sexta-feira, 9 de março de 2007

Com ciência de Zeno

.... Tarde! ... Ora, se assente que me dará prazer. Tava aqui assuntando a natureza, mas ela vai continuá aí depois de nosso proseio. ... Meu nome? Não lhe disse o povo que aqui lhe indicou caminho, ou pergunta por artes de educação? ... Pois eu sou é Zeno, ´ssim mesmo com Z de Zuleica, único outro Z de verdade destas bandas de cá, que o resto é Zé, com z menor de jota abandonado. Pois então, Zeno, desde o início de minha criação. ... Diferente? Vejo que o moço rodeia, mas mesmo assim lhe conto a história que me nomeia. Coisa do pai, que era hóme dado a um ler curioso sem dar portância pros limite do seu entender. E foi que um dia, pensando nas lavoura com que sonhava enricar, bateu-se com um livro de trigonometria que achou largado na casa do falecido vigário, e que guardo comigo, junto com ´tras coisas que dele deixei sobrar; e só por isso sei o nome do justamente que lhe disse. E, apois, mesmo de trigo não sendo o livro, se encantou com as palavras que lá se apresentou, pois assim era o pai, danado com o cantar das palavras. Achava tangente uma palavra das mais linda, e usava ela prá contar do gado caminhando ´bediente no seu tangenciar. Quando uma discussão se apequenava num empacamento qualquer, dizia que as coisas tavam muito quiláteras, encerrava a diferença, e tocava prá outro assuntamento. Nasci quando ele namorava o livro; e aí ele me escolheu Seno prá nomear, seu, seu filho. Mas, saberei nunca, seje por má falação do pai, seje por ouvidoria preguiçosa do moço do cartório, fui escrito, e juramentado naqueles oficiamentos, Zeno, como deste então sou. Quando o pai se apercebeu, já era tarde; eu já tinha nome carimbado de não mais apagar. Além do mais, lhe fez gosto o som do Z, e a diferença mesma que o senhor anotou. A mãe, que já bem queria Seno, que dizia ser nome de rio de muita fama, mas nas sabedoria do nome do pai, nas suas falas de mel me chamava S/Zeninho, enrodilhando S e Z na língua lá só de suas doçuras prô menino que sempre lhe fui, até quando nem mais menino eu era. Com a mãe, era S/Zeninho e pronto, té o fim. Já homem feito, na brabeza de minhas mocidade, era Zenão pro povo, coisa que o outro vigário, o italianinho que adepois se escafedeu com a Meire, filha de Jair e Iracema, pois me dizia o carcamano danado, quando nem era safado ainda, que Zenão era nome de um coisa e tal lá dos cafundó da Grécia, lugar que penso ficar prá lá do mar que não conheço. Tardô os tempos e voltei a ser Zeno, com o Seu no antes, que aqui sou respeitado pelo Zenão que fui e pelo nome que é meu. Mas o moço não se achegou ao meu lado prá escutar história de minha nomeação. Assim como lhe vejo, é outra sua tensão no se gastar comigo neste pouco toco que lhe ofereço assento. Se for o caso, vamos pros pontos, que o moço é claro e eu não sou tonto. ... Coisa delicada? Pois já lhe digo que delicado só conheço Olindo, menino damo, filho de Virgilio e Maria Fejão, e que, com toda delicadeza, é mais macho que os bigodudo da idade dele. Tanto que dameia sem vergonha, e ninguém lhe cobra não se ser como ele é. Nem Virgílio, muito menos Maria Fejão, que até gosto acho que faz. Pois então, deixe o moço de delicadeza para com minha pessoa, deixe de andar de roda, abandone a ciscação, e vamos ao que lhe interessa, me de ciência de sua chegança, seu interesse em minha pessoa. Isto se o senhor não for deste´s´vangélicos novos, que deram de nos querer vender terras no céu. Pois se for, tome seu rumo, antes que eu lhe meta a mão, que me dá nas gana essa dizimação em nome do senhor lá deles. Prefiro um bom desafio às lenga, lenga desse povo incréu. ... Nada disso? Pois me alivio, que o moço tem lá suas cara de pregador e eu já tava no desconfiamento com sua pessoa. Sendo assim, diga seu troço, que não sou de fugir de boa provocação. ... Como dizer? Diga no bucho, que não sou de estremecer, nem mesmo com extremunção. ... Como? O que o senhor me diz? ... Me acusa? E com toda razão, aquela toda que a gente só tem no acusar um outro vivente. Confesso! Sou sim senhor! Um viciado. Principalmente em mim mesmo, vício impossível de desviciar. No seguinte deste, no meu jeito de ser, que é quase a mesma coisa, se já não for, e também impossível de abandonar sem grave prejudicação para isso que nada sou além do jeito de ser de mim mesmo. Sou, apois, viciado em minha prória pessoa, e reconhecido deste viciamento. ... Como? ... Os outros vícios? Sim, seguro que tenho, em pencas e cachos de bananeira garbosa. Sou um bicho falante, cheio de cacoetes, meio medonhoso, com algumas bonitezas, mas mesmos essas bem viciosas. ... Outros vícios são de muita pequeneza, concordo. Não lhes dou muito tento, pois sou tão viciado em só encarar lutas maiores, brigas mais cavernosas, que nem boto reparo que vou me vincando nesses