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sábado, 20 de junho de 2009

Colar de Pérolas

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Pretérito Presente
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Era uma vez uma menina,
pérola assim meio escondida,
fechada em concha, cumprindo sina,
vivia no escuro, meio sem vida.
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Poeira de sua própria ostra,
doente de passadas mágoas,
sorria falsa, mulher à mostra,
trancada em si, imersa em águas.
.
Um dia um menino a colhe,
ostra trancada, proibida jóia.
E nele, dela, ele escolhe.
.
Apanha a pérola, devolve a ostra,
que, então, sem ela, nas ondas bóia.
Nele a menina, ao mar a crosta.
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Pérola a mostra, menino amante.
Mulher exposta, homem o bastante.
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E assim supino, meio que de repente,
viraram meninos, e foram para sempre.
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Pretérito presente!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

De resto, a verdade que ainda resta em mim

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Vermeer
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Re(a)colhimento

Quando eu te contar a verdade,
não diga nada!
Qualquer boa vontade,
será a vontade errada.
Quando eu te disser a verdade,
cale-se! Apenas ouça!
Palavras de louça,
frases rendadas
feitas de espuma,
enfumaçadas,
letras que escorrem
em areia pelos dedos,
brumas de uma manhã bem cedo.
Quando eu te falar a verdade,
não tenha medo!
Fica comigo no teu ouvido,
me acolha o colo que nunca dei,
me salgue as lágrimas que não chorei,
escuta o dito que não direi
e tudo que sobrar devido.
E me recolha em concha,
na ponta dos teus dedos,
no seio dos teus medos.
E quando a ostra, como é das ostras,
novamente se fechar,
aceite a trouxa ali recolhida,
e me deixe na praia,
no quebra mar,
entre as espumas,
as brumas e o litoral.
Quando eu te obrigar a verdade,
não me queira mal!
E guarde um pouco de mim
em um canto dos olhos teus.
Me leve calada, contida,
no brilho de teu olhar,
a verdade dita,
o fim,
restos do eu.
Quando eu te calar a verdade,
resto e me deixo,
no teu colar!
O resto é seixo,
para Iemanjá.

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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Idos de um maio antigo nº 2

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Magritte
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Entradas e Bandeiras
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I
Bendita a falta do grão de areia
que ao impedir da concha a doente pérola
me permite saber, da enrugada ostra,
o sumo d´elas e o sabor das carnes.
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E com a droga de vida tomada na veia,
na boca o gosto de minhas carambolas,
em nau fragata, de velas postas,
parto no agora que antes foi tarde.
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II
Nos frágeis fios de uma teia troncha
escolho os cacos de meu ser amante.
Esqueço a pérola, retenho a concha,
e vou, ao avesso, garimpar diamantes.

Pescador não sou, sou bandeirantes.
Volto ao começo, caio na estrada.
No passado deixo o que me é distante,
e vou caçar futuros em novas entradas.
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III
E seguirei adiante, sem Tordesilhas,
um pouco infante, bárbaro um tanto.
Descobrirei princesas e impassíveis ilhas,
quase esmeraldas, falsos encantos..
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E nessas entradas de Compostela,
mato nos índios, neles me lanço
na busca fútil de uma tal costela,
falta passada, inarredável ranço.

IV
Fernão Bueno Dias de Anhanguera,
buscarei um só nesses outros tantos.
Às margens do Rio, descansarei das guerras,
enganarei indígenas, mágico e santo.

Dentro das muralhas onde serei inscrito,
espalharei sementes pela terra irada.
Colherei os frutos de meu suor maldito,
Bornel, bandeiras, outras entradas.

V
E parto, e chego, e torno a partir.
Não resto nunca, alucinado sigo
Construo rastros, planto o por vir
Capitão do mato, raso comigo
.
Mas quando um dia, ao final chegado,
retomarei das pedras o precioso grão.
Doido alquimista, me inventarei achado,
e me plantarei cumprido no descoberto chão..

