domingo, 3 de junho de 2007

Recolhimento


Quando eu te contar a verdade,
não diga nada.
Qualquer boa vontade,
será a vontade errada.
Quando eu te disser a verdade,
cale-se! Apenas ouça!
Palavras de louça,
frases rendadas
feitas de espuma,
enfumaçadas,
letras que escorrem
como areia pelos dedos
ou a bruma de umamanhã bem cedo.
Quando eu te falar a verdade,
não tenha medo!
Fica comigo no teu ouvido,
me acolha o colo que nunca dei,
me salgue as lágrimas que não chorei,
escuta o dito que não direi
e tudo que sobrar devido.
E me recolha em concha,
na ponta dos teus dedos,
no seio dos teus medos.
E quando a ostra, como é das ostras,
novamente se fechar,
aceite a trouxa ali recolhida,
e me deixe na praia,
no quebra mar,
entre as espumas,
as brumas e o litoral.
Quando eu te calar a verdade,
não me queira mal!
E guarde, pouco de mim,
em um canto dos olhos teus.
Me leve calada, contida,
no brilho de teu olhar,
a verdade dita,
o fim,
restos do eu.
Resto que deixo,
no teu calar.
O resto é seixo,
para Iemanjá.



3 comentários:

canary disse...

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Meire Eloisa disse...

1º dos versos às serras por quase versos

O meu comentário de hoje é feito de corpo e alma. Pela cortina entreaberta tenho de frente o cinza céu de domingo, dia em que o mundo parece parar, idéia da obra de Adélia, para dizer do que se dá nas exatas 14h e 00 minutos de cada dia. Aqui nuvens baixas me encobrirão eu sei, pois a linha das minhas alterosas, ângulo em que só eu as tenho, é cada vez mais evanescente, dissolvendo seus versos na paisagem como maravilha e apreensão... Agora está em mim o sentido insistentemente dos seus versos.

2ª dos versos aos reversos

Não só por você imperativo que ordena nada dizer em modo generosamente cruel e poético. Mas o que me impedirá da aposta e da crença nas infinitas possibilidades dos meus e dos seus reversos?

3ª Do medo às ilusões não perdidas na lembrança

Erraria no que dissesse dos versos seus. Mas da vida também? É nela que me agarro naufrága para desvendar ou desvelar outros dias. Lembra-se da máxima para a minha vida no conjunto denso dos quatro versos que lhe falei no já primevo tempo do nosso encontro ao acaso? Sou sim aficionada pelos achados, especialmente quando com eles golpeio desventuras que se tentem impor à vida que se quer plena. A máxima de vida trazida também pelo acaso, pinçada do/a bagagem de Adélia Prado, nos meus 35 anos ensinou-me a ler alguma coisa d’isso e daí em diante que a eroticidade indispensável é sim possível na espera marcada por uma fé não qualquer. O ISSO de que trato está nos quatro versos síntese do poema que ela mesma, Adélia Prado dirá a você agora:

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.
(Leitura, In Bagagem, 19)
Beijos com todo o carinho da Meire Eloisa

Anna Maria disse...

Zédu
O texto é lindo e forte. Poderia ser eu, não fosse a declaração de que é da autoria de " uma menina".
Essa menina é muito boa, mas na expressão escrita do que lhe(s) vai dentro você é ainda melhor do que ela.
Beijo
Anninha