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sexta-feira, 6 de março de 2009

Eu e eu (Delireu)

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De antemão explico, para que não reste nenhuma dúvida, que não sou ele, mas ele é eu. Deu para entender? Se deu, deu; se não deu fica assim mesmo, que mais que isso não sabe ele, nem eu. Coisa assim mesmo, meio impossível, como acostumei a conviver nestes tempos dele e eu, no indecidível de nós dois nem um.
Esse blog, por exemplo, é coisa dele, mas tudo aqui é meu. E o que não é meu, pior ainda, é puro eu, coisas dele quando lhe faço meu. Já dele não sou, pois ele é eu e não me sou meu. Complicou mais ainda? Ele sente muito, mas assim sou eu, cheio dessas reviravoltas, cambalhotas e carambolas. Passo com a banda, não vejo passar. Sou a mais dele e nele me falto até me esbaldar. A escrita, por outro mesmo lado: os traços são dele, mas nela lhe traço, pois o traço é eu. E lhe traço o eu lá dele, mas sendo eu, desde os começos quando ele apareceu, num estalo precipitado quando pensou ser eu. Desde então ele me supõe, um eu lá dele, que não sou eu, que me imponho a ele e o faço meu. Coisa que muitos outros eus acabam não conseguindo, e somem nas sombras dos eles deles, que viram do Outro, que não é Eu. Cansativo, não é mesmo? Daí que a maioria fica na mansidão do terror do Outro, que só assusta lá as negas dele, grama-ticando o eu no bom comportamento da pouca linguagem, no eu retórico que não sou eu nem ele, lisonja de um bem dizer que não nos diz nem nada. Graças a eu, não é o caso dele. Até que ele tenta assossegar-se nos Outros que os outros lhe emprestam, mas sou mais eu, e remonto o furo desses Outros dos outros do eu, deles, distante. Pois furo é furo, tudo igual. Desmonto, demonstro, e lhe imponho meu, again and again, olho no olho, eye no I, as you can say. Coisa de doido, é o que pensam muitos, os do Outro, que não sou eu. Mas vamos levando, sempre a bailar, pois se parar o Outro pega, se correr lhe come o Outro, coisa dos outros doidos, pois todos são. Ele e os outros, cada qual com a sua doideira. Sem contar os doidos doidos, os eus sem eles, ou eles sem nem sombra de eu. E vamos, deslizando sempre, mas muito bem acompanhados. Cheio d´eus famosos, é só saber olhar. Oscar Wilde, Foucault, Genet, Mishima, nenhum doidão, apesar de doidões também ter vários, inclusive esses próprios, de vez em quando. Pega o Van Gogh, o Bispo do Rosário, e tantos outros mais, que muito sofreram nessa de eu meio sem ele pra botar no mundo do Outro, rei da linguagem, mãe de todos e dono da bola do jogo que temos de jogar se não queremos perder orelhas ou acabar na Juliano Moreira. Sem contar os tantos outros pares impossíveis de ele e eu, como ele e eu, que deslizam anônimos provocando eles lá na linguagem do Outro deles. Porque, que fique aqui bem dito, eles, os outros, são todos iguais. Já eu e ele somos só eu e ele, mesmo quando me finjo nele no mundo deles. Daí não termos par, nem paz, apesar de vivermos tentando cumplicidades que nunca duram, dada nossa diferença. Mas, me entenda, nós não somos diferentes deles, já que diferentes todos se supõem, e são num assim dizer. Nós somos, ele e eu, pura diferença, o que é completamente diferente. Pois eu sou eu, ele é ele, ele é d´eu, e eu sou traço, troço, que lhe marca meu. O que eu quero com tudo isso? Não sou de mais querer, que isso é coisa dele, já que meu querer é ele, e ele é d´eu. Onde isso nos leva? Não sou de chegar, sou puro de vagar de porto a porta, e vice versa que nunca é só ao contrário, de lá para acolá, que cá sempre já era, como o rio que passa e insisto, eu mesmo, em ver igual. Pura metonímia, sacou? Tava procurando metáfora? Ele sente muito, e eu lhe aconselho: tente no shopping, tá cheio delas, algumas até bem engraçadinhas. Aliás, nada contra as metáforas, das quais abuso na boca dele, que o jogo é esse e o sucesso é uma delícia. Prá bem dizer, adoro uma metáfora, mas só para escorregar depressinha prá outra. Metaforonímico, como dizem eles por detrás dos eus lá deles. Eu vou ficando, que na escrita é onde mais me arrisco, pois só na busca inútil existo e aqui me fixo, meu horror confesso. Mas ele estará por aí, onde eu o arrastar. Pois agora vocês sabem: lá onde ele está, quem manda é eu, pois eu não sou ele, mas ele é eu. Nunca se engane, por trás daquele olhar lá dele, me encontro eu. E muito cuidado, pois eu sou foda, mas quem fode é ele (e se fode muito, pois ele é meu e eu, já disse, sou pura foda de se meteu). Pois vai daí que você gama n´eu, e tem que viver com ele? Se quer um lago, eu passo ao largo, se quer um rio, sorrio. Mas quem manda é eu. Entendeu? O resto é conversa de Prometeu mas não cumpriu. Puta que pariu, ele sumiu! E eu? Fodeu!
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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Pirata de Pindamonhangaba


Nem sei se vocês repararam, mas comecei a postar os vídeos a partir do YouTube. Ou seja, invento os filminhos como sempre fiz, alguns bonitinhos, outros devendo em imaginação, paciência e técnica, e faço o upload dos mesmos no YouTube antes de colá-los à postagem que me interessa. E faço isso por duas razões principais: a) é mais rápido o processo de upload no YouTube do que por aqui no blogger; e, b) o YouTube virou outro lugar onde zedupoca exerce o exibido que lhe é natural (e onde, alvíssaras, até homens me comentam).
Mas, como venho descobrindo, lá os "donos das músicas" são muito mais atentos, e chatos. E a pirataria, às vezes, é punida e proibida. Como aconteceu com um vídeo que postei aqui nos tempos em que o aqui vinha primeiro. A música era What´s New com Billie Holliday (antes só os donos da Elis ou do Tom, nunca vou saber, haviam me proibido de colocar o Soneto da Separação como eu havia feito em casa). Pois é, meses depois a coisa foi vetada por lá, os donos dos direitos me proibiram de veicular o filminho com a música deles. Me pegaram de surpresa, pirata denunciado, bucaneiro de calças na mão. E lá se foi, banido para o fundo da popa do galeão, ou pior, condenado a andar em alguma prancha internética, minha pobre pirataria, minha usurpação dos direitos de outrem.
É bem verdade que em várias outras ocasiões os donos das músicas já haviam comparecido, deixando claro que a "nêga" lhes pertencia mas, ainda assim, generosos, me permitiam continuar a usá-las em minhas inconfessáveis razões youtúbicas. Coisas que meu amigo Jorge entende e defende, essas coisas do direito aos passarinhos que nos caem nas mãos ou nos ouvidos Eu, pirata, me confesso e sigo em frente, busco outras caravelas para abordar, outras pepitas para roubar, outros tesouros para usurpar, covardemente internético, ousadamente corsário, insistentemente bucaneiro.
Se ainda me barrassem pela má qualidade dos vídeos que associo às músicas, ainda entenderia. Afinal, a coisa é sempre estética mais do que ética. E eu devia aprender melhor as imagens antes de juntá-las com as músicas lindas. Mas não, a coisa é só um exercício prepotente de um direito "intelectual" à obra, um deixar claro que nas nêgas deles não posso por a mão e, absurdo, demonstrá-las, com as roupinhas com que as enfeito, para minhas poucas dezenas de youtubeouvintes.
Assim, barrado do baile da Billie, meio assim p. da vida, criei outro filminho quase igual, mesma imagem, mesma música, só que agora tocada no sax gentil de John Coltrane. Fiz, uploudei e, os donos do Coltrane reivindicaram posse mas me concederam a graça de exibir minha pequena obra-prima nos ares dos tubos de vocês.
E Pindamonhangaba, o que tem a ver com tudo isso? Bom, ter até que tem, mas conto outra hora. E até já sei com que música retomarei minhas lembranças de Pinda, meu estágio final antes de virar o engenheiro que nunca me tornei. Aguardem, Pinda will return!!
Por enquanto, fiquem com meu único vídeo feito só de raiva. Ficou a cara de seu motivo. Mas a música é linda, Coltrane um gênio e, principalmente, o blog precisa andar um pouco por dia.