vícios bobos que me apequenam o corpo para as grandes brigas, e me grandeiam rugas, barrigas de muito pesar, encanamentos entupidos, falas com falta de ar, crueldade com os pequenos, descuidação dos grandes. Desses podemos falar, até mesmo tabular negociação, nos por exemplo, só para me mostrar acordado com suas considerações para com minha pessoa. Mas se me permite, e já já damos seguimento, justinho depois, acendo um cigarrinho para pitar nossa conversação. ... Como?... Mais de 4.700 substância tóxicas? ... Diria que, tendo o senhor sua razão numérica, é grandeza quase tanto e quanto penso o número de coisaradas que vemos nas lojas do comércio ou no cinema da televisão. Mistério da saúde, advirto. ... Tegiverso? Pois quem me dera tivesse verso, mas sou é mais proseador. ... O cigarro? .... Insiste? .... Não fujo. Mas falo dele e de outros vícios. Só o fracassar cansa a pessoa, daí que ao cigarro, com quem inda não pelejei nadinha, sucederei batalhas ganhas, todas nos vício de minha coleção. Combinado assim? ... Então me disponho à sua provocação. Mas lhe aviso, não sou Seu Zé, esse sim de vício tonto em sua pitação, pois, já lhe disse o moço doutor, de coração todo fartado, vai morrer antes da hora se não largar a viciação. E morrer antes da hora é malvadeza das pior, que nem se refestelá na malvadeza o morrido pode. Até donde sei de mim, o Zé é o Zé, eu sou eu mesmo, duas diferença cheia de mesmices, mas coisa duas. Um e outro. ... Mesmo assim? Me diga, então, de suas razões, que já lhe percebo bem arrazoado. O senhor me diz, lhe escuto, e se me permite, matuto, e devolvo minha causação, se for boa causa no meu pensar. Mas não me venha com as horripilanças, que se nem do tinhoso tenho covardia, não será nesses horror futurosos que picarei a mula de meu pitar; pois é como já bem dizia um cumpadre meu, lá das ribas do bem mais prá lá, viver é perigoso, e complemento, e pode ser muito doído, no que é sempre doido. Melhor tentar me agradar a idéia, aí, quem sabe me encanto com a coisa, e dou valor à consideração que o senhor me pede. ... Viver mais? Mais que o que, se aposso lhe perguntar? Como Seu Zé, que não deve ir antes do tempo, não intento ficar mais que meu devido. Pois tem muito vivente que perde a hora, e vive um mais que não tava escrito. E todos, pelo menos no meu conhecimento, vevem bem menos nesse viver a mais. Quero meu tempo, como tempo já tive, bem outro que este, mas é que eu era outro e não volto mais. Quero viver na minha régua, no meu de acordo com o já vivido, com o outro que já era eu, no hoje que já não é mais ontem, nem o trás donte ontem que amanhã será. Com essa o senhor não me pega, que não me apego. O senhor me desculpe, mas morro amanhã, que não sei quando é. Morrer depois é malvadeza com a gente mesmo. E querer viver mais é coisa de quem tem medo da Coisa, da Medronha, e viver com medo nunca ´prendi, nem vejo sabedoria no aprender. O senhor tente outra, que dessa escapulo sem nem matutar. ... Vou cheirar melhor? Acho difícil, e tento lhe explicar, pesar do moço, ainda sem pelo nas venta, ser meio demais de moço prá modo de me entender.. Não que me pense de cherador perfeito, mas já sou como o sabiá, que canta de ouvido. Eu cheiro de olhar. É só ver mato molhado, mesmo que bem nas lonjura, que cheiro de lembrança, sem presição de chegar perto, coisa que o moço, com seus nariz sem pito, duvido saber fazer: cheirar mato de longe, chuva lá diante, manga madura lá no pomar do Jair, e tudo sem daqui me arredar, cheirando só nos zóio de meu olhar. Mas cheiro bom mesmo, cheiro que se fosse só de lembrar a coisa não ia cheirar, é os cheiro das mulher. E meio que aduvido que, com meu pitar, perco esse cheiro quando me enfio, de cara toda, lá nas partes cheirosas das dona. Porque elas cheiram alto, quando a vontade delas é bem fervida, e não vai ser o pito que vai me impedir de servir às carnes. ... Senhor diz que pode? ... Fica mais dificultoso? Mas isso porque, tão moço, ainda acha que só serve com a coisa amastrada, e que a dureza é a mãe das belezura nas briga de home e mulher. Não que eu não tenha mastro pra, nele, elas navegar, mas aprendi, c´as próprias, lhe confesso, que a boniteza da coisa é a vontade das coisa, e que tendo os dois vontade muita, é mastro, é remo, é vela, é vento, vale tudo nesse navegar. Não sei se o senhor me entende, meio pouco vivido que é, mas mulher, meu cheiro bom, é bicho de sérias e muitíssimas complicações nessas manhas de brincar. Muitas, tantão de muitas, diria até, nem sabem das belezura desse complicado nelas escondido, pedindo hora prá se apresentar. E não complicando, ficam no sem saber mesmo delas, tadinhando nas grosserias dos homes, virando vaca de touro besta, que é como nós home é se não aprender o complicado de que tento lhe explicar. Por graça, muitas outras, complicando, vão