domingo, 31 de agosto de 2008

Fim de mês


Não sei se vocês me entendem, e isso não importa muito.
Aqui acaba agosto, mês de meu morrer de amores.
Nele o fim e o começo, sendo um o outro, cada qual à sua vez.
Nenhum carrega só tristeza, nenhum é só alegria, ambos são plenos de flores
são ambos cheios de vida, no tempo de cada um.
E, dando por findo o que amanhã recomeça,
declaro acabado, a gosto, o que soube deste mês.
E vou esperar setembro para morrer outra vez.

De Regina para o Bar do Frango



Meio intelectual, meio de esquerda
De Antonio Prata.

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar "amigos" do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. "Ô Betão, traz mais uma pra gente", eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.

Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil! Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que agente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim, Câmara Cascudo, saca?).

- Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

Esse obscuro objeto do desejo




"Contada por ìtalo Calvino, em seu livro Seis propostas para o próximo milênio. Calvino tirou-a de um caderno de notas do escritor romântico francês Barbey d´Aurevilly, que por sua vez a tirou de um livro sobre a magia: a cultura é sempre assim, camada após camada de citações sobre citações, de idéias que provocam outras idéias, faiscantes carambolas de palavras através do tempo e do espaço. A história é assim: o imperador Carlos Magno, já muito velho, apaixonou-se por uma garota alemã e começou a caducar de maneira penosa. Ficou tão arrebatado de paixão pela jovem que esquecia os assuntos de Estado e caía no ridículo, com o conseguinte escândalo na corte. De repente, a garota morru, coisa que encheu os nobres de alívio. Mas a situação só fez piorar: Carlos Magno ordenou que embalsamassem o cadáver e o deixassem em seu aposento, e não se separava de sua morta nem por um instante. O arcebispo Turpin, horrorizado com o macabro espetáculo, suspeitou que a obsessão de seu amo tinha uma origem mágica e examinou o corpo da moça; embaixo da língua gelada encontrou, de fato, um anel com uma pedra preciosa. O arcebispo tirou a jóia do cadáver e, assim que o fez, Carlos Magno ordenou que enterrassem a mulher e perdeu todo interesse por ela; em compensação, foi tomado por uma paixão fulminante pelo arcebispo...Então o atribulado e acossado Turpin decidiu jogar a jóia encantada no lago Constanza. E o imperador se apaixonou pelo lago e passou o resto da vida junto à sua margem"
Copiado de A louca da casa, de Rosa Montero
que tirou de Calvino, que tirou de dÁubervilly
que tirou de um livro antigo, 
que tirou de uma lenda, que tirou...


sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Início e fim de Análise


Análise
Fernando Pessoa


Tão abstrata é a idéia do teu ser

Que me vem de te olhar, que, ao entreter

Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,

E nada fica em meu olhar, e dista

Teu corpo do meu ver tão longemente,

E a idéia do teu ser fica tão rente

Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me

Sabendo que tu és, que, só por ter-me

Consciente de ti, nem a mim sinto.

E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto

A ilusão da sensação, e sonho,

Não te vendo, nem vendo, nem sabendo

Que te vejo, ou sequer que sou, risonho

Do interior crepúsculo tristonho

Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
12-1911

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O poema se repete, a análise é sempre uma outra mesma coisa. 

Coração valente


Foto: Por de sol no Leblon
Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade
Lembrado pela Flávia

O sábio poente


Receios

São tantas as coisas que penso,
se você soubesse...
Tantas decisões tomadas,
ansiedades pensadas,
se você soubesse...
Tantos os entristecimentos,
as impossibilidades,
se você soubesse...
Se soubesse como vejo a coerência inexistente
se você soubesse...
Se soubesse como um sorriso teu me alegra
e como teu sorriso me entristece,
se você soubesse...
Se soubesse como fica meu coração
a cada afastar que deixo transparecer
e como perco a energia
a cada vez que você me chama e eu repito
não, e não, e não.
Se você soubesse...
ah se você soubesse...
Se você soubesse como me é cara a tua companhia
e como me falta de mim o que não te posso dar.
Se você soubesse...
Se soubesse meus receios,
meus anseios,
se você soubesse...
Se você apenas soubesse!

Ordem e Progresso, salve, salve, Brasil!


Dedicado ao Brasil.
Com todo o afeto que se encerra em meu peito juvenil!