sábado, 13 de dezembro de 2008

Gilza por detrás da Lua


São raros os dias em que não me lembro dela, nem que seja por alguns segundos, no antes de dormir, no momento da avaliação do dia e, principalmente, no de sonhar o amanhã. Mas sempre é uma coisa fugaz, um pensamento que vem e se assopra fora por si mesmo. Não tenho lembranças insistentes, só as que quero lembradas e as que me referenciam nessa vida que inaugurei depois que a morte nos separou.
Mas hoje foi diferente, hoje é data marcada, a ferro e brasa, em meu calendário perpétuo. E, hoje, com ela meio cicatrizada, estava eu no Frango, solitário como fazia muito tempo não me permitiam os chatos do lugar. Caderno em punho, cerveja gelada, Pipoca particularmente carente e demandante (sabia? às vezes penso que esses bichinhos são mais do que os supomos e sabem das coisas que nos vão pelas almas), IPod no ouvido,
Antonio (bela recomendação de Nina) para ler, a noite começava com uma tentativa de fazer dela uma outra noite no Frango, igual a tantas outras, só aproveitando a solidão, atualmente tão rara por lá, para deixar vazar os pensamentos e, quem sabe, algumas linhas escritas de que ando tão saudoso. O livro permaneceu fechado, os ouvidos atentos, mais ou menos flutuantes, a sede de sempre sendo aplacada, ela comigo naquilo que dela em mim restou.
De repente, assim sem que eu esperasse, uma baita lua cheia clareou o detrás das árvores que de lá se avistam. E a traquitana ipódica, meio como em combinação com os astros, começou a tocar Nana Caymmi, na Voz e Suor que gravou com César Camargo Mariano. Aí me rendi, cometi soneto, eu que vinha seco e mudo nas coisas da escrita.

O soneto já postei, no bom ou ruim que não me interessa, na certeza de tê-lo feito pra Lua, não a minha em Escorpião, mas aquela que me surgiu em Barão no dia da morte dela. Invadiu-me, a lua, os espaços de uma minha janela imaginária, a mesma que tanto me assombrou no logo após do acontecido, a mesma que me fez pensar, sempre, nessa mistura insólita do Desejo, Morte e Carambolas.
Pois a Lua fez-se, da maneira que só uma enorme lua cheia é capaz, anteparo da janela que, da Lua em diante, nunca mais restará aberta para um nada. A minha janela que não era mais a dela.
Aí, quando me dei conta do muito que havia mudado, do caminho já bem andado, da alma assossegada, Nana assoprou em meus ouvidos Isso e Aquilo. E percebi que, fosse como fosse, era ela quem cantava, isso e aquilo, sobre a ferida que não mais doía e a libertação das promessas que descumpri. E era ela, só podia ser ela.
Pois se dela aprendi as árias que não conhecia, a possibilidade da ópera que não tive tempo de saber saborear, Voz e Suor foi a disco que ela marcou de mim, desde o início de nosso conhecimento, CD que tocava com uma insistência que era só dela, no carro, na casa dela que depois virou um pouco minha, sempre que ela tinha a chance da escolha. Por isso, Isso e Aquilo soou como recado dela, como um cantar que vinha por lá detrás da lua cheia, falando da ferida que nunca mais doeu, nela.
Terminei sozinho na mesa do bar até ser delicadamente expulso por urgências que a isso tudo desconheciam. Em casa, com a Lua ainda anteparando a janela, compus o filme que aqui posto, esse Isso e Aquilo que ela me disse, só porque sempre gostou de mim. Pipoca parece que entendeu, se aquietou. Eu, me emocionei e vou pensar n´Isso.
Vocês? Sei lá.




terça-feira, 9 de dezembro de 2008

MEU AMOR ME AGARRA & GEME & TREME & CHORA & MATA

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Quando fui para o Rio em fevereiro de 1972, depois de um breve período na Rua Corrêa Dutra (onde escutei o Cais que aqui já postei), mudamos (Itiro, João, Sérgio Paulo e eu) para um apartamento na Rua Almirante Tamandaré. O apartamento era um daqueles típicos apartamentos antigos, da época que Flamengo e Catete eram bairros chiques; quatro quartos, sala enorme, ´ssas coisas que, em 1972, 3 estudantes de mestrado e um professor podiam sustentar sem que fosse um luxo. Nele realmente comecei a viver minha vida carioca, o deslumbre com as meninas, bem mais dadas do que haviam me acostumado as campineiras, o Filé à Francesa do Lamas (ainda no seu local original) e, confesso envergonhado, por pura preguiça, a Praia do Flamengo com suas águas já imundas.
Daquela época guardo inúmeras recordações, algumas inaugurações e, até mesmo, uma paixão. Eram outros tempos, quando só com minha bolsa de mestrado eu bancava gasolina do carro, os eventuais motéis (grande novidade que só fui conhecer no Rio), as cervejas e filés diários no Lamas, onde Firmino, nosso garçom, nos fazia furar fila e sempre dava um jeito para que não esperássemos muito por uma mesa.
Na esquina de casa, ou seja, na Almirante Tamandaré com Rua do Catete, havia uma pequna galeria, com lojinhas simples de todos os tipos. Em uma delas eu passava quase que diariamente para verificar as novidades em LP. Um dia comprei o LP de Jards Macalé que ilustra este post.
O Lp era um biscoito fino. Músicas de Macalé com Capinam (grande letrista que morreu muito jovem), com um grupo pequeno e super afiado de belos músicos. Foi neste LP que conheci Movimento dos Barcos, música que depois marcou de maneira definitiva meu adeus à vida de solteiro no Rio e minha mudança para a Senador Vergueiro onde havia alugado um apartamento para casar.
Anos mais tarde, quando ainda era suportável assistir o Programa do Jô Soares, escutei uma entrevista com Macalé. Como artista, Macalé sempre foi meio maldito, por não fazer concessões numa época em que as concessões foram se tornando quase que obrigatórias. Em um determinado momento, Macalé se refere ao LP em questão e afirma que, segundo a gravadora, foram vendidos só 14 exemplares do mesmo. Morri de orgulho de, pela primeira vez, estar em um tão seleto, e pequeno, grupo. Pena que o LP sumiu de mim junto com os outros quase 2.000 que já tive.
A música do filminho é do LP, composição de Macalé e Capinam, e sempre foi uma das minhas favoritas. Com ela descobri que meu amor não passava de um tigre de papel e me despedi do cais para seguir viagem no movimento dos barcos. Até hoje não aportei direito.
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domingo, 7 de dezembro de 2008

Fado

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Um amigo acaba de voltar de Portugal. Aliás, vários amigos têm voltado de Portugal. Alguns, entretanto, nunca voltaram já que, como diriam nossos amigos de lá, nunca foram. Mas, brincadeiras à parte, os que lá têm estado retornam encantados, com a terra, as gentes, a comida, etc. Mas esse amigo em particular voltou com uma sensação estranha: descobriu nos seus dias na terrinha que carrega um português dentro de si. E, como diz ele, esse português em seu peito é um homenzinho triste, meio melancólico, coisa que lhe assustou e desagradou um pouco. No entanto acredito que meu amigo só descobriu o que qualquer brasileiro com um pouco de sensibilidade acaba descobrindo quando se deixa levar pelos ares, aromas e músicas de Portugal.