ensinando a gente, que nós é tudo meio bobo, assim como o senhor me parece, com essa cara de abestado frente a esse meu dizer, e nós precisa aprender muito nas complicações do mulherio prá das carnes fazer fastio. Que contece que no começo nós é tudo meio homem, meio cavalo, sendo o cavalo nas parte de baixo. E besta, mesmo garanhão que seja, se não sabe fique sabido, besta não sabe brincar; só sabe fazer o serviço, que é coisa sem complicação, e égua não é de complicar. Precisa, prá ser home de cabo a rabo, perder o rabo e ficar com o cabo complicado. E isso não é coisa que venha feita num sujeito de nascença, tem que aprender na complicação. Mas depois de aprendido, e tome mulher complicada na nossa educação, é muito bom descomplicar elas na sabedoria que as próprias nos fizeram atentar. Daí que o cheiro exala, o gosto estala, a coisa rola, deita e desagua.O mastro, como o moço sabe, sempre acaba arriado. E o que inda vai aprender, que até começando arriado o senhor pode descomplicar. E aí já lhe dei conta de duas das suas razão: do cheiro, prá quem como eu tem lá sua preferências no cheirar e, no mais restar, cheira de ouvido; e, do mastejar, que só é coisa complicada para quem nunca descomplicou a complicação que, de vera, há. Sei que o senhor vai querer falar do tal do saborear, pois nesse arrazoado não me inaugurei nessa nossa parlatação. Pesar de que, com as moça da Saúde, nunca pude falar como lhe falei; só escutava calado e no meu todo repeitoso, que elas, pelo menos no seu trabalhar, não são de complicação. E de sabor lhe respondo, antes mesmo do seu perguntar. Ou não lhe respondo, pois se o moço comigo me acompanhou, o sabor tá respondido nos mesmo da cheiração. Resposta lhe seria até ofensa, ou cansaço pra sua atenção de ouvido. Que primeiro me repetiria nas safadeza que acabo de confessar, que mulher, além do cheiro, é coisa pra saborear. E aí os entretanto são os mesmos mesmíssimos que aqui já lhe coloquei, e não adianta repetir, pois a razão que eu tenho o senhor, ou já sabe de que lhe falo, ou então não vai saber de novo. Das outras saborosidades, também prá lá de muitas, do meu gostar, saboreio com meu lembrar. Tanto é tanto que, no mais das gente que me é dado conhecer, o tal do saborear é sempre coisa de nunca mais, bolos da vó do povo que era criança, laranja que o que era menino roubou no pé, o feijão de uma falecida, coisas que é só de lembrar, num nunca mais dos menino crescido, das avó já se finada, das mortinha de tal, num tempo do hoje passado. Se o pito apagasse as lembranças, aí sim era coisa de considerar. E nem me fale em caminhar, que hoje já me basto sonhado, só olhando prás serras onde já subi. E nem quero subir mais, pois subia por precisão, ou até por diversão, que muito me diverti com o tudo que precisei. E hoje já não preciso mais; e como só tem diversão no fazer da precisão... Pois é. De novo as lembranças, que não tem pito que faça lambança. E teje verso, vai ver o senhor tinha razão ... Não? ... O senhor me entende? ... Lhe reconheço por isso, mas lhe vejo com um olhar coitado que não era minha intenção. Por isso lhe digo já, por seu reconhecimento, o senhor tinha razão. Só errou no com quem quis arrazoar. Se posso lhe aconselhar, antes de que, do que é só meu, o senhor titubeie nas sua própria razão, mude de conversa comigo, vamos prá outro proseio, que estou até lhe fazendo gosto. Mas não deixe sua pregação. Vá falar com os meninos, antes que as lembranças façam nele deles a minha razão. E fale com o Seu Zé, que esse tá muito precisado e, amigo como ele me é, acho que ir-se mais cedo, de todos o maior pecado ... Ele mora logo ali, trás de mim. Vá lá, depois de eu pitar mais um e lhe contar mais montes ... Que bom que o moço entendeu e me deixa pitar com gosto. Se quiser lhe conto os contos lá do Seu Zé, prá, quem sabe, com eles, o senhor mirar melhor o tiro de sua toda razão. Pois ele também, ´ssim como eu, é sujeito cheio de lembranças, mas de muita precisão de tomar tento na sua azarada pitação. Ele é eu, mas com defeito de fabricação. Conversa com ele, que muito lhe ficarei agradecido. Seu Zé tem de parar de fumar. Não quero ver ele se indo na frente do meu olhar. Lhe gosto muito, lá do Zé, desde que consigo me alembrar. Mas capriche na falação, pois se me sentiu tinhoso, Seu Zé é tinhoso e meio. Igual eu, e mais um tanto. Só não lhe pirraceie, que aí o infeliz é capaz de morrer de teimosia, pitando na maior alegria. Não fale de sua razão, fale do coração. Seu Zé tem de parar de fumar. Vá lá, vá! Vá, vá ...
Mas antes de se me sumir, o moço tem por aí um fósforo?
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“Os saudáveis não se analisam a si próprios, sequer se contemplam no espelho. Só nós doentes sabemos algo sobre nós mesmos.” (Italo Svevo, A Consciência de Zeno)