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Bar do Frango, 12 de maioo de 2007
Publicado em maio de 2007
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Idos de um maio antigo nº 1

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Salvador Dali, Narciso
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A Ópera do Fantasma
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A imagem é porta que barra e vela
o nada haver por detrás do espelho.
A moldura enquadra a aquarela,
suporta o fantasma que nos faz selo.
,
O Real, miasma, nada se importa.
Insignificância sem remédio ou letra
no espelho, sempre, por detrás da porta,
remenda, costura e nos provoca a treta.
,
A esse mistério o espelho nos remete
à sombra parca do que já não resta.
Mas Narciso insiste e se derrete
O fantasma persiste e faz a festa.
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domingo, 29 de março de 2009

Crisma!

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O que me encanta é a magia,
Que resiste ao nada que a sustenta
O que me seduz é a beleza,
Que resiste às carnes corroídas
O me diz é o carinho
Que resiste à ausência que se impõe ao toque.
.
O que sei é o que me sinto,
Belo, encantado, acolhido
Como a pérola da qual nada sabe a concha
Me resguardo em quem não me sabe.
Escondido, escandido, nada para nenhum olhar
.
Até que um pescador me colha e me revele,
Outra pérola em busca de uma menina
Que me fixe enfeite, enfeitiçada,
E me retorne ao nada donde parti.

.
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Para ser lido, e olhado, escutando Bizet, Les Peucheurs des Perles, de preferência cantado por Alain Vanzo
Publicado pela primeira vez em algum momento do início de 2007

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sexta-feira, 27 de março de 2009

Cada vez mais...Silêncio


Fazer do blog art´manha e ofício
Desaperceber dos amigos as ausências
Desligar de todos a pouca presença
E soltar o verbo, as letras e os vícios.
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Se colocar à chuva e receber seus pingos
E o sopro dos ventos e o bater das tempestades
E lavrar silêncios e as poucas maldades
Para dançar com Zorba, sempre aos domingos
.
Valer as penas que ali me inscrevem
Dar tempo aos pensos que lá me curam
Esquecer visitas e os que não procuram
Ser sempre só, mesmo que neguem.
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Nos grãos de areia enxergar desertos
Abandonar o litoral apagando rastros
E fazer da escrita meus próprios traços
Para bem cá de longe, me olhar de(s) perto.
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.Bar do Frango, em algum momento de abril de 2007
Publicado originalmente em abril de 2007

quarta-feira, 25 de março de 2009

Coxas de andorinha (Carne a dentro)

..
.
.
Do Frango às coxas,

destas às moças,
uma história tonta
que aqui se conta.
Mas verá o leitor
que no fim de tudo,
resta um amor
obrigado mudo.
..
.
Vou abandonar o Frango
pelas coxinhas.
Espero que, lá, o rango,
quero dizer, galinhas,
se demonstrem mais dignas
desta troca ousada,
e me espetem insígnias
pela decisão tomada.
Abandono os machos,
frangos, frangotes,
para me gastar no escracho
dos meus velhos botes.
Quero coxas, coxões e sobrecoxas,
para fazer valer, enfim,
esta coisa roxa
que cacareja em mim.
Adeus Frango querido,
benvinda Coxinha minha!
Salve, salve, minha outra vida,
reapareço, desaparecido!
logo ali, numa outra esquina,
da sempre mesma pracinha.
Ali beberei as cevas que acolá eu tinha,
esquecerei os machos que por lá dormiam,
e far-te-ei Pasárgada, Coxinha minha,
ao encontrar as frangas que me comiam.
Do Frango a ti, será que errei?
Mas se és Pasárgada,
lá sou amigo do rei,
que mulheres me guarda,
e escolherei.
Delirante em ato,
só por escolha,
evito o farto, e o fato
de que esta outra bolha,
é fogo fátuo
de meu desejo errante.
Mas sigo adiante,
para além do Frango
uma Coxinha me espera.
Cansei do tango,
viva a quimera!
E do Frango às coxas,
e da suposta ousadia,
resto sem dança,
fico sem moças,
me agarro à lembrança
da anatomopatologia.
E por aqui eu resto e fico,
índio na oca,
com o dela Tico,
meu São Pipoca.
E só falta um nada
para ser Seu Zé
e retomar minha trilha;
é o Zé Mané
e a Sacra Família.