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Sina



Há tanto tempo eu fumo,
que às vezes penso que se parar,
eu sumo!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"
Imagem: Natália Correia por Bual
Cortesia: Fernanda, de Portugal

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Alegria






Olhem bem para a cara dos personagens, Mr. Fats Waller e eu. Depois, escutem o piano que pulula alegremente, a voz jocosa, a letra leve. Acompanhem o "vídeo" e todas as suas caras.
Aí, surpresa, um pouco de alegria no jazz, sem deixar de ser blues.
Depois, só porque peço, imaginem minha cara que assim continua, essa desconhecência cotidiana para tantos de vocês, mas que faz tanta diferença para mim.
Misturem tudo em boas lembranças, em um colo amante, em um beijo leve, em uma saudade gostosa, e escrevam a si próprios uma carta. Que fale de filhos, de orgulho de pai, de namorados, de enamorados (que não são a mesma coisa), de amigos novos, de vida ainda se espraiando, de curiosidade com o futuro, de bem estar com o passado. De presente e aniversários, de idade que se completa, de alguém que se locupleta nessa sabedoria discreta que só a idade nos dá.
Garanto que será alegre.
Um beijo a todos. 

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sábado, 23 de agosto de 2008

Chorão


Levei quase sessenta anos para entender o meu chorão, de quem já falei por aqui brevemente. Apesar de, considerando, enxergar na tão pouca história do blog, uma demonstração por escrito da importância do chorão no eu mesmo que aqui vou descobrindo descoberto.
Era, o chorão, na minha pré-história, uma árvore como esta da foto, plantada no quintal da casa do Bosque, onde nasci e vivi até os dois anos de idade.  Deste chorão-árvore já mostrei ramos em fotografias de um suposto eu de fraldas (sujas) e, até mesmo, já teci algumas considerações sobre os efeitos do significante em mim.
Pois o chorão, assim mesmo como um nome, um significante, ficou como a única lembrança que mantive daqueles tempos em que me fundei e me sujeitei. Por razões que escapam às minhas razões, o chorão virou meu primeiro significante, meu traço identificatório fundamental. A partir dele, fui vindo (a/um) ser. Claro que nunca uma árvore, já que nunca tive os pés plantados no chão o suficiente para enraizar em nada. O chorão marcou-me significantemente, pura palavra durante muito tempo sem sentido (especial) para mim. E, confesso, que nem mesmo sabia que cara tinha um chorão (árvore), e levei anos para entender que a árvore que se planta em frente da casa de Nina e de meus filhos era um (a interpretação disso fica para a Nina, que foi quem decidiu lá plantá-lo).
Mas como o significante é mãe de muitos significados, e como essa identificação primeira é mãe de todos os nossos afetos, virei um chorão, um sentimental, com um leve toque de melancolia. Virei um chorão significativo.  Passei a gostar das belezas com uma certa tristeza (mas nem sei se existe as que não tenham; Vinícius, por exemplo, acreditava que não), de músicas choradas, de lágrimas furtivas, de apertos no coração que só se aliviavam quando escorriam, furtivamente, olhar a fora.
Aí, outro dia, em desses inúmeros PPS´s que recebemos em nossas caixas de entrada, uma amiga querida (salve, Regina!) , me mandou uma brincadeira na qual, dada a data de seu nascimento e um toque de sabedoria celta, a coisa diz qual é a "tua árvore". Apesar de já ter descoberto antes essa minha ligação com o chorão, foi com uma boa surpresa que vi os celtas confirmando o meu ser a mais, o chorão que até hoje comanda as cadeias de meus sentidos e meu ser sujeito. E como os celtas foram os celtas, que nem sei bem o que foram, tatuei-me definitivamente nesse Outro mí(s)tico.
Daí repensei escolhas, entendi equívocos, iluminei apostas futuras, tudo no embalo das ressonâncias de um significante que agora acolhia e, ao mesmo tempo, tentava me indeterminar.
E lembrei da primeira ária de ópera que tornei minha, muito antes que Gilza me ensinasse outras belezuras na coisa operística. Dela, a ária (e a Gilza) também já falei muito por aqui, já postei letra, Mario Lanza cantando, ou seja, já pensava havê-la cercado de todas as maneiras que há para cercá-la. Mas como o chorão, que aqui admito e faço eu, vive se disfarçando em lágrimas furtivas, escolhi esta bela interpretação para me repetir mais uma vez. 
Coisas do significante um, diria um Lacan em mim. Coisa de quem fez dele uma marca não mais renegada, diria eu, o que não contradiz Lacan mas me faz mais em paz.