Bar do Frango, entre 27/02 e 08/03 de 2007

3 comentários:

Meire Eloisa disse...

Eu que num dou sorte pra medonha. E assim é o que tem que ser.
Adorei ver a "com ciência" que Zeno tá tomando e deu vontade mostrar a cunversinha da Dora com ele gravada em meus olhos de andar esse mundo: Oi Zé, a gente nessas hora de para de coisa que faz festa pra ela, pula e chama gente boa das valentia que tem que tê, pra mandá ela de fasto. Vevo fazeno isso de pula por cima dela, de sai no forte como me ensino meu tio. Tudo tem que cê no forte das vontade oh Zé! Oi nas valentia de andá pra adiante tem é que andá sem meias cunversa. Aí então no descubri das derrota do pito a gente até já caminhô pra outras coisa de melho pruveito pra não pegá chapeu cedo demais. Pitá é bão igualmente que as otras coisa que nem sabe ainda porque os pito nem deixa. Só com valentia a medonha que tá nos pito vai de vez até que volta nas hora mais certa pra fecha os oficio de viver no tanto certo.
" A gente tem que sair do sertão! Mas só se sai do Sertão é tomando conta dele adentro" Vai Zé, vai de valentia que as vontade dela acha caminho. Eu ajudo a ir pra cima dela cheia das valentia. Você tivesse em mim você tratava de ir ficando nas moderneza de num pitá mais, para ganha corpo e alma sem medo dela. Tô é lembrando aqui do Zé Bebelo num dizer assim: minha palavra dando, minha palavra as mil vezes cumpro - Seja home, enfrenta o Szeno e para de pitá.
Meire

Inês disse...

Qdo eu era criança, lá na minha Manaus, ouvia incessantes vezes a tão conhecida lenda do boto que conta q em noites de festas juninas, tradição do povo da Amazônia, quando as pessoas estão distraidas celebrando, o boto rosado aparece tansformado em um bonito e elegante rapaz, mas sempre usando um chapéu, porque a sua transformação não é completa. O resto da história não vem ao caso no momento.
Citei esse trecho da lenda pq no "Com ciência de Zeno" a transformação entre Zeno e Seu Zé tb não se completa porque um é o revés do outro e ambos precisam do confronto como meio de conhecimento.
Só há uma coisa de muito ruim nesses dois cabras da peste: a pitação.

Zédu disse...

O Zeno me roubou a palavra. É gozado, e pode parecer pretencioso, mas depois da minha experiência escrevendo na voz do Zeno, sinto enorme dificuldade em retomar a palavra. Vivo uma espécie de depressão pós-parto, ou pós-coito, pois se o Zeno pari, foi com muito tesão e gozo. Mas vou tomar tento, me emprestar, quem sabe, à voz do Pipoca, e me reaproximar de meu dizer. Ou não; posso sempre me esforçar para continuar na linha do Zeno, autoral porém menos(?) umbilical. Quem viver verá!