Nada como Pessoa, navegado qual Paulinho, Faço do blog odisséia de onde retornarei. Se ainda a tortos caminhos, Ao chegar me saberei.
Nas teias com que me tecem, Nas sereias que enlouquecem, No umbigo em escravidão, Espero, que finda a jornada Aqui já não reste nada, Nem sonho, nem assombração.
Se hoje sou quase morto, Se vivo, me erro torto, Navego para um litoral E blogo com todas as velas, Pintando, em quase aquarelas, Com tintas que sabem sal.
Nas areias que chegarei, Não quero sexta, nem feira. Retrato de Dorian Gray,
Em cinza, para não ser bandeira.
No meio de todos ausente, Nas grades não verei prisão, Que a verdade a gente mente Pra, do eu, prestar a-tensão
De mim mesmo serei alcaide, De meus desejos não saberei. De Profundis, Oscar Wilde! Salomé, viva meu rei!
Ave Marias de todas as raças Mistérios, gozares, desgraças Bendita sois vós, em mim demente Desvarios, de'lírios, serpentes Infinito desvio de meu não saber
Bendita sois vós, tod'as mulheres Desrazão benvinda de meus bem quereres Perdição infinda onde me erro ermo Sentido pleno de meus mancos termos Cruzes de meu mais phoder
Bendita a fruta de vosso ventre Que tomo com bocas, línguas e dentes E mais narizes, dedos e pobre caralho E molho nas gotas de teu orvalho A flor de meu convosco ser.
Se acaso você chegasse e no meu chapéu encontrasse aquela pomba que, um dia, dali voou. .Será que tinha coragem, de perdoar a minha bobagem, em nome daquilo que de mim restou? . Eu falo porque essa pomba, já gira no meu cansaço a beira de um fracasso e de um eu em dor. De noite me faz medonho, de dia me apaga os sonhos, e assim, nós vamos vivendo de horror. .
A morte me jogou para a vida A vida me tornou ao contrário E a morte permaneceu ferida Sangrando nos aniversários. . Destes dois anos aqui passados Só não passa a lembrança dela Mas, hoje, de madrugada acordado Uma lua me antepara a janela..
E me espanta, invade, é cheia Ilumina, impede e me convida Para uma vida pra além da teia . Onde a morte reste dormida E a lua seja sempre candeia Por todo o resto de minha vida. .
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Em memória de Gilza 30 de outubro de 1950/12 de dezembro de 2006
Adiante o relógio, pule uma hora, Declare o seu horário de verão. Às vezes adianta, outras vezes não. Desculpe a paz que foi-se embora, As marcas deixadas que já chorei, O lápis, o ferro em brasa O inverso, nas marcas, do que na vida Os poucos versos Qualquer coisa devida O resto intragável A aposta perdida E o amigo impossível Que nunca serei. .
Nos ocos de meu vazio Entre margens que lá não existem Corre um também impossível rio.
Às vezes faz litoral, Outras, profundo interior. Em ambos, navego mal.
Por eles atravessado Em corte de dois sem sutura Neles me sou naufragado.
Entre doces e travessuras Nas abóboras sempre assombrado Meus rios, minha aventura. . E esse rios que correm sem mim Cavando o barro das margens Lambendo, da praia, as areias Conformam o vazio que me nomeia O centro de minhas miragens E o buraco que brilha no fim.
E onde sou, não navego Onde não sou, navegado Às margens, Édipo cego De mim mesmo exilado.
O que me encanta é a magia, Que resiste ao nada que a sustenta O que me seduz é a beleza, Que resiste às carnes corroídas O me diz é o carinho Que resiste à ausência que se impõe ao toque. .
O que sei é o que me sinto, Belo, encantado, acolhido Como a pérola da qual nada sabe a concha Me resguardo em quem não me sabe. Escondido, escandido, nada para nenhum olhar .
Até que um pescador me colha e me revele, Outra pérola em busca de uma menina Que me fixe enfeite, enfeitiçada, E me retorne ao nada donde parti. . .
Para ser lido, e olhado, escutando Bizet, Les Peucheurs des Perles, de preferência cantado por Alain Vanzo