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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Saudades do Leblon


Quando resolvi voltar ao Rio de Janeiro de  quase toda minha vida adulta, foi lá pelo bem finalzinho do século passado, tanto que o Leblon só se marca em mim neste século vigéssimo primeiro, apesar de tantos outros anos já vividos pelo Rio. 
Me aboletei na casa da Anninha, meu carinho com dois n´s, e, desde lá, resolvi que era no Leblon que iria voltar para o Rio de toda a minha vida. E para o Leblon eu fui, inaugurando século e uma nova minha história.
Pouco tempo depois achei meu apartamento, na Rua Dias Ferreira, em frente ao Azeitona, em um Leblon bem só Leblon, longe da badalação que começava a tornar o bairro um point, mas perto do movimento incessante que me interessava e confundia. 
Ali vivi meus cinco anos mais cariocas, de 2001 até meados de 2006. Ali conheci o povo do Azeitona, um outro Rio para um outro eu, a volta à vida e a um futuro incerto (e existe um futuro certo?), os amigos, o botequim, as ruas tranquilas como ilhas no oceano de um Rio já meio paranóico, o agito logo ali pertinho e uma nova vida que fui acolhendo aos poucos, como quem sorve algo muito especial.
Com ela, a vida, retornaram amigos, havia a vizinhança de Anna e, ainda, Fernando, mais o monte de gente que o Azeitona foi acrescentando. Pipoca, que nasceu no Leblon,  conquistou a todos, desde a madrinha Christina até o Azeitona que, um dia, mal humorado, expulsou-o do bar e permitiu-o, Pipoca, restar tranquilo em casa enquanto eu me g(o/a)stava no bar. No Leblon fui mais carioca do que todo o tempo antes de Rio de Janeiro. Lá me naturalizei neste sotaque que reluto até hoje, anos passados, em abandonar nessas campinas d´oeste.
E, têm dias, que a saudade das ruas do Leblon, da minha Dias Ferreira, da livraria Argumento (e da Contraponto onde Pipoca entrava comigo), do Cantinho, onde filé igual ainda não experimentei, do Azeitona, bar de casa, onde encontrei tantos e tantas, das letras e expressões que lá restaram adormecidas em mim, do Flor que acabou para virar um monte que nunca admiti belo, pois é, têm dias que a saudade de tudo isso bate forte neste meu exílio do carioca em mim.
Aí, pergunto: o que tem que ver a música que aqui se posta, em repetição, com tudo isso? Tirando que Paulinho é um dos compositores modernos mais cariocas que há, que a Zizi só acrescenta à música, tenho que reconhecer que a única coisa que une minha infinita saudade de mim mesmo no Leblon e a música que aqui posto é o gosto da maresia carioca que tanto respirei no Leblon. E  me repito, e repito, e repito. Coisas do mundo, minha nêga, como diria outra música de Paulinho que também já nem sei se postei.
Ou, pelo contrário, o Leblon veio porque eu queria essa música, onde largo a paixão e abro mão de desejos. Quem há de saber? Eu com certeza não sei. Pois aqui encontro outras paixões, outros desejos que agarro com mãos que já comemorei em poemas há pouco passados. 
Abobrinhas à parte, a música vale. Para mim e para quem não faz a mínima idéia do que seja o Leblon. Vale como uma maneira carioca de melancolizar, coisa que Paulinho faz melhor do que qualquer outro carioca vivo.
Beijos no Azeite, na Christininha, no Ricardo, no Peter, no Dr. Léo, no Helinho que depois não era mais, nas mulheres que ali conheci por uma noite, nos conhecidos que ficaram outras mil e uma.
Mas, reconheço, a música é uma despedida. Não das paixões, mas de uma certa maneira carioca de me apaixonar. Vou virando paulista, me apaixonando paulistanamente, batendo meu coração de outras maneiras, sem saber se é a falta do Rio, o avançar da idade ou os meus novos obscuros objetos da paixão que me diferenciam amorosamente. Mas o ido é o ido, o largado o largado, as paixões sempre outras em outros eus para um sangue que continua meu.
De qualquer forma, sabendo que as palavras são sempre precárias, saudades do Leblon e de mim mesmo, que ainda vou me acostumando com minha nova versão, que não cansa de se modificar e me surpreender.