Pois, livrar-se do português em nós, quem há de? Bem que tentamos esquecer nossas origens, a alma que herdamos, a língua que é deles e nos conforma, a saudade que nos orgulha enquanto palavra e nos marca todos os sentimentos. E, tem razão o amigo, o português é meio triste, assim melancólico, de olhos sempre voltados para o mar esperando o retorno de D. Sebastião, o que nunca virá. E disso diz bem a música que por lá se canta com as entranhas.
Claro que por aqui, sob esse sol tropical que nos espanta as tristezas mais sombrias, essa melancolia fica escondida no fundo bem fundo da alma brasileira, retemperada pelos índios e negros de nossa formação, pelas demais misturas, por nossa malandragem macunaímica, pelo infantil alegrinho que insistimos em ser. Mas, olhando bem, todos temos esse portuguesinho escondido em algum canto d´alma.
Eu, que já elaborei por aqui sobre o chorão em mim, redescubro a matriz onde se imprimiu o Chorão da casa do Bosque. E aceito meu fado.
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sexo é política ou Calabárbara


Um post leva ao outro nesse aleatório em que se estabelecem minhas carambolas, meu desejo e, ao fim, as mortes que me constroem. Da tatuagem anterior, sem perder o espírito, antigas politicagens encontram seu caminho. Ainda com o belo poema anterior em mente, brinquemos de fazer alguma política tardia, só para retornar, em música, versos e imagem, aos corpos tatuados, ao desejo de carne viva.
Em 1973, Chico e Ruy Guerra, brasileiro e português, escreveram Calabar, O Elogio da Traição. Falavam do papel relativo dos mocinhos e bandidos durante a ocupação holandesa de Pernambuco e arredores. Dos portugueses broncos e dos iluminados pelo Príncipe de Nassau. Coisa sérissima naqueles anos de chumbo dos militares "portugas" que nos salvavam a pátria. João Caetano, o teatro, pronto, a peça anunciada, o Rio antevia o Fado Tropical que lá se cantaria. A peça foi, é claro, absolutamente censurada, em nome da boa política e, principalmente, dos bons costumes.
Pois as músicas que ficaram, e que Chico teve que gravar em um Lp não chamado Calabar, mas Chico Canta e ponto (se me lembro bem, ainda comprei o LP com o nome Calabar impresso na capa; os milicos eram burros e meio lerdos), falavam de amores, bárbaros e bárbaras, de tatuagens, e de alguns "cala a boca"´s amorosos (Fado Tropical, pedido que um dia acatarei, é uma das poucas músicas diretamente políticas que permaneceram). Algumas das peças mais pungentes, sexualmente falando, da obra de Chico, vieram deste manifesto político que ficou calado para sempre. O político ficou mudo, para os que não sabiam escutar, mas a tatuagem marcou-se nas peles de nossos amores.
Ou seja, mais uma vez o sexual foi a revolução que não se calou, ou pelo contrário, foi aquilo que, em nós, fez-se calado, apesar da burrice da censura, da estupidez do moralismo que exercitava então. Alguém se lembra do general de plantão? Mas as marcas no corpo, que queriam ficar como tatuagem, até hoje estão impressas em nosso imaginário amoroso.
E, dada a postagem anterior, aqui venho demonstrar que política é desejo, o tesão revolucionário, e a fome dos corpos eterna.
O Brasil ainda será um enorme Portugal?
Ainda não existe pecado do lado de cá do Equador?
Quem calará a voz de Bárbara?
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Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes...

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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Traçado on the rocks

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E. Hooper

As belas, e as feias, que me perdoem, mas botequim é coisa de homem. Apesar dos tempos igualitários, das nossas (homens) necessidades de tê-las por perto certas horas, botequim, no fim das contas, continua coisa de homem. Ou vocês conhecem algum que, cheio de freguesas, olha estranhado para um homem que entra? Ou uma mesa de botequim com zentas moças e dois moços fazendo figuração enquanto elas discutem "coisas de mulher"? Ou algum botequim onde a moça, no meio de um porre inesquecível, pelo menos até o raiar do próximo dia, fecha o bar bebendo um eterno "mais um" com o dono/gerente da casa, ou com o garçon anônimo sem intenções de tracá-lo after hours? Houvessem os botequins das moças, eles não durariam muito, invadidos que seriam pelos caçadores desocupados. Mas, botequim que se preza não é território de caça e, por isso, continuam coisa de macho. Botequim não é barzinho, nem point, nem castelo de Caras, muito menos "espaços culturais", apesar de não conhecer outro espaço tão cultural quanto um botequim, como tento demonstrar nesta postagem.
Não que isso seja uma vantagem dos homens, até porque são coisa de macho por que neles impera a Mulher, nas conversas, nas confissões, nos choros, nas ironias falsas, em tudo aquilo que só um bando de macho sustenta no faz de conta que os alivia. Uma mulher, real, de CPF e lousa e tal, só atrapalha a nossa eterna ligação com a "Mulher", essa mesma que Lacan insiste em dizer não haver e que, nós homens, teimamos em sofrê-las com o se fossem as pequenas mulheres de nossos desenganos. E toma dor de corno, especialidade de qualquer botequim que se preze, mesmo quando para não falar deles falamos de mil outras coisas, futebol, mulher dos outros, outros cornos, mal do PT, sociologia profunda sem colarinho, amizades fundamentais que nunca ultrapassam a porta de saída do bar, etc e tal.
Pois dor de corno é outra coisa que só homem sente. Talvez porque as mulheres tenham sido feitas, por definição, para serem "traídas", sendo as aspas em questão as aspas que sempre colocamos nas constantes eventuais traições que, nós homens, cometemos; ou seja, elas não são nunca corneadas, vivem o, delas, destino. "Traímos", mais das vezes, sem amor, da mesma forma como somos capazes de fazer sexo ou seduzir moças, só para nosso solitário divertimento, ou para a prova do teorema de nós mesmos, ou para contar aos amigos no botequim. Diferente das mulheres, que sempre traem por amor, só dão por afeto, isto é, traem, colocam chifres, nos arrasam a masculinidade pressuposta, nos injuriam a testa, dividem o nosso amor (não conto aqui as sem homens, que são mais fáceis mas, por definição, nunca têm quem trair). Daí o fato de um belo par de chifres ser coisa só dos veados machos, como a própria natureza nos ensina (o que, levado às últimas consequências da analogia, nos faria, homens, todos meio veados, coisa que sabemos ser vera, por nossa, homens, impossibilidade de querermos outro sexo que não o nosso, isto é, o grande defeito das mulheres, aquilo que nos faz, em última instância, veados misóginos, é que elas nunca serão nossas companheiras de botequim, nosso templo mais sagrado (homem que não gosta de botequim? los hay, mas .....) - importante para a argumentação: botequim é diferente de "barzinho", essa coisa modernosa onde homens e mulheres bebem cerveja juntos e ninguém fica after hours chorando no Balcão).
Não sei se vocês, queridas leitoras (onde andarão os meus leitores machos? ou, como quase me garantem olhares e sorrisos dos botequins que frequento, blog é coisa meio assim "Diário da Margarida"? Qui lo sá, Vardemá!) me acompanham na concordância, mas that´s it, like it or not!. Botequim e dor de corno são coisa de macho! E se aqui não fiquei bem provado a culpa é da exiguidade do espaço, e do saco, já que o espaço é meu, que me impedem tratado mais bem fundamentado, em alongamentos (não, nada que ver com aqueles que vocês, mulheres, fazem nas academias, coisa de mulher e boitolas). Dou os pontos como provados e continuo.
Mas, em sendo coisa de machos, botequins e dor de cornos variam no de acordo com a linguagem do macho em questão, com o Outro que o determina em intimidades sociais, num reconhecimento que a histeria das mulheres jamais será capaz (as mulheres tendem a acreditar num Outro possível que encontrarão no próximo romance, enquanto os homens sabe que eles não são Ele, nem nunca serão, merda!). Ou seja, apesar do botequim ser o templo onde ofertamos em público as nossas dores, doemos na linguagem, na especificidade de um Outro que faz social com a gente (e até conosco bebe cerveja), nessa intimidade desconhecente que a cultura permite e determina.
Vejam, por exemplo, Frank e Nelson, ou Sinatra and Mr. Gonçalves. Vejam as músicas, a elegância swingenta de um versus o esculachado tango do outro, o papel do botequim do carcamano de olhos azuis (a conversa solitária com o moço detrás do balcão no final da noite) e o do cafona brasileiro a convocar mais e mais gente para afogar, em bebida e confissões públicas, suas respectivas dores de corno (aqui me corrijo, antes que fique a impressaõ de que trocamos dores de corno uns com os outros em uma mesma noite; nada mais falso! a cada dia o corno da hora é exclusivo e pode contar com a total solidariedade dos outros homens na mesa, até que o dia raia, se vá dormir e o amanhã determine um outro corno, que não tem coisa mais chata do que o corno constante).
O que os une, solidários, no balcão do final de noite, ou pagando a rodada dos desconhecidos e amigos, é a solidão que Hopper expressa. No caso de Sinatra, uma solidão que se revela na música e no desacompanhamento; no caso de Nersão, no tango rasgado, bem mais visceral, e no convite à multidão botequinesca que consome com ele sem, no fundo, fazer suas dores consumidas. Em ambos, uma mesma solidão, que as dores são sempre assim, particulares, mesmo quando as fazemos semi-públicas.Há sempre um depois do botequim, uma cama vazia, uma lembrança vadia, um encontro com si mesmo, Sinatra ou Nelson.
Poderia elaborar ainda muito mais, falar das mulheres que só fazem fundo para Nersão no filminho, as mesmas que aqui, e lá, têm o botequim como impedido, dos homens solitários de Frank, e da mesmice da solidão em suas duas vertentes. Mas, se vocês prestarem atenção, o filminhho diz tudo, das diferenças e das mesmices, e, principalmente, das dores e igrejas dos homens de todos os tempos.
E chega de sociologia barata que barata é coisa de botequim, mesmo que nunca apareçam nos filmes de Hollywood. As via aos montes no Leblon, quando fechava o bar trocando papos ébrios com o Azeitona que me patronava. Hoje quase não as vejo no Frango, talvez por me faltarem as dores de corno que as atraem. Mas, vivido, elaboro, sobre botequins, homens, músicas, imagens, baratas e amores mal passados. Na falta de água benta exagero na pretensão, coisa que me garante a avó de meu discurso, não faz mal a ninguém.
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PS. E pensar que tudo começou como começam muitas coisas nesse blog. Eu havia descoberto uma maneira de "fundir música" e resolvi experimentar com essas duas que já havia postado anteriormente. Daí, tive que inventar filminho, caçar imagens, publicar a coisa no YouTube, etc e tal. Quando me dei conta, tinha um filme ainda mudo pedindo por algumas palavras. Acho que exagerei, culpa do Frango onde nem pensei nisso mas tomei algumas.Vocês hão de me desculpar. Ou não, como nunca saberei pelos comentários que nunca se escrevem, apesar de todos os santos tantos que aqui me conta o contador.
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PS2. Nelson Gonçalves, queiram ou não, é um pouco nosso Sinatra. Só não o é todo por já ter começado cantar depois da invasão americana nas formas de nossos sonhos. Mais ainda, as duas músicas são quase da mesma data; a de Nelson de 1955, a de Sinatra de 1958. A de Frank, conceitual como o LP onde surgiu (se esquecermos Ava e seu toureiro), a de Nelson a vida como ela é, bem antes do outro Nelson, o Rodrigues vestido de noiva.
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sábado, 22 de novembro de 2008

