esta desfraquecido? -- perguntou Emanuel.

-- Que nada, que nada! -- disse Ruidenor, que estava doido para ver a finalização toda. -- Bote o bicho para perto, bote o bicho para perto!

Não sei quantas mil arrobas pesa um desgraçado daqueles, mas a gente foi puxando e só "vai, Alandelão", "vai, Alandelão" e Flor de Mel ali dispostíssima e só faltou a gente botar um macaco de caminhão debaixo do infeliz para ele levantar, mas não tinha jeito. Até que, na hora já de todo mundo desistir, ele deu uma olhada para um lado, uma olhada para o outro, uma olhada para mim, outra olhada para Emanuel e aí fez aquele movimentozinho fraco para subir na vaca, que mais que depressa ficou na posição certa, que a diaba não tinha desistido de papar o francês.

-- Lá vai ele, lá vai ele! Tenha fé, Alandelão!

Mas parece que o boi francês é um boi de pouca fé, porque, bem no meio daquela subidinha fraquinha, que ninguém nem estava acreditando que ia dar na altura de Flor de Mel, Alandelão revirou os olhos, fez um barulhinho na garganta e se despejou todo no chão.

-- Vigessantíssima, que deve ter para mais de setecentos mil contos aí desparramando no chão! -- disse Emanuel. -- Vamos levar esse boi lá para dentro!

E, de fato, numa situação dessas, só podia ser que a gente tinha de levar o bicho de volta, ele com a cara envergonhada e Flor de Mel aborrecidíssima e, pelo visto, com muita saudade de Nonô de Bombaim. No outro dia, bico calado, por causa do esperdício da matéria-prima de Alandelão. E parece mesmo que ninguém notou, porque nós três ficamos nervosos na hora da manipulação seguinte, mas Alandelão trabalhou do mesmo jeito e ninguém se queixou da produção dele. Só nós três é que podíamos notar que, quando ele via a gente, ficava todo sem graça, mas a gente compreendeu e respeitou, de forma que ninguém falou nada. E, de qualquer maneira, depois se descobriu que Alandelão era uma sociedade, porque ninguém tinha dinheiro para comprar ele sozinho, e aí ele passava produzindo numa fazenda e depois em outra e outra e assim por diante. E aí chegou o dia de botarmos ele na mesma gaiola e levarmos ele para o trem. Não se pode dizer que ele deixou amizades aqui, mas também não fez desafetos. E nós três estavam todos sabendo que ele nasceu para a profissão dele, só sabia trabalhar daquele jeito, tinha especialização, que é que se ia fazer. Assim mesmo, Emanuel passou a mão na cabeça dele na hora do embarque e disse: "Deus que lhe dê uma boa mão, Alandelão". E o dono aqui da fazenda também viu, mas nem perguntou, todo satisfeito com o dinheiro que ganhou com o trabalho do francês. Quando o trem saiu, ele cantou baixinho:

-- Alandelão de la Patri-i-i-i-e!

Ele pensou que eu não entendi, mas eu entendi. Ele cantou um pedaço do hino da França, somente trocando o Napoleão pelo Alandelão. Em francês, quer dizer "Alandelão de nossa terra". Lá deles.


Texto extraído do livro "Livro de Histórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1981, pág. 11.

Tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

Texto retirado do site Releituras. Link nos Sites quen eu gosto de passear.
Espero que o autor, lá na mesa do Tio Sam onde vizinha o Azeitona,
não se zangue comigo por essa apropriação de sua crônica.
Na pior, duelaremos na Dias Ferreira quando por lá eu estiver.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

As time goes by

video

"Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores" (Vinicius de Moraes)

domingo, 26 de agosto de 2007

Com que roupa eu vou


Correio Popular, 26 de agosto de 2007

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Nas asas da Panair





"Veja ilustre passageiro
o belo tipo faceiro
que o senhor tem a seu lado.
No entanto, acredite,
quase morreu de chatice.
Salvou-o ser meio adoidado"

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Big bang bang


Mim sabe, eu sei outra coisa. Quem quiser que conte outra!

Aviso aos navegantes






" Não quero que me amem; quero que me tratem bem"
Jacques Lacan, seminarista impúdico

Poemeu senvergonhoso


Morro ontem, nasço amanhã,
hoje vou tocando a falação.
Sou filho de homem e mulher,
bem dito fruto da má criação.

Engulo sapos, degusto rãs,
no de todos o exatamente.
Devedor, não pago, enquanto puder,
e vivo a vida que atrás vem gente.

Moro comigo, nunca fui a Jaçanã,
escrevo, e digo, sempre uma aposta.
Locatário de meu bem querer,
estou como o diabo gosta.