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Nós das palavras

Foto: Chema Madoz
Palavras Rubras

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida / há palavras de morte
há palavras imensas, / que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixam de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras-homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras-diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.


Mário Cesariny de Vasconcelos
Recebido de Inês

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Repetente


A cada outra nova musa
Começo um novo caderno,
Que quanto mais se usa,
mais se congela em invernos.

A neve sou eu mesmo que trago,
Flocos de minha história confusa.
E o sonho que ofereço magro
Não me dorme, só me acusa.

E assim continuo o estrago
No branco da páginas novas.
De meu passado, sempre escravo
Me repito em todas as provas.

Da necessidade da poesia




Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício da arte poética é sempre um esforço de auto-superação e, assim, o refinamento do estilo acaba trazendo a melhoria da alma.

E, mesmo para os simples leitores de poemas, que são todos eles uns poetas inéditos, a poesia é a única novidade possível. Pois tudo já está nas enciclopédias, que só repetem estupidamente, como robôs, o que lhes foi incutido. Ou embutido. Ah, mas um poema, um poema é outra coisa...

Mario Quintana
Obrigado, Tita

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Labirinto



Só se sai de onde se entra
Nada termina sem começar
E só no desejo se aguenta
A dor do se deixar desejar.

Pois o desejo é coisa confusa
É de nada, de vazio e buraco
Mas sempre é possível a recusa
Correr, e se livrar do abraço.

Frango, 15 de agosto de 2008

domingo, 17 de agosto de 2008

A louca da casa










A imaginação é a louca da casa
(Teresa de Ávila)

sábado, 16 de agosto de 2008

Adeus, Caymmi


O compositor indolente encontra um intérprete  de voz indolente e cria-se uma obra-prima.
Adeus, Dorival Caymmi.
Benvinda, Marina.

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Cantores de saloon



Essa história do Caymmi ter parado de descansar me deixou musicalmente frenético. Mas, acho eu, não há maneira melhor de homenagear um músico do que com músicas. Então aproveito o final de tarde, antes da noite me levar embora, para colocar um tipo que ainda não tinha pintado por aqui: o cantor de saloon, como os chama Ruy Castro. 
Cantores de pequenos espaços semi-escuros, que cantam sobre algumas vozes mal educadas, ruídos de copos, bebidas e bêbados, para divertir a platéia. Intérpretes de um tipo especial, quase não os temos por aqui (só consigo pensar em Cida Moreira, no momento, aliás uma grande cantora de saloon).
Escolhi Bobby Short por várias razões. Primeiro tinha uma música com ele, o que é sempre condição necessária já que não gostei do andei achando lá pelo YouTube. Segundo porque Bobby Short, durante vários anos, foi figurinha fácil no bar do Maksoud em sua época áurea. Ano sim, outro também, e Bobby, sempre chique, tornava o lugar, que também era chique, mais alegre. Como fez sua vida inteira em Manhattan no Carlyle (conheci pessoas que iam para Nova York só para matar as saudades dele). 
Pena não ter achado um bom vídeo (imagem e som) com ele, pois ver a interpretação é quase fundamental. Se algum de vocês tiver alguma sugestão...
Agora, a alegria de Bobby Short que, com certeza, vai tocar piano para a soneca que Caymmi tirará depois de sua longa jornada. E só não encerro aqui este sábado dedicado a Caymmi porque ainda vou tentar uma Marina pra arrematar. Se hoje não der, amanhã será.
Ladies and gentlemen, Mr. Bobby Short.

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Quem ama só enxerga o sol e a lua.