Dedicado à Gilza, que espero não ter perdido em vão
Publicado originalmente em maio de 2007

sexta-feira, 6 de março de 2009

Os primeiros ai ais.


Ai ais

1

Foi tudo que eu sempre quis
Fazer valer a-penas
O que de mim se diz

2

Prestar a tensão em mim
é dito que quisera feito
até o fim.

3

Certos lugares têm
a capacidade de nos fazer felizes
com qualquer bem.

4

Ela não é nada
Pouca presença, resto de tudo
Sem lugar na cama, criado mudo

5

Deus te guarde e console
Que a vida, meu rapaz,

Eu e eu (Delireu)

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De antemão explico, para que não reste nenhuma dúvida, que não sou ele, mas ele é eu. Deu para entender? Se deu, deu; se não deu fica assim mesmo, que mais que isso não sabe ele, nem eu. Coisa assim mesmo, meio impossível, como acostumei a conviver nestes tempos dele e eu, no indecidível de nós dois nem um.
Esse blog, por exemplo, é coisa dele, mas tudo aqui é meu. E o que não é meu, pior ainda, é puro eu, coisas dele quando lhe faço meu. Já dele não sou, pois ele é eu e não me sou meu. Complicou mais ainda? Ele sente muito, mas assim sou eu, cheio dessas reviravoltas, cambalhotas e carambolas. Passo com a banda, não vejo passar. Sou a mais dele e nele me falto até me esbaldar. A escrita, por outro mesmo lado: os traços são dele, mas nela lhe traço, pois o traço é eu. E lhe traço o eu lá dele, mas sendo eu, desde os começos quando ele apareceu, num estalo precipitado quando pensou ser eu. Desde então ele me supõe, um eu lá dele, que não sou eu, que me imponho a ele e o faço meu. Coisa que muitos outros eus acabam não conseguindo, e somem nas sombras dos eles deles, que viram do Outro, que não é Eu. Cansativo, não é mesmo? Daí que a maioria fica na mansidão do terror do Outro, que só assusta lá as negas dele, grama-ticando o eu no bom comportamento da pouca linguagem, no eu retórico que não sou eu nem ele, lisonja de um bem dizer que não nos diz nem nada. Graças a eu, não é o caso dele. Até que ele tenta assossegar-se nos Outros que os outros lhe emprestam, mas sou mais eu, e remonto o furo desses Outros dos outros do eu, deles, distante. Pois furo é furo, tudo igual. Desmonto, demonstro, e lhe imponho meu, again and again, olho no olho, eye no I, as you can say. Coisa de doido, é o que pensam muitos, os do Outro, que não sou eu. Mas vamos levando, sempre a bailar, pois se parar o Outro pega, se correr lhe come o Outro, coisa dos outros doidos, pois todos são. Ele e os outros, cada qual com a sua doideira. Sem contar os doidos doidos, os eus sem eles, ou eles sem nem sombra de eu. E vamos, deslizando sempre, mas muito