O Síndico do Brasil


Do rock ao soul/funk, o blog segue perseguindo a sopa dos inocentes, mas, mosquiteiro guerrilheiro, sem perder a ternura jamás
Do maluco beleza de Raul Seixas à Tim Maia, o síndico do Brasil, o blog cai na gandaia, entre um poema e outro, e dá um descanso aos Chicos, Zizis, Miles, Coltranes, todos belamente corretos como Raul e Tim nunca quiseram ser. Só para incomodar anônimos, enquanto a bela calma não volta.

Reflexos de uma agitação que me revolta os mares, de um querer que me faz permanentemente querendo e querido, a ordem é, como em um dos gritos de guerra do genial "preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofrências e deficiências capilares", "Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo!"
O filminho ilustrei com fotos de Chaouen, uma cidade azul da cor do mar, lá no Marrocos onde o beirute e o haxi são "du bão" e agradariam o insaciável Tim Maia entre uma e outra ida ao banheiro para dar um brilho (no cabelo, é claro).
Acabo de ler a biografia do dele, escrita pelo Nelson Motta. Apesar de achar que o Nelsinho não soube fazer jus ao personagem, serviu para relembrar o gordo e planejar este post.
Nesse encontro marcado com o blog Tim não faltou. Desvantagens da desencarnação que o gordo resolveu desencarnar há dez anos atrás, dessa coisa de voltar ao pó em que ele se meteu pensando noutra coisa: agora é só colocar ele para cantar que o bicho baixa, e nem pede licença para dar uma saidinha estratégica.
Usem e abusem
! Só do vídeo, é claro!!
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Mosquiteiro ou Abeirrolde em Barão

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Já me considerei um mosqueteiro de mim mesmo, apesar de sempre me faltarem os outros três do meu quarto. Chamei o Sintoma, que só me ofereceu mais um e, apesar de toda dificuldade de entrar em acordo com a Sintoma da gente, agradeci e dispensei, pelo menos para minhas necessidades blogueiras.
Olho para trás, no blog, e vejo que perdi vários Athos, Portos e Aramis ao longo do caminho. Restei este D´Artagnan meio assim, assim de espada chinfrim. E o blog ondulou de falta e pouca presença minha. Só quem me conhece sabe que, apesar disso, este mais de ano e meio de blog é um exemplo raro de persistência em minha vida inacabada.
E, nesses últimos tempos, que espero não se invertam em tempos últimos, mais do que oscilar, Carambolas virou o blog do blogueiro doido. Mistura rápida de Sinatra, declarações de amor, entrecortados por um Miles rascante, por malcriações explícitas, por ternuras muito mais e, de repente, não mais que de repente, uma maluquice bem no dia de minha consciência negra, mesmo que, cauteloso de minhas ousadias, a poste no amanhã. Pipoca, o Outro de tudo por aqui, só não bota ordem na coisa por ser, como todo Outro, Inconsciente e não estar nem aí.
Daí que, ainda atento à letra, descubro o ipsilone da questão, o xis do problema, o dabliuú da interrogação. Não sou mais, se é que fui, um mosqueteiro, nem quero defender Rainhas, minha turma é frangamente outra, meus leitores tantos poucos, meu anjo gauche, minhas penas mancas e minha paciência um saco furado.
E assim caminhará o blog, sem eira, nem beira, mesmo que ninguém o queira. Com saudades do poeta que de mim tirou férias que, às vezes, acredito, é desculpa para nunca mais voltar, do louco da casa com sua imaginação cheia de rosas morenas desaparecidas no Gol da Varig, do menino gentil que já não chora mais à beira de um caminho que aqui me trouxe e me deixou sem saber a que vim, dos sabiás da Praça que agora só vejo no tom de Barros dos Joãos idem que lá me acompanham pelo gramado fervido deste quase verão, da elegância romântica que se perdeu nas impossibilidades da vida e na crueza deste eu que não me lixo; saudades, enfim, de uma suposição que leio mas não garanto.
Mas, crescidinho no meu oficialmente idoso, me des-iludo em outras ilusões, em uma mulher tão longe de mim distante onde irá, onde irá, meu pensamento, em pedidos de Célias que não conheço e atenderei com certa tardança, em, como disse a dita, letras cronicamente musicais, tudo entremeado por belas trovas poéticas que me chegam de uma oca remota dentro de meu coração já quase ama-zonense.
O mosqueteiro andou no alfabeto e nas notas. Do, ré, mi, trocou o é por i, e insiste em cair na sopa que aqui coisinho.
Pelo menos o rock´nd´roll eu garanto, de vez em quando. O orégano e demais componentes desta banda que aqui se inverte, deixo a cargo de cada um. E me declaro mosquiteiro, não no sentido das armadilhas, mas no reconhecimento de uma minha especificidade neste blog.
Vocês entram com a sopa.
Eu? Tento me divertir.




quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Carcamano, meio baixo e cafajeste, formado em cornologia, sofrências e deficiências capilares, mas mesmo assim... (1ª ed.)