Os americanos são um povo muito estranho. Se Axterix chamava os alemães "desse doidos teutos", poderíamos dizer, sem pensar muito, esse tontos americanos. Bush, os evangélicos xiitas, McDonald´s e uma série enorme de outras bobagens nos justificariam. E o pior, são uns tontos poderosos com mania de Cavaleiros Solitários, uns arremedo de Quixotes sem nenhum Sancho Pança que os acompanhe. Um perigo mortal para o restante da humanidade.
Em compensação, imaginem os Estados Unidos não tendo existido. O cinema praticamente acabaria (a não ser que você seja tão anti eles que ache o máximo passar o resto da vida assistindo filmes iranianos, herzegovinos e brasileiros). A música, sem o jazz e os musicais, ficaria irremediavelmente perneta. Um mundo sem a voz de Frank Sinatra, o charme das canções de Cole Porter, entre outras coisas, seria um mundo bem mais chatinho.
E quando a gente junta as duas coisas e lembra dos filmes musicais, garanto que não são os da Atlântida que te vem de imediato à cabeça. Faça o teste: pense em 10 musicais que você nunca esqueceu. Depois conte quantos não são americanos. Pois é, entre tanta tonteria eles são capazes dessa coisa cultural popular que nos marca desde o início dos tempos modernos (e aí a gente lebra de Chaplin, que ainda que inglês, só foi possível lá).
E entre os musicais inesquecíveis (claro que dependendo da geração a que você pertence), um deve estar na lista de quase todo mundo: Singing in the Rain.
Assim, nesse dia em que qualquer boa música é homenagem a Caymmi morto, me lembrei de Gene Kelly, achei que já havia postado (já? não consegui achar; estou precisando organizar melhor essa bagunça por aqui!), depois achei que não e, é claro, decidi tapar esse buraco que fica no blog até que ele possa dançar, e cantar, naquela cena que muitos se lembrarão do como e onde assistiram pela primeira vez.
Na última lista, de 2007, dos melhores musicais de todos os tempos, Singing in the Rain continuava no "top 5". E acho que por lá vai continuar durante muito tempo, já que não se fazem mais musicais como antigamente.
E, por último, o título da postagem se refere à cena segundos antes da aqui postada. Gene Kelly está se despedindo de Debbie Reynolds e ela se refere à chuva. Ao que ele replica: Chuva? Que chuva? Só consigo ver um sol maravilhoso brilhando. O amor é lindo e, muitas vezes nos deixa deliciosamente palhaços a dançar debaixo do maior toró.


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PS: Para detalhes técnicos sobre o filme, a música ou seja lá o que for, deixe de ser preguiçoso, que isso só fica bem em baianos como Caymmi, e vá consultar a Wikipédia, o Google, whatever. E me avisem se, apesar de tudo, eu jé coloquei esse vídeo antes. Afinal são 574 postagens desorganizadas por um ano e meio de posta primeiro, pensa depois.

Prá onde ele foi (com a colaboração de Sé e Beatriz)




Como diz meu amigo Sé, o boa praça (sem catedral), ele foi. E como disse uma amiga dele, Beatriz, ele foi...só, e deixou o chapéu de palha, maracangalha, os sons do mar e do vento e muito mais. (e a Anália?)

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Dedicado à Cristina e sua filha Gra, que também gostavam dele
(ver comentário no post anterior)

Dorival Caymmi, baiano, músico e brasileiro


Imagem: Elifas Andreatto

Morreu nesta madrugada, com 94 anos de idade, o baiano mais baiano do Brasil, Dorival Caymmi. Compositor de nem tantas músicas assim, já que sua mitológica preguiça o impedia de compor mais, o fato é que quase que todas as suas composições são jóias finíssimas. Da inesquecível Marina às canções praieiras, passando por coisas de beleza tão singela como Maricotinha, sua obra é sua antologia. Dorival era também cantor e pintor, além de produtor de filhos músicos, bons músicos como deveriam ser os filhos de Dorival e Stela.
Mas são suas músicas simples, quase ingênuas, que o farão lembrado para sempre entre os grandes da MPB. A minha escolha para essa homenagem é tirada de um DVD sobre Chico Buarque. Maricotinha tem tudo que o baiano tinha, e sua interpretação, rolando os olhinhos malandros, é puro Caymmi. A música segue, quase interminavelmente, com uma preguiça de nos dar vontade de rede na praia e sorriso no rosto. Prestem atenção no olhar de profundo respeito do Chico ao se ver cantando com esse monstro da MPB.
O céu hoje vai ter música. Isso se Dorival não resolver descansar uma eternidade.