bem acompanhados. Cheio d´eus famosos, é só saber olhar. Oscar Wilde, Foucault, Genet, Mishima, nenhum doidão, apesar de doidões também ter vários, inclusive esses próprios, de vez em quando. Pega o Van Gogh, o Bispo do Rosário, e tantos outros mais, que muito sofreram nessa de eu meio sem ele pra botar no mundo do Outro, rei da linguagem, mãe de todos e dono da bola do jogo que temos de jogar se não queremos perder orelhas ou acabar na Juliano Moreira. Sem contar os tantos outros pares impossíveis de ele e eu, como ele e eu, que deslizam anônimos provocando eles lá na linguagem do Outro deles. Porque, que fique aqui bem dito, eles, os outros, são todos iguais. Já eu e ele somos só eu e ele, mesmo quando me finjo nele no mundo deles. Daí não termos par, nem paz, apesar de vivermos tentando cumplicidades que nunca duram, dada nossa diferença. Mas, me entenda, nós não somos diferentes deles, já que diferentes todos se supõem, e são num assim dizer. Nós somos, ele e eu, pura diferença, o que é completamente diferente. Pois eu sou eu, ele é ele, ele é d´eu, e eu sou traço, troço, que lhe marca meu. O que eu quero com tudo isso? Não sou de mais querer, que isso é coisa dele, já que meu querer é ele, e ele é d´eu. Onde isso nos leva? Não sou de chegar, sou puro de vagar de porto a porta, e vice versa que nunca é só ao contrário, de lá para acolá, que cá sempre já era, como o rio que passa e insisto, eu mesmo, em ver igual. Pura metonímia, sacou? Tava procurando metáfora? Ele sente muito, e eu lhe aconselho: tente no shopping, tá cheio delas, algumas até bem engraçadinhas. Aliás, nada contra as metáforas, das quais abuso na boca dele, que o jogo é esse e o sucesso é uma delícia. Prá bem dizer, adoro uma metáfora, mas só para escorregar depressinha prá outra. Metaforonímico, como dizem eles por detrás dos eus lá deles. Eu vou ficando, que na escrita é onde mais me arrisco, pois só na busca inútil existo e aqui me fixo, meu horror confesso. Mas ele estará por aí, onde eu o arrastar. Pois agora vocês sabem: lá onde ele está, quem manda é eu, pois eu não sou ele, mas ele é eu. Nunca se engane, por trás daquele olhar lá dele, me encontro eu. E muito cuidado, pois eu sou foda, mas quem fode é ele (e se fode muito, pois ele é meu e eu, já disse, sou pura foda de se meteu). Pois vai daí que você gama n´eu, e tem que viver com ele? Se quer um lago, eu passo ao largo, se quer um rio, sorrio. Mas quem manda é eu. Entendeu? O resto é conversa de Prometeu mas não cumpriu. Puta que pariu, ele sumiu! E eu? Fodeu!
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quarta-feira, 4 de março de 2009