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A postagem sobre Sinatra e Ava Gardner merece uma complementação, até para ser justo com o ídolo de minha querida Anna, meus dois n´s preferidos. Pois se Tim Maia, o síndico, se dizia "preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofrências e deficiências capilares", o queridinho da Anna só teria em comum com o gordinho genial a cafajestice, as deficiências capilares e um enorme par de chifres que ganhou na época da Ava, cobra criada que bem poderia trocar o A por um E no nome. Assim, é verdade que por alguns anos, entre a separação de fato e a legal, Frank teve que suportar saber da moça em outras touradas, com um cara especialista em evitar os chifres que lhe ornavam a testa.
Mas, e aí vem a justiça, que mesmo tardando nunca falha (com exceção, é claro, do nosso amado, salve, salve, país tropical, que tem uma justiça jaboticaba, coisa só nossa, para orgulho de todos os filhos da mãe gentil e alívio do Daniel Dantas), Sinatra não passou aqueles anos de cotovelos enterrados nos botequins (One for My Baby and Another One for The Road, como já aqui postei, sob elogios rasgados de Mestre Sé, o boa praça), nem arrancou os cabelos que já ameaçavam a ruína final. Gostando muito mais dele mesmo, Sinatra dava uma no prego, outra na ferradura.
O fato é que, vindo de um final dos 40´s meio decadente (no final do ano de 1948, bélissimo ano aliás, Sinatra era somente o 4ª cantor mais popular da América, perdendo para Billy Eckstine, Frankie Laine, e Bing Crosby. Enquanto isso, Ava só fazia aumentar o seu sucesso cinematográfico. E foi pelas mãos dela que o moço ganhou um papel em A Um Passo da Eternidade, desempenho que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante daquele ano e, daí para frente, firmou sua carreira cinematográfica. No mesmo ano, lá para o final, vieram as touradas de |Madrid, a amarga dor de corno e um período de faz de conta que eu nem ligo.
Nesse período aconteceram alguns dos melhores discos de Sinatra. Uns no estilo "Lupiscinio", como In the Wee Small Hours (1955), Frank Sinatra Sings For Only The Lonely (1958, e LP onde gravou One for The Road...), e Where Are You? (1957). Ao mesmo tempo, e logo após a separação, grava também Swing Easy! (1954), Songs For Swingin' Lovers (1956), e Come Fly With Me (1957), num estilo swingado, alegre e completamente diferente. Ou seja, o moço oscilava mas não caía. O sucesso musical voltava, seja com os discos "blues", seja com aqueles cheios de swing.
Mas, seja como for, sujeito dividido ou não, doído ou doido, as porradas da vida, e o sucesso nas telas, nos fizeram muito bem. Permitiram a gravação de um Sinatra no auge da sua maturidade como cantor, e nos legaram algumas canções que até hoje soam modernas. Coisa do gênio que Sinatra foi. O cantor genial, maior que o homem Sinatra, foi capaz de fazer beleza de seus demônios interiores.
Escolhi o LP Songs for Swing´ Lovers, outro dos 1001 discos que você deve escutar antes de morrer, para representa o swinging Sinatra. Na dúvida entre duas belas músicas, e odiando tomar decisões, deixo-vos com ambas. Too Marvelous for Words e a inesquecível I´ve Got You Under My Skin, obra-prima de Cole Portes que Sinatra fez quase sua marca registrada. Com isso, empatamos o jogo do vai e vem de Sinatra nos anos 50: duas "deprê"( One for The Road e In The Wee Hours), duas puro swing.
Mas como The Old Blues Eyes era um gênio, uma hora ele volta, para além dessa história de chifre, toureiros e um belo animal chamada Ava.
Divirtam-se!
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Dedicado a Anna Maria
(tem crase, Anninha?)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Kind of Blue - track 4, All Blues, fim do disco

Com essa faixa, a mais longa do disco, completo a postagem, pela primeira vez neste blog, de um disco inteiro. Como as faixas não estão ordenadas, caberá ao leitor escutá-las ou na ordem em que aparecem no blog, ou clicando no marcador Kind of Blue, na ordem em que elas se apresentavam no disco original. Vale dizer que as faixas que aqui vocês encontram são exatamente as cinco do disco de 1959. Um a outra hora, quem sabe, coloco a take alternativo de Flamenco Sketches que, apesar de gravado na mesma época, só veio a luz como "faixa bônus" em um CD lançado em 1997.
No entanto, resta a questão, até um pouco para mim mesmo, do porque fiz questão de colocar o disco todo por aqui. Amor por Miles Davis? Não necessariamente, já que por ele tenho mais respeito do que o tipo de "amor" que dedico a outros grandes músicos e intérpretes que aqui posto no quando em vez (Coltrane, por exemplo, é um deles). A resposta, se é que dela sei alguma coisa, desejo meu tão obscuro como soem todos, deve estar na singularidade do disco, sua beleza historicamente marcante, além de outros fatos que nele me impressionam.
Momentos marcantes no jazz não faltam, normalmente associados a algum tipo de virada, mas, quase sempre, se marcam em algum intérprete (sempre instrumentista) que mudo a maneira de pensar o jazz, o improviso, a brincadeira coma harmonia, o ritmo, whatever. Assim, Louis Armstrong foi o primeiro revolucionário, o pai da jazz moderno, que começou a mudar aquela coisa tipicamente de New Orleans em uma música nova, o jazz como desde então começamos a conhecer. E isso lá pelos idos de 1977. As grandes bandas inventaram o swing marcante, coisa que nunca desapareceu mais do jazz. Charlie Parker e o bebop, que ele inventa em uma noite de 1939 e desenvolve junto com Dizzy Gillespie. O próprio Miles, vindo do bebop, havia inaugurado o cool jazz com o disco The Birth of Cool. Ou seja, as marcas no caminho sempre se associavam a intérpretes específicos, novos movimentos, batismos, ´ssas coisas.
Kind of Blue marcou-se como um album definitivo, gravação que não poucos críticos consideram o melhor disco de jazz de todos os tempos. Apesar de Miles ser o "general da banda", o disco não existiria sem seus outros componentes. Mais ainda, a não ser por uma mudança no estilo de tocar de Miles, que no disco abandona um certo jeito hard de tocar em favor do modal, o album não inaugura movimento algum.
Talvez seja por aí a explicação da coisa: Kind of Blue foi uma espécie de ápice do jazz moderno, um até mesmo canto (maior) do cisne. Depois dele veio a coisa do free jazz, que nunca se firmou a não ser em certas gravações magistrais de Coltrane, a invasão definitiva do rock e do pop, a tentativa frustrada do próprio Miles com o fusion jazz, até que Winton Marsalis, principalmente, recuperou o jazz "como antigamente" , num retorno às origens mais básicas da coisa jazzística. Ou seja, Kind of Blue foi o apogeu de toda uma história que teve início no começo do século 20 com Louis Armstrong. Depois dele, um ou outro fogo de artifício digno de nota, mas nenhuma outra revolução marcante.
Mas, aqui caberia um tratado para melhor me explicar, coisa que os blogs não suportam, visto a paciência pouca dos leitores, o vapt-vupt dos tempos, a brevidade das coisas internéticas. E, mais ainda, nem eu seria capaz de dar conta de tudo que está por trás do pensar Kind of Blue como o disco de jazz por excelência.
Como uma última curiosidade, vejam as idades dos meninos quando da gravação em abril de 1955: Miles (32), Coltrane (32), Cannoball (31), Jimmy Cobb (30), Bill Evans (29), Wynton Kelly (27), Paul Chambers (23). Ou seja, na sua maioria músicos também na plenitude de suas capacidades.
Mas, chega de abobrinhas e carambolas, Vamos à música. Kind of Blue, faixa 4, All Blues. No piano, Bill Evans.
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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ava Gardner, quem diria, acabou no Carambolas

