quinta-feira, 16 de abril de 2009

De resto, a verdade que ainda resta em mim

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Vermeer
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Re(a)colhimento

Quando eu te contar a verdade,
não diga nada!
Qualquer boa vontade,
será a vontade errada.
Quando eu te disser a verdade,
cale-se! Apenas ouça!
Palavras de louça,
frases rendadas
feitas de espuma,
enfumaçadas,
letras que escorrem
em areia pelos dedos,
brumas de uma manhã bem cedo.
Quando eu te falar a verdade,
não tenha medo!
Fica comigo no teu ouvido,
me acolha o colo que nunca dei,
me salgue as lágrimas que não chorei,
escuta o dito que não direi
e tudo que sobrar devido.
E me recolha em concha,
na ponta dos teus dedos,
no seio dos teus medos.
E quando a ostra, como é das ostras,
novamente se fechar,
aceite a trouxa ali recolhida,
e me deixe na praia,
no quebra mar,
entre as espumas,
as brumas e o litoral.
Quando eu te obrigar a verdade,
não me queira mal!
E guarde um pouco de mim
em um canto dos olhos teus.
Me leve calada, contida,
no brilho de teu olhar,
a verdade dita,
o fim,
restos do eu.
Quando eu te calar a verdade,
resto e me deixo,
no teu colar!
O resto é seixo,
para Iemanjá.

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4 comentários:

Anônimo disse...

Um dia fizeram ferida em meu peito
e com dor tentei cicatrizá-la.
Tornei-me pérola... da qual nada
sabe a concha.

Therry disse...

Um colo de amor calado e assentido. Uma entrega. Uma dádiva. Uma beleza!
A sua outra poesia agradou aos meu amigos. Um deles perguntou se o poeta era português. Será que é porque acham que os brasileiros não têm capacidade para fazer poesias? E o Drummond? E o Ferreira Gullar? E o Vinícius? E o José Eduardo Teixeira Leite? Não entendi.
Abs,

Zédu disse...

Minha Cara Therry,

Um dia ainda vou ficar chateado com você por manter escondido de mim o teu blog. Mas, enquanto não fico, sinta-se a vontade. Sempre acreditei que as coisas que postamos são pássaros que, depois de postados, pertencem a quem os apanhar.
Grande abraço,

Cristina Ancona Lopez - Tita disse...

Relendo teus poemas, ja que não ha novos, este fez aquela coisa de mexer la dentro, e o corpo sai em revoada sem nem saber de que. Nossa que poema lindo esse. Acho que eu não tinha lido com o cuidado que li hoje.
Tita