O aparecimento da aranha alucinada (que ainda nem se sabia)

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Eumateia
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O que, dela, não perdôo nela,
É ter deixado, em mim, essa idéia
De que para além da vida, há uma janela.
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O que nela, dela, ainda não perdôo
É ter mostrado que para minha aldeia
Há um caminho árduo ou um simples vôo.
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O que não consigo acomodar em mim,
No que dela inda trago nas veias,
É a certeza impune de um meu triste fim.
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E temo varandas, sacadas e todas as janelas,
E me sinto aflito a me debater na teia
Onde me espreita a aranha que ainda é dela.
;
Mas na teia apreendo, teço e terço,
O que de mim é tudo e dela é meia,
E da prisão infame me livro em versos.
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Da cruz me dispo, braços me acolhem
Minhas Marias e um José de Arimatéia.
E pela janela, aberta, dos insetos, me faço pólen.
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Bar do Frango, 18 de abril de 2007

Postado em 18 de abril de 2007




A persistência da memória

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Web Tide
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Navego em ondas sem fim
por mares ainda mais imensos,
sem porto que me caia à vista
em um triste navegar.
Pois não têm de ter fim as ondas?
Não há que se desmanchar em´spumas?
Fazer rir crianças quando, aquietadas,
lambem areias?
Não é das ondas arrepiar os corpos
no encontro frio com as águas que nelas ondulam?
Serem mansas, bravias, e sempre outras?
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Onde as conchas que minhas ondas não desvelam?
Onde o barulho, se nunca se quebram?
A fúria, se não desmontam ruidosas?
O sabor, se não lambem areias?
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Que ondas são essas, essas ondas minhas?
Que mar é esse que me navega?
Onde as crianças, as mães aflitas e os grãos de areia?
Onde meu povo, meu litoral?
As oferendas, onde estão?
As flores, as palmas as velas e os organdis?
Onde minha arrebentação?
Onde os nomes, as juras e as pegadas
Que em lambê-las, apagaria em traços?
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No entanto são essas essas ondas minhas
Ondas desertas de espuma
Sem saber a sal ou mares
Sem praias para morrer
Sem areias para lavar os rastros.
Sem litoral, erram neste mar que mar não é
Saem de mim, fogem de mim, vou sempre com elas
Nelas me perco na rede de suas marés
De solidões povoadas, escolhos, naufrágos e míticas sereias.
.
Pois são assim, essas ondas minhas.

Bar do Frango, 07 de fevereiro de 2007
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Postado no dia 03 de abril de 2007

domingo, 1 de março de 2009

A primeira poesia a gente nunca esquece

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De Profundis (para O.W.)

Nada como Pessoa, navegado qual Paulinho,
Faço do blog odisséia de onde retornarei.
Se ainda a tortos caminhos,
Ao chegar me saberei.

Nas teias com que me tecem,
Nas sereias que enlouquecem,
No umbigo em escravidão,
Espero, que finda a jornada
Aqui já não reste nada,
Nem sonho, nem assombração.

Se hoje sou quase morto,
Se vivo, me erro torto,
Navego para um litoral
E blogo com todas as velas,
Pintando, em quase aquarelas,
Com tintas que sabem sal.

Nas areias que chegarei,
Não quero sexta, nem feira.
Retrato de Dorian Gray,
Em cinza, para não ser bandeira.

No meio de todos ausente,
Nas grades não verei prisão,
Que a verdade a gente mente
Pra, do eu, prestar a-tensão

De mim mesmo serei alcaide,
De meus desejos não saberei.
De Profundis, Oscar Wilde!
Salomé, viva meu rei!


C´Oração

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Ave Marias de todas as raças
Mistérios, gozares, desgraças
Bendita sois vós, em mim demente
Desvarios, de'lírios, serpentes
Infinito desvio de meu não saber

Bendita sois vós, tod'as mulheres
Desrazão benvinda de meus bem quereres
Perdição infinda onde me erro ermo
Sentido pleno de meus mancos termos
Cruzes de meu mais phoder

Bendita a fruta de vosso ventre
Que tomo com bocas, línguas e dentes
E mais narizes, dedos e pobre caralho
E molho nas gotas de teu orvalho
A flor de meu convosco ser.

Bar do Frango, 01 de março de 2007
Publicado no blog no dia 01 de março de 2007

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pós Carnavalesca



Harlequim, Cezane

Se acaso você chegasse
(Lupicínio Rodrigues, música)
,
.
Se acaso você chegasse
e no meu chapéu encontrasse
aquela pomba que, um dia,
dali voou.
.Será que tinha coragem,
de perdoar a minha bobagem,
em nome daquilo
que de mim restou?
.
Eu falo porque essa pomba,
já gira no meu cansaço
a beira de um fracasso
e de um eu em dor.
De noite me faz medonho,
de dia me apaga os sonhos,
e assim,
nós vamos vivendo
de horror.
.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Cicatriz

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Dela tomei o gesto e o gosto torpe,
a tempestade e o sangue,
o grito surdo, a palavra muda,
o terror e o vulcão voraz
a infinita surpresa atônita

Nela, sorri felina verdade,
amargo encontro desencontrado,
o olhar negado, o recolhido gesto,
um antes acabado
em sabor de resto
e o oferecido pulso, cicatrizado.