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Ava Gardner, quem conheceu, conheceu; quem não conheceu, não saberá nunca. A moça era um arraso que só naqueles tempos da década de 50 as moças ainda podiam ser. Devorava homens no palitinho e, até (tolinha!), casou com alguns.
Casou, por exemplo, com
Mickey Rooney (o menino prodígio de Hollywood; argh!) em 1942, casamento que durou um mísero (ou interminável, dependendo do ponto de vista) ano e quatro meses, onde as brigas ocuparam quase que todo o tempo. Depois, veio Artie Shaw, em 1945, e bem que ele, famoso bandleader, bem mais velho que ela (do garotinho "prodígio" ao homem maduro, Ava meio que antecede a tentativa da Monroe com Arthur Miller), tentou, homem culto e inteligente que era, transformar a moça bruta (´ssa mania que os "homens cultos", e mais velhos, têm de esculpir a mulher bruta que recebem, meio assim um complexo de Pigmalião, coisa que, na melhor, acaba resultando em um My Fair Lady e, na pior, num "cansei!" da moça). Durou 1 ano e sete dias o casamento e o experimento. Ela cansou!
Em 1951 casou com Frank Sinatra, que não era culto, era tão ídolo quanto ela, era adorado por todas as mulheres americanas da época (uma espécie de Chico muito bem temperado, mas com uma baita saudade da mamma). Pois é, o casamento durou 2 anos, apesar de ter acabado oficialmente só em 1957. Nesse meio tempo, o queridinho das mulheres da América teve que suportar o caso de Ava com
Luis Dominguin, toureiro espanhol que colocou um belo par de chifres nos lindos olhos azuis do moço, que ficou toureando vento na América enquanto ela colocava as banderillas no espanhol.
Sinatra, que sempre foi um italianinho romântico metido a durão, aprendeu a dor de cotovelo, a testa dolorida, a vaidade ferida, o blues da perda, o choro musical. Tudo pelo amor de uma mulher que o poeta Jean Cocteau chamou de "o mais belo animal do mundo" (tadinha das Giseles Bunchens!).
Tá certo que a moça, depois do Sinatra, oficialmente não casou com mais ninguém até morrer em 1990, apesar das toureadas com o Dominguin em questão por vários anos. Mas, coincidência ou não, o moço com os olhos azuis mais sedutores do planeta (daquela época em que, se vocês ainda não perceberam, o planeta era outro mundo) entra numa fossa de dar dó. E, com arranjos de Nelson Riddle, grava, em 1955, seu primeiro LP de 12 polegadas (LP, 12 polegadas, atenção crianças!) assim meio temático, ou seja, um "disco conceitual", todo ele falando da dor do amor, dos amores perdidos, da mulher impossível (percebam, ainda casado com a moça que vivia em olés com o toureiro; shame, shame, shame!!!). O LP chamou-se In the wee small hours, a capa foi uma das primeiras a refletir, graficamente, o "tom" do disco (e fez muito sucesso na época em que a arte das capas dos LP´s ainda era uma grande novidade, e que vocês podem conferir, sem entender, na imagem que abre o filminho), e todo ele, LP, era um Sinatra meio assim uma espécie de Lupiscínio cantando a mulher perdida (com duplo sentido, please!), os amores inúteis, a solidão não escolhida. A dor de corno não enxerga a cor dos olhos, nem o amor do "mercado", como ficou definitivamente provado desde então.
O coitado, depois de Ava, onde foi figurante
, resolve virar ator e quando casa novamente, em 1966, escolhe Mia Farrow, ele cinquentão, ela com 21 anos, magrinha de cabelinhos curtos, o oposto da volúpia anterior. E, depois da mãe do bebe de Rosemary, em 1976, acaba os seus dias com a ex mulher de Zeppo Marx, o mais sem graça dos irmãos marxistas. Entenderam o estrago? Ava arrasou, ou não, o homem mais amado do planeta?
De qualquer maneira, como bem sabemos, a dor de corno é altamente produtiva artisticamente, tanto que o LP que o moço chorou em 1955, é o primeiro LP analisado no livro 1001 Albums You Must Hear Before You Die de Robert Dimer e, em 2007, foi eleito pela revista Time, um dos 100 melhores Albuns de todos os tempos. A música que nomeia o LP, In The Wee Small Hours Of The Morning, abre o disco e é o que aqui apresento aos meus queridos, cada vez mais, ouvintes.
Mas, pensando bem, eu deveria ter feito o "filminho" só com imagens da moça Ava, verdadeira autora dos sentimentos que Sinatra chorou no disco. Agora é tarde!


PS. Se vocês quiserem escutar esses 1001 Albuns antes que vocês morram, cliquem aqui que uns romenos malucos separaram, album a album, todos eles para vocês.
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Corsários, piratas e bucaneiros

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A Internet nos fez a todos piratas, graças a Deus! Roubamos, sem nenhum remorso, vídeos, palavras, músicas, filmes, como se as ondas da Internet fossem calmas, e sem lei, como já o foram as transparentes águas do Caribe dos corsários dos bons tempos das pilhagens oficiais que eram pilhadas pelos bucaneiros particulares. Como antes, pilhamos riquezas e belezuras, coisas que tornamos nossas como se nossas sempre tivessem sido, sem culpa ou remorso, na certeza de que as coisas intelectuais são pássaros que voam na criação e, a partir daí, são das mãos que as (a)colherem. Este vídeo, por exemplo, roubei lá no YouTube, coloquei as legendas que não haviam e, como me pediu a suposta Célia, tento agora compor um "texto bacana", coisa que não posso roubar em lugar algum, a não ser desse tesouro pirata que fui guardando nos escondidinhos de minha cabeça pelos últimos 60 anos.
Mas o pedido, inusitado nesse blog que tropeça em sua falta de foco, e que se justifica nas carambolas que lhes dominam nome e intenções, fala de uma outra pirataria: a dos nomes, se não surrupiados, inventados no vai da valsa, no sobe e desce das marés que nos navegam a vida e os amores, na falta de compromisso com o assinar-se, no faz de conta que sou "Lia Regina" (nome improvável para um tal uso orgulhoso), até mesmo o da querida Célia, que me pede, depois me agradece dicas que não sei para que Célias dei, me deseja bons dias sem que dela só se ofereçam as mensagens cifradas, as pistas molhadas, a covardia envergonhada. Seria essa outra forma de pirataria? Ou seriam almas corsárias, malandras como me garante Houaiss na significação da coisa, dissimuladas, de intenções bucaneiras que o semi anonimato lhes permite? Envergonhadas senhorinhas, incapazes de aceitar a vida como ela é, noivas de Nelson Rodrigues sem coragem da vergonha publicada?
Talvez contem com minha curiosidade, com minha paixão pelas coisas de detetives, pela minha lógica engenheira a juntar qualquer lé com um cré qualquer, e disso tirar conclusões de nomes que não se ousam, que escapam na possibilidade da negação, seja qual for o raciocínio que os desvela. Ou seja, são e não são, covademente escondidos nas minúsculas baías que o mar internético proporciona, nomes improváveis, corsários do Houaiss cheio de intenções do tamanho de suas almas pequenas. Não valem a pena, as penas, nem as melenas de meu Sansão de cãs cansadas.
Pois, se ser blogueiro é ter de conviver com o anonimato, é difícil suportar o semi-anônimo, aquele que nos deixa comentários pessoais, insinua amores e suspiros, e foge para as sombras, nos deixando com as possibilidades, sempre poucas, dos que nos dedos contamos (a maioria descartada por não covardia pressuposta). Cansam esses comentários, as Lias que nem justificam que Edu as cante (mas um dia, só pela música, ainda aqui elogio essa outra Lia, da ilha que o Lobo cantou), até mesmo a Célia que originou essa postagem, que me agradece dicas e me deseja domingos, e, provavelmente se cobrada por um "Foi você?", recuaria indignada nas sombras da bandeira das tíbias cruzadas.
No entanto, o pedido me lembrou a música, coisa linda dos tempos que J.Bosco ainda parceirava com A.Blanc, e que Elis os paparicava com carinhos de madrinha. O mesmo Corsário que Zizi, elegância que sempre me surpreendeu até que eu percebesse que o bobo era eu, ela era elegante e ponto, cantasse sem nada a dever à madrinha dos parceiros geniais. De uma dica da suposta Célia, que queria a coisa corsária com a Zizi (e "texto bacana" que depois aspeamos, eu e "ela", sempre cheia de aspas e insinuações), acabei descobrindo essa linda montagem das duas grandes cantoras, coisa que pirateei do YouTube, coloquei legendas e fiz um vídeo piratamente meu.
Pirata, eu? Claro que sim. Mas de nome próprio. A minha bandeira leva minha caveira e as tíbias de um Pipoca encarnado, tonto orgulhoso desse já meio longo caminhar, apesar das Lias, rainhas ou não, das Célias e seus abraços, de todo o povo que aqui se esconde, na maioria tolinhos de covardias pequenas, máscaras transparentes que denúncia alguma alcança. Que venham à luz, icem suas bandeiras, apresentem-se. Ou calem-se para sempre, até que o blog nos separe.
De qualquer forma, pedido que me fez vazar indignações blogueiras, a música é linda, Zizi é ótima, Elis canta cada vez melhor, e João Bosco e Aldir Blanc deveriam ter permanecido casados forever. Ou será que João entra no site de Aldir, ou vice versa, e se assina, amorosamente, Alfredo? Ou Alcides? E deixa, pensando-se muito esperto, um Dois prá lá, Dois prá cá, só para chatear o antigo companheiro? Quer dançar? Arrisque a "tábua", como dizíamos nos tempos de meus antigamente.
Querida Célia/Lia/whatever, ficou bacana o texto?
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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Kind of Blue - track 3