Bar do Frango, ainda ontem

Caderno de lembranças (1965)



Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda areada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

Vicente de carvalho, 1908


Vicente de Carvalho, poeta santista, praiano, quase esquecido nos dias de hoje.
Na infância brinquei muito aos pés da estátua em sua homenagem que
existe na praia do Boqueirão, em Santos, onde eu passava um terço
dos meus anos de moleque. Tempos depois encontro o livro,
Poemas e canções na biblioteca lá na casa da Emílio Ribas, 713,
casa onde vivi dos dois anos de idade até ir para o Rio em 1972.
Anos depois, em 1965, uma menina de 15 anos me deu seu "caderno de lembranças"
para que eu lá colocasse algo para ela (as meninas tinham esses cadernos
no início dos anos 60). E esse foi o poema que coloquei.
A casa onde li o livro, descobri trás d´ontem,
está sendo demolida. A biblioteca já havia se espalhado faz muito tempo.
Mas o livro, acabou comigo.
E mais,
casei com a menina e o poema.
Que ficaram comigo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Para uma amiga que não conheço


O Real é uma merda
quando nos cai sobre a cabeça.
Falta a palavra, explode a perda,
e sobra o desejo que tudo anoiteça.

Mas, se ao que não tem remédio,
só nos cabe remendar,
o resto é o tédio,
de nosso mal falar.

O Real é rombo, furo no nada,
a vida segue, a morte não há.
A verdade insiste, apalavrada,
e nos cabe um tempo ao Deus dará.

E até que o remendo, ali pensado,
nos permita o futuro que a Deus pertence,
vagamos, escolhos de naufragado,
tentando seguir algum em frente.

O Real não tem remédio,
só nos cabe acreditar,
e do horror deste assédio,
aprender a remendar.

Não sou eu quem me navega,
quem me navega é o mar.

Natureza morta


Num momento ela estava ali, no meio da tarde,
meio miragem, meio nada, meio um monte;
um tudo impossível, ainda assim horizonte.

Numa noite, logo após ter florido a árvore,
secaram-se os galhos deste meu sonhar,
e onde havia um nada, nada mais há.

Acordei na ilha de meu naufrágio,
na solidão de um calvário sem sentido,
sentindo falta do que nunca havia sido.

E na falta, que da vida nos cobra ágio,
retomo as rédeas de meu por vir;
nenhuma queixa, tudo a construir.

Com as gentes, que me são constantes,
acolho o que neles é o me querer,
e construo com Isso um meu bem dizer.

E assim, findo o sonhado instante,
retomo a pena, a letra e a memória;
escrevo um nada e vou viver história.

Assim caminha a humanidade


Clique e descubra.

Crítica da razão impura







Acho que isso é o que acontece comigo em relação àqueles que me criticam ou gritam contra mim, depois de me haver lido. Sempre é muito difícil para mim responder a eles, exceto por uma desculpa, desculpa que eles talvez interpretem como ironia, mas que na realidade, é a expressão de meu espanto: “Então eles não estavam mortos!”

terça-feira, 21 de agosto de 2007

O último seio


LOS HERALDOS NEGROS
César Vallejo
.
Hay golpes en la vida tan fuertes... Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma... Yo no sé!
.
Son pocos, pero son... Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán tal vez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.
-
Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.
;
Y el hombre... Pobre... pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos Ilama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.
.
Hay golpes en la vida, tan fuertes... Yo no sé!

Para Alana, que sofre,
Para Gilza, que não lerá,
e por mim mesmo
que ainda vago por lá.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

A farra do boi





O cigarro já foi,
fiquei eu, dono da falta.
Na farra do boi,
nas luzes da ribalta.

Invento o cais.... e caio.


Inês era morta,
ressuscitou.
Minha lida torta,
endireitou.
Mas a vida é porca,
não sei quem sou.
Batem na porta,
vai ver que estou!

Caderno, caneta, no Frango a Beira de uma cerveja

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Ao filho que se vai.


Do pai sempre coruja,
meio anjo, meio demônio,
metade com a dita cuja,
celebro seu matrimônio.

Um filho tornado homem,
meu Bruno com sua Gisele.
Pois os filhos só nos somem,
quando se lhes arrepia a pele.

Dou o filho, ganho a nora,
numa troca que nem sei bem.
Só sei que a partir de agora,
meu filho tem lá seu bem.

Que os deuses lhes sejam leves,
como a brisa é para a folha.
Que o eterno lhes saia breve,
e para sempre seja uma escolha.

Deste pai assim tocado,
neto da Pata poeta,
acolham esse meu cuidado
oferta em versos pernetas.

El dia en que me quieras...

(...)