Dela tomei a seiva rubra
escorrida, coagulada
e o colar sem pérolas,
tatuagem riscada;
a corda, o quase, e o talvez falhado.
Inconfidência enforcada,
vergonha, nudez, nada.

Dela inventei um gosto
roto,
de boca não beijada,
de solitário arrepio de um abraço
nunca dado;
a dor, o amor e o fracassado

Nela, restei e vi
a desistência,
e desisti de repetir
o acordar maldito,
o terror não escrito,
os pontos cegos.
E aprendi estranho Isso
que nela ouvi.

E nela, fiz-me
novamente again
pela primeira vez.
Insistência atenta,
tateares tontos,
bêbados passos,
precários equilibrares,
equivocado no oco
louco
que nela vi.

Por ela um eu passou-me
e fez-se pra trás, distante
deste outro mesmo agora diferente,
que o, dela, instante,
equilibra abismos,
e vive muito bem
dela pra frente.

Dela, guardo meu presente
e sou, eternamente,
do gesto heróico,
bardo redundante.

Por ela, sigo adiante.

E ela nela restou.
E dela só ela sabe o sabor
desta história dela
que em nós queimou.

Nela, aposto um risco
que, valendo-me a pena
será, dela, nosso petisco.

E, por ela, me arrisco!


Um dia qualquer do último setembro do último ano do século passado
Postado no final de fevereiro de 2007

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Primeiras letras

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Profunda idade

Nada como Pessoa, navegado qual Paulinho,
Faço do blog odisséia de onde retornarei.
Se ainda a tortos caminhos,
Ao se chegar me saberei.

Nas teias com que me tecem,
Nas sereias que enlouquecem,
No umbigo em escravidão,
Espero, que finda a jornada
Aqui já não reste nada,
Nem sonho, nem assombração.

Se hoje sou quase morto,
Se vivo, me erro torto,
Navego para um litoral
E blogo com todas as velas,
Pintando, em quase aquarelas,
Com tintas que sabem sal.

Nas areias que chegarei,
Não quero sexta, nem feira.
Retrato de Dorian Gray,
Em cinza, para não ser bandeira.

No meio de todos ausente,
Nas grades não verei prisão,
Que a verdade a gente mente
Pra, do eu, prestar a-tensão

De mim mesmo serei alcaide,
De meus desejos não saberei.
De Profundis, Oscar Wilde!
Salomé, viva meu rei!
.
Bar do Frango, 14 de fevereiro de 2007

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Releituras



O Farol dos Olhos Teus

Na ilha onde me habito,

frequentam as gaivotas.
E trazem, presas aos bicos,
ao invés de folhas de louro,
mensagens, pequenas notas,
preciosos grãos de ouro.

Notícias do mar além,
onde em terras distantes
residem meus todos bens.
Bússolas de norte constante,
consolos deste ser errante,
avalistas de meu ser alguém.

E, nestes esperados instantes,
que me trazem as gaivotas,
ouço músicas, nunca o bastante,
fugas, prelúdios, gavotas,
doçuras para meus ouvidos,
alívio para um meu castigo.

Que aqui naufraguei por besteira,
pensando em uma vida nova.
Mas sem um meu sexta-feira,
escrevo essas poucas notas,
pobres versos em tom de trova,
que devolvo às gaivotas.

E assim, do Frango à Praça,
vou habitando esta ilha,
errando pelo rés da praia,
prisioneiro, meio sem graça,
desta imaginária Tordesilhas,
aguardando que o dia raia.

No movimento dos barcos,
da janela de meu quarto,
espio por detrás da porta,
ali onde Inês era morta,
onde sonho novo momento,
eu, ela, e todo o sentimento.

Invento um cais,
e quero mais.