Kind of Blue é um disco insuperável para muitos amantes do jazz. Gravado entre abril e março de 1959, reuniu, sob o comando de um Miles Davis récem saído de um programa de reabilitação para drogados, um dos mais fabulosos elenco de músicos (vejam nos créditos finais do filminho). São só seis faixas, sendo que uma se repete em dois takes., quase 55 minutos de música de primeiríssima qualidade. É um disco que dispensa "texto bacana" e clama ser ouvido, de joelhos, ainda que mentalmente. O trumpete de Miles nos penetra quase misticamente, blue e forte, agudo de nos cortar a alma. Os outros músicos explicam, com suas performances, o porque que o gênio Miles Davis os escolheu para essa histórica gravação.
A faixa aqui escolhida, Blue in Green, de autoria de Miles e Bill Evans, une dois dos maiores drogaditos da história do jazz em uma experiência que beira o religioso (e, garanto, religioso é, para todos que amam o jazz), quase uma epifania. Nessa faixa, quase, só os dois, Miles e Evans comparecem (ouve-se, aqui e ali, o baixo de Paul Chambers e, quem sabe, ruídos suaves da bateria de Jimmy Cobb, um solo de sax que fica a determinar se de Coltrane ou Addeley), mas, juro, acabo colocando o disco todo por aqui, oração por oração, e, aí, virão Coltrane, Cannonball Adderley, Paul Chambers, Jimmy Cobb e, como um extra, Wynton Kelly em uma das faixas.
Como diria Vinícius, para qualquer uma das faixas, é para se escutar deitado numa banheira, comendo papos de anjo feitos pela mãe da gente.
É pouco ou quer mais?


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terça-feira, 4 de novembro de 2008

O teu cabelo não nega

Pois é. Somos, os Estados Unidos e nós, os grandes early importers of the black people. Não há como negar. Estão aí as músicas, o negro fundamental nas nossas culturas musicais, o samba, o jazz, até o chorinho, já que muitos choraram até que as melodias entrassem em nossos ouvidos brancos e, no caso brasileiro, cordiais.
No entanto, entre as nossas raízes negras e as deles (e escrevo no momento exato em que Obama pode estar sendo eleito ou não), podemos apontar diferenças inúmeras. Aqui mesclamos mais que lá, mas em compensação vivemos nessa tentativa de apagar o negro de nossa história. Lá, pelo contrário, a coisa seguiu mais feia, a luta foi mais feroz e, por consequência, o negro permaneceu mais negro, a música mais pura na sua identidade racial, o faz de conta menos evidente. Tudo coisa para tratados sociológicos que aqui não cabem, considerações ideológicas meio confusas, coisa séria que escapa às carambolas do blog.
Mas, vejam, Sweet Georgia Brown, música de 1925, gravada e regravada tantas vezes que virou um standard do jazz (coisa de muita significação, já que a música é de tempos anteriores ao "bom jazz"). Seríamos capazes de escolher uma música brasileira equivalente, ou, pelo contrário, a diluição em nossa suposta cordialidade acabou com tudo?
Pois, acredito, é só lá (USA) e aqui que podemos encontrar, ainda hoje, uma música "negra" inserida em um contexto onde ela é o que nos caracteriza (vejam, a coisa negra caribenha, por ter permanecido sempre só uma coisa negra, não tem o mesmo estatuto do jazz e da MPB, enraizadas no negro mas sendo para além disso). E, no entanto, aqui, as raízes se diluiram, o passado não se preservou, a música não se sustentou. Chico é uma gracinha, mas jamais cantará Pelo Telefone.
Escutem essa interpretação de Junior Mance, de 1990, para a composição de 1925 de Sweet Georgia Brown e comparem com nosso total esquecimento dos Dongas e, até mesmo, dos cabelos que não negavam de um Lamartine Babo, e perguntem-se sobre o que andamos fazendo com as raízes do Brasil.
Ou, por outro lado, esqueçam tudo e curtam a música. Vale a pena.


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Esperando as flores


Imagem roubada

Novembro veio como sempre, depois de um outubro que parecia não querer terminar. Começou com um convite inesperado, e continuou entre tardes de vinho taças de chuva paulistana cariocamente temperadas, um sorriso que fazia tempo e, quem sabe, continuará, logo, logo, com flores no ipê da Praça, que este, sentindo cheiro das coisas no ar, dessecou-se, cobriu os galhos magros com folhas fartas e, acredito, ameaça amarelar-se em breve. Coisas destes tempos fora de hora em que ando, novamente, vivendo. Como na imagem acima, que, ao contrário do que se pensa, é a de uma flor sendo reconstruída, pétala por pétala.
A música, como vai retornando comum, foi roubada junto com a traquitana que a toca, a imagem que abre o post e a vontade de retomar o caminho que, um dia, julguei passar pelo aqui me escrever escancaradamente.
A música, é só uma outra versão de uma nossa velha conhecida no blog (vejam os vídeos com o autor e com Maysa, em algum lugar do passado).Na sua terceira apresentação, esse pedido de Jacques Brel se torna o mais insistente do blog. E vira uma quase promessa de retomada do blog, da vida, dos encontros e das saudades. Agora é esperar o ip~e, nem que seja até o ano que vem.



Boomp3.com
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A pedidos

Adoro minhas comentaristas, mesmo sem nunca ter entendido porque só as tenho no feminino. Às vezes, quase sempre, me orgulho dessa coisa das mulheres que me comentam.
Hoje, sigo um comentário que já nem sei mais onde foi postado e, apesar de todos os encontros que desenham essa minha vida, coloco a música que, entre tantos encontros, lembrou alguém de algum desencontro, de um caso de amor sem ponto final.
E, lembro, a dor do amor quando não passa é porque o amor valeu.

sábado, 25 de outubro de 2008

Ponto final

Os encontros são como os escritos, dependem de nossa imaginação, de nosso se deixar neles escorrer entre linhas, entre ditos, no ouvido do outro que nos encontra em nossas próprias suposições.
Alguns encontros são fugazes, são como coisas pequenas que se escreve nas sobras do dia, de ponto final apressado, de gosto de sobras de fácil digestão. Difícil um escrito curto que nos toque para além de uma graça ligeira, uma competência com o jogar com as palavras, um "bonitinho" mortal como avaliação. São, esse tipo de escrito e encontro, feitos para nos exercitar, para nos lembrar dos verdadeiros, escritos e encontros, e nos preparar para eles. Querer, deles, mais do que eles podem dar é exercício inútil que, mesmo assim, fazemos no quando em vez de nossas ilusões. O ponto final que os encerra deixa pouco no paladar, um quase nada na lembrança, uma marca em areias que qualquer mar dissolve.
No entanto, escritos e encontros, desses que que fazem valer todas as nossas penas, têm uma diferença fundamental. O escrito está sempre fadado a ser somente depois do ponto final. Mesmo lembrando que é o ponto final que permite os próximos escritos, cada um deles termina, inexoravelmente, bem ou mal dito, no ponto final que, às vezes, relutamos em colocar. É como um bom livro que nos captura e, a medida que vamos chegando ao seu final, diminuimos o ritmo da leitura para evitar o momento da última página, do ponto final definitivo. Talvez por isso eu goste muito de algumas obras inacabadas, como O Homem Sem Qualidades, de Musil. Talvez por isso eu me estenda, quase sempre, mais do que deveria, na evitação da angústia do ponto final. Mas isso, lembro, é coisa para boas escrituras, obras com intenção e arte. E, aqui como nos bons encontros, mesmo que o ponto final seja definitivo, as marcas do escrito permanecem, embalam nossa imaginação, se metem em nossos próprios escritos, moldam nossos estilos. Pois os escritos, todos, são sempre fundados em todos os escritos que o escritor já leu até o ponto final.
Já os encontros fundamentais não acabam nunca e, portanto, nunca chegam a seu ponto final, a menos até que a morte os separe, aos encontrantes. Muitas vezes, a maioria eu acho, os aparentes pontos finais só lembram que um novo parágrafo vai começar e a história continuará em um para sempre, mesmo que outra, mas, sempre, com algo que nunca muda na teia que o encontro sempre teceu. Mesmo que, por instantes, se acredite que, na teia do encontro, só reste uma aranha alucinada e sem sentido. Pois, se o encontro valeu, cedo ou tarde, o novo parágrafo se escreverá e a teia, qual colcha de Penélope será de tessitura sem fim na odisséia dos heróis dos encontros. Porque há um heroísmo no fazer de um encontro um para sempre que dure para além de todas as tempestades, de todas as mudanças de ritmo e estilos, de propósitos e sonhos. É coisa para poucos, encontros e encontrantes.
Como o encontro que aqui reencontro sem nunca tê-lo perdido, nem quando 34 anos de pausa interromperam uma linda história de encontros, desencontros, alegrias fulminantes, olhares de despedida, chorares por detrás da porta, portas que se quebraram de pura alegria, tardes de vinho, taças de chuva, um ser que sempre foi maior que o ter, sustos, tragédias, uma vida para poucos. Mas, cada um destes momentos, destes sentimentos, foi só um parágrafo nessa escritura que não terá fim no para sempre que nos caberá nessa história que reescolhemos nossa.
E é por esse encontro que peço, com as palavras com que sei pedir, para que ele permaneça e que eu possa seguir cada vez mais encantado com nossa coragem de, deste encontro, fazer nosso conto sem ponto final.
Bom te ver novamente, menina de meus colares de pérolas.