Podias ter sido um barco
a navegar no mesmo ritmo das ondas,
mas não. Quiseste ser vento contrário...

Mas tudo tem duas faces.
A tristeza é só a outra face da alegria
tal como a morte é só a outra face da vida.
Este amor tem duas faces: nós...
e nós somos apenas tu e eu,
o desencontro na volta lenta da vida
o reencontro além do tempo.

Logo chegará o dia
em que o teu espaço será o meu espaço
e o teu tempo será o meu tempo
e jamais haverá sinais a apontar destinos
proibidos.
Seremos apenas nós,
com a certeza de um amor sobrevivente
na memória longínqua do olhar.
E será pelo olhar que nos reconheceremos...

Hoje eu sei que não vou morrer por não te ter,
porque um dia
atravessarei o portão desconhecido
e, ainda que tu não saibas,
levar-te-ei comigo...

e se não posso ter-te aqui,
ter-te-ei além
onde os barcos navegam sem vento...

ainda que não te tenha nunca...

Maria José Quintela - Portugal

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Jodido, pero contento



As mangueiras de minha praça
andam senhoras cheias de graça,
felizes, opulentas, faceiras,
e antecipando primavera saborosa,
se postam, em alas de verde e rosa,
baianas de uma minha Mangueira.

E, nesta Campinas que assisto passar,
garbosas, sambam para o meu olhar.
Rodando suas saias de folhas,
marcando o ventar dos ventos,
no ritmo de meu pensamento,
tornando mais fácil a escolha.

E na praça, plena de verdes e rosa de encantos,
se fazem mestras de meus tolos espantos.
E se abanam fáceis, as minhas mangueiras,
qual damas rodadas de fatal elegância,
que junto às pipas e toda a infância,
inventam minha vera escola campineira.

E assim, de vento invento
a minha nova criança.
Jodido, pero contento,
menino perdido na dança.
E mesmo sem outras certezas,
Mangueira! teu cenário é uma beleza!

Uma coisa de cada vez






Juro! Vou parar de fumar.
O pito deixará de existir.
E, depois, bem mais devagar,
vou parar de mentir.

domingo, 5 de agosto de 2007

O fado, as marcas, o dobrar dos sinos e o que será.

Ecos do dia anterior

Pelos dedos novamente entrelaçados,
no sumo dos lábios mais uma vez colados,
o tempo escorreu em fados
e os corpos restaram cansados.

O tempo ex-corrido deixou marcas,
criou realidades, possibilidades parcas.
Fechou baús, trancou arcas,
matou futuros, incrustou cracas.

Restaram ambos se querendo meninos,
na cauda do rio, no dobrar dos sinos,
numa busca inútil, no fim dos destinos,
de um tempo perdido, feito assassino.

E foram tantas lágrimas roladas,
ilusões, sonhos, ternuras inacabadas,
que um quem sabe surgiu do nada,
e de uma réstia pouca fez-se uma fada.

E viveram na espera de um que virá,
as mãos sempre dadas, até acabar.
Os beijos ávidos tentando sugar
o que não era mais, nem nunca será.

Bar do Frango, 5 de agosto, mês de desgosto, de 2007

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Como uma pluma


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Neruda
Tem horas que sentimos o que todos os amantes anteriores já sentiram,
que tentamos dizer o que tantos já disseram melhor do que conseguiríamos.
Tem horas que temos de abandonar a pretensão de sermos únicos,
e nos gostar bobinhos, enamorados, igualzinhos á multidão
que construiu nosso enamoramento.
E nessas horas, sempre poéticas, há que não bobear com as palavras,
buscar nos infinitos bobos que nos antecederam
a palavra mais justa, mais bela, mais tonta, mais clara.
E há, principalmente, de reconhecer quando essa palavra nos é dada,
cheia de nossas bobagens, de nossas tonterias, de nosso encantamento.
Daí Neruda, daí Inês.

Menina do Rio


Olha, que coisa mais linda
mais cheia de graça,
é ela menina,
que vem e que passa,
num doce balanço
a caminho do bar

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A duras penas


Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar
[Barulhos-1980-1987]
Obrigado, Inês
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quarta-feira, 1 de agosto de 2007

No tormento da calmaria.


Fui,
vi,
e
voltei.

Da minha vida
outrora
saberei.

Não sou mais
quem foi,
não sou ainda
quem voltou.

Passei pelo Rio,
que passou em minha vida
e voltei para Barão,
cheio de novas feridas.

Fui um,
voltei outro.
De mim,
falo daqui a pouco.

Estou de volta,
nas voltas que o mundo dá.
Do Rio que busquei escolta,
o futuro saberá.

Agosto, cama de flores, mês de me morrer de amores.