sábado, 12 de maio de 2007

Entradas e Bandeiras




I
Bendita a falta do grão de areia
que ao impedir da concha a doente pérola
me permite saber, da enrugada ostra,
o sumo d´elas e o sabor das carnes.
.
E com a droga de vida tomada na veia,
na boca o gosto de minhas carambolas,
em nau fragata, de velas postas,
parto no agora que antes foi tarde.
.
II
Nos frágeis fios de uma teia troncha
escolho os cacos de meu ser amante.
Esqueço a pérola, retenho a concha,
e vou, ao avesso, garimpar meus diamantes.

Pescador não sou, sou bandeirantes.
Volto ao começo, caio na estrada.
No passado deixo o que me é distante,
e vou caçar futuros em novas entradas.
.
III
E seguirei adiante, sem Tordesilhas,
um pouco infante, bárbaro um tanto.
Descobrirei princesas e impassíveis ilhas,
quase esmeraldas, falsos encantos..
.
E nessas entradas de Compostela,
mato nos índios, neles me lanço
na busca fútil de uma tal costela,
falta passada, inarredável ranço.

IV
Fernão Bueno Dias de Anhanguera,
buscarei um só nesses outros tantos.
Nas margens do Rio, descansarei das guerras,
enganarei indígenas, mágico e santo.

Dentro das muralhas onde serei inscrito,
espalharei sementes pela terra irada.
Colherei os frutos de meu suor maldito,
Bornel, bandeiras, outras entradas.

V
E parto, e chego, e torno a partir.
Não resto nunca, alucinado sigo
Construo rastros, planto o por vir
Capitão do mato, raso comigo
.
Mas quando um dia, ao final chegado,
retomarei das pedras o precioso grão.
Doido alquimista, me inventarei achado,
e me plantarei cumprido no descoberto chão..
.
Bar do Frango, 12 de maioo de 2007




4 comentários:

Meire Eloisa disse...

Por que será que leio, leio, e fico ainda sem palavras no reler em que dos olhos vertem-se águas esmeraldas? Que poderosos versos, provocam o re-verso em emoção não mais contida dos amavios de outrora? Quimera do frio da quase aurora? - Não sei: ou de coisas doutra hora? Entradas e Bandeiras desatam nós venham elas do litoral ou por mato a dentro. Que importa se leio saudades dos versos e se agora elas são os meus lamentos? Do versejado já sem autoria no sentimento, o que sinto, sinto - pressinto. Melhor seria dizer gostei e passei aqui para dizer - mesmo sem palavras, sem palavras pois que me faltam as exatas palavras de dizer da sua bela poesia. Mas você saberia que ninguém precisa de exatas palavras, em entradas ou em bandeiras se essas fincam-se em territórios de emoções. Agora são meus os versos da sua dor e também da minha. Sou livre para ler e fazer deles fogo de acender beleza por dentro. O nó desatará de versos de saudades que sinto, ou que como já disse mais que isso - pressinto.

Anônimo disse...

Zédu, a força das Entradas e Bandeiras me impressiona. Continuo garimpando os diamantes que você espalhou por lá. Onde você escondia essa coisa poética que se soltou de você? Lindo, muito lindo.

MA disse...

O simples agrupamento das palavras num poema já transmite uma beleza única que para mim seria motivo suficiente para admirá-lo(o poema).
Tal se deu na leitura deste que discordando de voce, não achei tão longo assim.
Mas não posso deixar de ousar, ainda que timidamente,ir um pouco além ,talvez movida pelo próprio tema.
Tanto entradas como bandeiras me ligam automaticamente á algumas palavras.São elas:
desbravar ou derivadas,
adentrar,descobrir
partir de um porto seguro para o desconhecido
cativar ou aprisionar o encontrado nesta busca.
buscar riquezas
lutar
morrer
suportar
resistir
fincar bandeira
DEIXAR PARA TRÁS
IR PARA O INTERIOR!
Esta é a bandeira.
Quais as armas?
O que é deixado para trás?
Se tesouros são encontrados, o que fazer com oe mesmos?
Destas questões, deixar o Rio ,somente este verso me basta para entender o uso elaborado das palavras,a verborragia para drenar os sentimentos e poder desbravá-los.
Acho que um porto seguro já foi alcançado.Fincar bandeiras ou não descobrir,cativar,aprisionar,descobrir riquezas ou não ,são grandes bandeiras a serem alçadas.

meire eloisa disse...

Hei Zé-du nosso coração, com os comentários da Anônima, da Ma e os meus, só lhe dizendo que você está com tudo e não ta prosa. Por falar em entradas o convite estradeiro continua de pé... bandeiras pelos gerais é que não faltam, entrar por veredas outras - o cerrado - de mato adentro a perder de vista... de prosa de gente que de tão gente arruma e apruma qualquer coração...