.

sábado, 6 de setembro de 2008

Contagem regressiva: -2 (Meu presente aniversário)



Pela primeira vez neste século
ninguém convidará meus amigos,
encherá balões coloridos,
escolherá o bolo do aniversariante.
Nem enfeitará as mesas
de um improvável Azeitona,
que se tranformava no seu ser radiante.
Ninguém fará a feijoada impossível,
de fogão inaugurado só para meu ser feliz.
Ninguém enfeitará o gramado,
com mesas de bem querer.
Ninguém convidará Francisquinho,
Eliza, Fernando,
e meu doce Miguel Arcanjo.
Ninguém me dará a risada da Anna,
a alegria do Jorge,
Marco Aurélio, pai de mesa e cama,
e a brisa de minha sacra família
e a vista a perder de vista.
Sem Christininha de Moraes,
sempre muito mais Gurjão,
Azeitona, Severo, Toninho,
Olavo que não há mais,
todos meninos do velho bar que morava em meu coração.
Ninguém me dará uma festa,
surpresa que eu sempre dizia besta.
Com ninguém teimarei nada querer,
não farei de conta um desejo de ficar só,
manha bobinha da criança que sempre quis dó.

Estarei só.
De todos vocês.
Estarei só
de quem, sempre, tudo isso fez.
Só!
Sem Gilza.
De vez.

Meu aniversário morreu.
Sobrei eu.
E os anos que insistem em passar,
até eu mandar parar.

postado em 06 de setembro de 2007

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Contagem regressiva: -3



De linda menina do Rio,
a musa do canhestro Frango,
jamais uma decadência.
Antes, a prova, a sangue frio,
que seja qual for o marmanjo,
teu charme é uma indecência.

Uma fêmea em tom maior,
uma beleza daquelas raras;
além de meus olhos de amor
e todas as minhas taras.

Pois seja, minha menina,
em todo teu resplendor,
mulher em minha retina,
sonho onde morro de amor.

Bar do Frango, 05 de setembro de 2007

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Contagem regressiva: -4 (Odisséia do mero eu)























Se desse seu navegar a toa
Acabei virando porto,
É melhor esclarecer, numa boa,
Pra que nada nos reste torto.

Que você esteja atento
Nessa minha parca odisséia,
Aos versos soltos ao vento
e minha toda prosopopéia.

Não falo aqui de sereias,
Que coragem não tive tanto,
De me amarrar com correias
Para delas escutar o encanto.

Nem conto de outros monstros,
Nem de lutas c´outras gentes.
Pois se Homero me assopra o ponto,
Meu grego é bem diferente.

Não lerá sobre ilhas mágicas,
Nem de como carambolei ciclopes.
Mas, de tudo a coisa mais trágica,
É Penelope, que perdi em duro golpe.

Odisséia, apesar e mesmo assim,
Aqui canto um quase nada
Da história de como sarei de mim
E toquei minha jornada.

Pois se grega foi a tragédia
Onde tudo começou,
Aqui, sem ser jamais comédia,
Do drama pouco restou.

Mas você tem que querer
Ler o blog de cabo a rabo,
Sendo o cabo o seu nascer
E o rabo o que aqui não acabo.

Pois quando, vindo lá do começo,
Aqui você retornar,
A menos de algum tropeço,
Mais viagem há de encontrar.

Por isso, lhe peço, atente,
Para o ritmo da falação.
E sabendo que sou só gente,
Há de costurar a questão.

Fique então, pois, avisado,
Se aqui acabou de chegar,
Que meus versos ficam pelados
Se ao começo não se emendar.

Mas confesso, sem vergonha,
Que preferia esses versos cantar
Para uma cabeça na fronha,
Para a mulher de meu deitar.

Assim, se souber de alguma
Que se encante com tanto querer,
Me aponte, me mostre a uma
Que vai comigo a-mor-te-cer.

E, depois de tão confessado,
Lhe deixo com sua vontade,
E lembro que preguiça é pecado
Que faz da vida metade.

Mas se você não está contente
Com esse meu cordel encarnado,
Não se avexe, siga em frente,
Meu prazer já está postado.

postado no 04 de setembro de 2007