terça-feira, 20 de novembro de 2007

Rol da velhice




  • Gravar as músicas do MP3 player em mono por causa do ouvido surdo

  • Não esquecer o Fixodent e, principalmente, os dentes

  • Tentar trocar para o Cialis

  • Tentar trocar para o Levitra

  • Tentar aumentar a dose

  • Fazer de conta que sabedoria dá tesão

  • Não acender a luz sobre a pia do banheiro

  • Adiar a barba pelo espelho

  • Passar o passado bem passado

  • Passear o cachorro

  • Aprender dominó

  • Vagar nas horas vagas bem devagar

  • Operar a catarata "só para se livrar dos óculos"

  • Se apaixonar pelo proctologista

  • Fazer de conta que lembrar é quase a mesma coisa

  • Esquecer, pra e pelo, caralho

  • Não esquecer o Fixodent (ops! errata: não se importar em dizer a mesma coisa mil vezes)

  • Aprender leitura labial

  • Ter vários médicos de estimação

  • Ser paciente

  • Dar os trâmites por findos todos os dias da semana

  • Não lembrar que esqueceu

  • ?
No Frango, onde Luizão sempre me lembra quantas bebi

Conjugado imperfeito

Sou poeta, não sei amar,
como se devesse.
Sou poeta, não sei fingir
como se mentisse
Passo horas a escrevinhar,
como se adiantasse.
Nas outras vivo a fugir,
como se pudesse.
Mas, insisto, sou poeta
que das letras ama o jogar
e pela minha janela aberta
Recolho palavras a voar.
E brinco de prosa e verso,
como se soubesse.
Encanto Evas e serpentes
como se precisasse
Sou poeta, rezo meu terço
como se confessasse.
E seri poeta até ser gente,
Como se ousasse

Cadeira de Gaugain, por Van gogh

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Ela e eu



Te ter assim,
nessa ilusão
de querer sempre mais,
me faz em esperas.
.
Querer-te assim,
nesse imenso tão
de um bastar jamais,
te faz quimera.

Eu e ela, 19 de novembro de 2007, entre torpedos e frangos

domingo, 18 de novembro de 2007

Foi um Rio que passou na minha vida?








.
.
Eu fui ao Rio,
e o Rio não me viu.

domingo, 4 de novembro de 2007

Canto de barros



Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.



O dia vai morrer aberto em mim.

Desenho e poema: Manoel de Barros

Do Livro do Dessassossego

Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança.. Mas porque deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não podia viver senão acarinhado, por que me deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevinido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mão que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscado no estofo sensível do meu coração.


Bernardo Soares (Fernando Pessoa), Livro do Dessassossego

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Novembro, o mês em que o ano acabou



Bem dita tarefa cumprida