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Sei lá, mais de 10.000 coisas



Saí de casa e eram 9.000 e muitas as visitas ao blog. Daí voltei e nem vi ele se tranformar nesse redondo dos 10.000 e alguma coisa.
É muito? É pouco? As dúvidas continuam as mesmas, dado que os comentários continuam vindo só das queridas de sempre, que não justificam os números, a geografia que o contador me garante sem nada me garantir.
Vocês já viram essas minhas dúvidas "autorais" antes. Eu continuo achando que escrevo para as respostas que não recebo (as minhas queridas não valem; são como elogios que, apesar de adorá-los, são meio que esperados). Aliás, continuo nas mãos de "minhas queridas", sem nunca saber se o blog diz também para alguns "queridos", ou mais ainda, que outras queridas tenho por aí nesse mundo de Deus.
Pois já começo a achar que vários de vocês, que não conheço, aqui se repetem. O contador me insinua isso e meu desejo assim os conta. No entando, a solidão do aqui escrever, que tantas vezes me faz pensar em deixar tudo de lado e parar com este exercício narcísico, continua. 
Ao mesmo tempo, quanto mais vocês se tornam lá no contador, mais me obrigo a continuar, às vezes com peso, na maior parte do tempo com muito prazer. Mas a curiosidade permanece, mesmo que hoje saiba que curioso permanecerei. 
O blog  fala de mim, nem sempre da maneira como sou lido, apesar de que o tom é sempre correto, e justo, com o tom de minha vida. Às vezes, quando a tristeza marca as postagens, sinto que algumas pessoas se preocupam comigo, como concretamente tive provas lá pelos finais de maio. Outras, e entre algumas poucas pessoas, amores me são supostos, me vêm ébrio, me contam para além do que a licença poética, que sempre me permito, lhes dá o direito.
Sou só um cara que escreve um blog em horas variadas de seu dia. Tenho horas alegres, musas novas, momentos de solidão, complicações existenciais, sintoma à flor da pele, tudo coisa que, sem vergonha, aprendi a deixar escorrer pelo blog.
Aí pensei em alguma música que falasse disso, que o blog são meus momentos e que, às vezes, para o desgosto de minhas queridas, os tempos são meio sombrios, mesmo quando são só instantes que coincidem com meu postar.
Mais ainda, trago comigo, como bem sabe quem me conhece, uma certa tendência à tristeza na beleza, um certo escorregar pela melancolia das coisas lindas. Ainda não sei bem se isso é um problema meu ou uma condição estética inevitável. Pois o belo, queiramos ou não, nos lembra o gozo perdido, o inalcansável, o a mais que nos escapa. E tem horas que a consciência disso é maior que a ilusão do momento. Ou seja, o blog, em sua poesia ou música, é, e sempre será, meio blue, como a maioria das músicas que aqui decido postar.
Além disso, são tempos complicados esses que atravessamos neste início de século. Confesso uma saudade enorme de outros tempos que já vivi, onde o mundo não era tão sem saída como agora se apresenta para meus quase 60 anos. Tudo se complicou, de uma certa maneira, e as ilusões, algumas bem engraçadinhas, vão se tornando, cada vez mais, muito particulares.
Daí que nessa comemoração (porque há que se comemorar o mais de 10.000, pois não?), lhes deixo com uma música que fala, um pouco, disto tudo, da maneira blue, e linda, com que me acostumei a falar-lhes. Mas, como diria uma outra música que um dia posto, a vida é mais complexa do que parece.
Mas os tempos andam assim. Mas juro que eu não, eu vareio muito mais do que vocês supõem. E novos tempos particulares não param de acontecer.
Mas minhas escolhas musicais...


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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

E para concluir, Peggy Lee nos dando febre


Passeando pelo YouTube, achei essa Peggy Lee que poderia ter entrado antes. Mas como duas Peggy Lee são sempre melhor que uma só, e como quase tudo dela é fantástico, encerro essa conversa sobre as branquelas que arrebentavam na década de 50 com uma interpretação para branco francês nenhum botar defeito.
Ela é ou não uma das maiorers cantoras de jazz que já existiu? Resposta para o pessoal do "jazz é coisa de negro", please! Aliás, outro preconceito corrente é que as grandes cantoras tinham que sofrer muito para serem grandes, tipo Billie Holliday, por exemplo. Pois nesse critério Peggy Lee navega com tranquilidade. Ruy Castro assim nomeia o verbete que dedica a ela: Legalmente loira, com uma infância digna do Harlem. 
E, antes que eu me esqueça, a letra é dela.  E só para render meus préstimos à Rainha do Duke, coloquei o brinquedinho que rola a letra.
Agora vou tomar meu antitérmico no Bar do Frango. Depois eu volto, eu sempre volto.