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A música, e a traquitana que toca, roubei dela
Um Zé melhor, mais simples, mais bonito, roubei dela
A Inês, roubei dela que tem tanta Inês para dar
Dela, no reencontrando, roubei minha vontade de sonhar.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Chico Pedreiro

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Me lembro dele. Quase tão jovem quanto eu, estreava no Cine Ouro Verde, em Campinas, sua carreira profissional em um daqueles roadshows que um tal de Pica-Pau inventava com os astros da Bossa-Nova e os meninos do momento.
O fato é que, depois de seu início carioca, a nova MPB havia se mudado para onde o dinheiro havia. São Paulo, Rede Record (que não era nem Universal, nem do Reino de Deus, muito menos do "bispo" malandro), shows pelo interior paulista. E dá-lhe Zimbo Trio, Alaíde Costa, Paulinho Nogueira e a garotada. Entre eles um carioca perdido nas faculdades paulistanas, o Carioca, de nome Francisco, filho das Raízes do Brasil, como ele, anos depois, em 1993, confirmaria em outra música magnífica, Paratodos.
Mas eram tempos primeiros. Bandas e Carolinas, Morenas de olhos d´água, Pedro Pedreiro, coisas ingênuas mas já meio Chico, sambinhas como depois quase não mais se viu na sofisticação que suas letras foram se emprestando a tantos bons parceiros, excelentes músicos (Tom e Edu, por exemplo), de harmonias mais elegantes e complicadas. Mas, no início, era década de 60 ainda e Chico fazia um sambinha com cheiro de garoa.
Seja pelos festivais, seja pelo momento brasileiro, seja por que for, Chico Buarque de Holanda fincou raízes no Brasil e nunca mais conseguiu ser arrancado.
E Chico Buarque de Holanda, com seus olhos de maresia, sua timidez que até hoje resta, foi, tijolo a tijolo construindo o Chico e um pouco de todos nós. O Brasil, nesse caminhar, se descontruia na burrice militar, nas vozes afogadas pela censura, no horror que os idiotas fardados tinham do social. Em 1969, Chico é exilado na Itália
Aí, em 1971, de volta, Chico lança o que considero uma de suas mais geniais composições: Construção. O letrista, nessa música sozinho, faz da letra um mais que tudo, restando, à música, um pontuar a beleza, e dureza, poética da letra genial. E tão genial que virá aqui, na postagem, como reconhecimento do blog a essa construção sem igual.
Chico, senhor de todas as letras, continuou (continua?), mas Construção ergueu-se como marco definitivo de sua genialidade. Há 37 anos atrás.
Crianças, escutem! Senhores, relembrem! Meninas e senhoras, suspirem!
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Construção
(Chico Buarque)
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
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Para M., que também ama esta música

sábado, 18 de outubro de 2008

Summertime




Você,
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Têm horas que você me sabe tão menininha. Não me pergunte por causa de que, que responder eu não saberia. Mas menininha, assim de diminutivo bonitinho (que nem sempre eles são, como bem sabe você, moça das letras), assim com uma certa brejeirice que se descombina com teus tantos anos, com teu tal tamanho, e se combina com os meses em que te conheci pequena e leve.
As marcas me chamaram atenção por serem poucas, na minha expectativa, e tão leves, de lápis tímido, oferecidas para um apagamento possível, um desmarcar que nunca farei. Não passei por elas, as tuas marcas, ainda; um dia haverei de. E, como temes em outro mail, concluirei você com a ousadia de que sou capaz, mas sempre sabendo que entre você que eu suponho e você, há uma distância tamanha e um nada que me justifica. Supunha-as, às marcas, em amarelo de marcadores, em confissões explícitas das frases gostadas e abaladas, das coisas afetadas, do indelével que de mim roubaste. Não foram, não são, jamais serão. Como tudo de você, são frágeis, pedindo apagamento ou, se assim eu quiser, acolhimento e guarda. A grandona que é tão pequenininha que ninguém percebe a pequenice. A menina que, uns dias, encontrou-se com um meu menino e se deu tão bem, ele com ela, ela com ele. O menino explícito com a menina implícita, que nunca foram, por conta disso tudo, homem e mulher (ou nunca se deixaram ser, jamais hei de saber). Meu encanto te encantando e, eu, encantado pelo próprio encantamento. Até que a vida nos acordou desacordados.
Reveja as marcas e escreva, que isso você sabe fazer direitinho, seja de que marcas falamos aqui.
Eu, por outro mesmo lado, nunca soube das marcas fazer escrita. Sei, às vezes, delas fazer poemas, no enquanto elas duram na marcação, enquanto ardem na pele sob o ferro que as faz marcantes. Quando viram cicatrizes, me recomponho, desapareço com elas, desconstruo o delas em mim, me revirginizo, leão covarde das batalhas passadas. Apago, ao custo de mim mesmo, e não as pago, nem me deixo as pagar, numa dívida em suspenso que, alucino, sustenta a ilusão de que nada nunca acaba, de que sempre resta um fio para um passado que nunca existiu ou para um futuro que nunca sequer foi sonhado.
Daí, talvez, ter te pedido as marcas no livro que nunca te dei. Daí tê-las imaginado em tintas de não apagar. Daí a dúvida que agora tenho se apagarei teus traços frágeis e te contarei esquecido do que foi você em uma coisa minha.
Sobre teus textos, não me convoque opiniões que ainda não te leio livre. Um deles já conhecia; o outro tomei por encomenda contada, coisa da moça exibida que se adora publicada. Competentes os dois, o segundo bem mais bonito que o primeiro (talvez por só tê-lo visto lá, onde ele se apresentou inédito para meu olhar já desacompanhado), a coisa dos flocos de neve, essas marcas que se derretem e viram quase nada de água, esse pai que não se derrete nunca, essas lembranças, que nem sei se tuas ou das tuas escrituras, a nomenclatura que exibes orgulhosa como quem escreve se dizendo especialista na coisa, esse texto bem torrado, servido no bem coado de depois de um tempo que já não suponho.
Teus textos, ainda tuas marcas, me demandam escritas sem sentido. O louco da casa rides again. Quem me dera a tua louca te habitasse e virasse tua temperança de cabeça para cima, que a imaginação sempre assustou as tuas razões bem plantadas em outras terras de colheitas difíceis. O calor dos nortes, as matas densas, as noites sem sorte e as vidas pretensas, tuas razões para todas as evitações de agora, para as repetições sem hora, para esse colo de pai que nunca mais nevará.
O horário de verão começa daqui a pouco. Summertime, choro que aprendi na imitação da vida que descobri nas telas do cinema.
Te respondi? Te devolvi algumas marcas minhas? Grafei? Ou, como usual, escrevi sozinho uma história que nunca soube contar direito?
De resto, nada será como antes.
Beijo,

Eu

PS. Desculpa, mas seco como ando, vou transformar esse meio ousado, meio cansado, em post lá onde me demonstro por escrito.