A titia de George


Também da década de 50, trágica e pungente como a chama Ruy Castro. Atropelada pelo rock na década de 60, Rosemary Clooney nunca chegou à fama que parecia certa e isso, mais o alcool e as drogas, acabou com ela. Chegar à fama ficou por conta do seu sobrinho George Clooney, por quem hoje se suspira como já se suspirou por titia.
Aliás, enquanto cantavam, as cantoras brancas podiam arrancar suspiros das platéias idem (e vcs pensavam que Diana Krall, bonita e gostosa, era uma grande novidade no jazz, não é mesmo? tolinhos!). Rosemary, Peggy Lee, Julie London embalaram muitos sonhos, e outras cositas más, masculinas naqueles tempos.
Mas, voltando a ela, enquanto não se viu obrigada a cantar com os Fabian (lembram-se?) da vida, Rosemary Clooney conseguiu mostrar sua arte com os grandes da época, como Harry James e Duke Ellington. 
Gravando pela Columbia desde o início, ela teve que engolir muitos sapos (vejam um tal de Mambo Italiano que a gravadora lhe impôs e que pode ser encontrado no YouTube). Era o preço a pagar para, de vez em quando, gravar grandes discos, grandes músicas, com grandes músicos.
Escutem ela cantando Tenderly aqui nesta postagem e depois me digam de quem Sarah Vaughan copiou, quase plagiando, a interpretação. Se vocês não soubessem que era Rosemary Clooney, garanto que pensariam em Sarah.
Ah, antes que eu me esqueça: Rosemary Clooney morreu em 2002, mesmo ano que morre Peggy Lee, sua vizinha no blog e na época. 


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A Rainha Branca de Neve do Jazz

Por uma espécie de preconceito ao contrário, os brancos no jazz nunca permanecem no pateão da glória. tendem a ser esquecidos ou menosprezados depois que acabam suas carreiras ou morrem. Não havia, lá pelos States, um Vinícius, o branco mais preto do Brasil, nem nossa cultura de achar que todo brasileiro tem mesmo um pezinho na cozinha. E os franceses, com a raiva que sempre tiveram dos americanos no século XX (século da decadência da França), ajudaram a fazer do jazz uma música negra só passível de ser tocada ou cantada  por negros.
Nada mais besta, já que os exemplos de instrumentistas sensacionais, e brancos, existem aos montes, desde o início da era do jazz. Idem entre os cantores.
Aliás, essa coisa sobre o que é um cantor de jazz nunca foi devidamente respondida. 
Mas, principalmente na década de 50, tivemos uma série de excelentes cantoras brancas que ficaram esquecidas desde o advento do vendaval roqueiro da década seguinte. Entre elas as duas que colocarei neste e no próximo post. 
Aqui relembro Peggy Lee. Quem quiser dsaber mais dela siga o link para a Wikipédia (em inglês). De lá só lhes conto que Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Judy Garland, Dean Martim, Louis Armstrong, entre outros, a citam entre suas favoritas. Duke Ellington, por sua vez, dizia: Se eu sou "Duque", então Peggy Lee é a Rainha" Ou seja, esquecida ou não, foi uma cantora dos cantores e dos músicos, como tantas outras que nunca estouraram perante o grande, e estúpido, público. Peggy Lee, além da ótima cantora que vocês poderão conferir aqui, era letrista de mão cheia e colocou seus versos em várias canções que se tornaram imortais. Por exemplo,"I Don't Know Enough About You", "It's A Good Day", "I'm Gonna Go Fishin'", "The Heart Is A Lonely Hunter", "Fever", "The Shining Sea", "He's A Tramp", "The Siamese Cat Song", "There Will Be Another Spring", "Johnny Guitar",  "Sans Souci", ""What's New?", "Things Are Swinging", "Don't Smoke in Bed", "I Love Being Here With You", "So What's New" etc e tal. Precisa mais?

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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Que há de ser de nós?/Travessia

Já viajamos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento.

Já ansiamos corpos ausentes
como um rio anseia p´la foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?

Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós.

Já avivamos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã.

Reencontramos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?


Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós.

Já enchemos praças e ruas
já invocamos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos.

Já cantamos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?

Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura?
que será, que foi
quanto é, quanto dura?

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós.

Sérgio Godinho
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