quero...
um regaço para chorar,
mas um regaço enorme, sem forma,
espaçoso como uma noite de verão, e
contudo próximo, quente, feminino,
ao pé de uma lareira qualquer.
um colo, um berço,
um braço quente
em torno do meu pescoço,
uma voz que cante baixo
e que pareça querer fazer-me
chorar.
um calor no inverno,
um extravio morno da minha
consciência.
e depois, sem som,
um sonho calmo,
um espaço enorme como a lua
rodando entre as estrelas.
Bernardo Soares
Livro do Desassossego
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sábado, 25 de outubro de 2008
Ponto final
Os encontros são como os escritos, dependem de nossa imaginação, de nosso se deixar neles escorrer entre linhas, entre ditos, no ouvido do outro que nos encontra em nossas próprias suposições.
Alguns encontros são fugazes, são como coisas pequenas que se escreve nas sobras do dia, de ponto final apressado, de gosto de sobras de fácil digestão. Difícil um escrito curto que nos toque para além de uma graça ligeira, uma competência com o jogar com as palavras, um "bonitinho" mortal como avaliação. São, esse tipo de escrito e encontro, feitos para nos exercitar, para nos lembrar dos verdadeiros, escritos e encontros, e nos preparar para eles. Querer, deles, mais do que eles podem dar é exercício inútil que, mesmo assim, fazemos no quando em vez de nossas ilusões. O ponto final que os encerra deixa pouco no paladar, um quase nada na lembrança, uma marca em areias que qualquer mar dissolve.
No entanto, escritos e encontros, desses que que fazem valer todas as nossas penas, têm uma diferença fundamental. O escrito está sempre fadado a ser somente depois do ponto final. Mesmo lembrando que é o ponto final que permite os próximos escritos, cada um deles termina, inexoravelmente, bem ou mal dito, no ponto final que, às vezes, relutamos em colocar. É como um bom livro que nos captura e, a medida que vamos chegando ao seu final, diminuimos o ritmo da leitura para evitar o momento da última página, do ponto final definitivo. Talvez por isso eu goste muito de algumas obras inacabadas, como O Homem Sem Qualidades, de Musil. Talvez por isso eu me estenda, quase sempre, mais do que deveria, na evitação da angústia do ponto final. Mas isso, lembro, é coisa para boas escrituras, obras com intenção e arte. E, aqui como nos bons encontros, mesmo que o ponto final seja definitivo, as marcas do escrito permanecem, embalam nossa imaginação, se metem em nossos próprios escritos, moldam nossos estilos. Pois os escritos, todos, são sempre fundados em todos os escritos que o escritor já leu até o ponto final.
Já os encontros fundamentais não acabam nunca e, portanto, nunca chegam a seu ponto final, a menos até que a morte os separe, aos encontrantes. Muitas vezes, a maioria eu acho, os aparentes pontos finais só lembram que um novo parágrafo vai começar e a história continuará em um para sempre, mesmo que outra, mas, sempre, com algo que nunca muda na teia que o encontro sempre teceu. Mesmo que, por instantes, se acredite que, na teia do encontro, só reste uma aranha alucinada e sem sentido. Pois, se o encontro valeu, cedo ou tarde, o novo parágrafo se escreverá e a teia, qual colcha de Penélope será de tessitura sem fim na odisséia dos heróis dos encontros. Porque há um heroísmo no fazer de um encontro um para sempre que dure para além de todas as tempestades, de todas as mudanças de ritmo e estilos, de propósitos e sonhos. É coisa para poucos, encontros e encontrantes.
Como o encontro que aqui reencontro sem nunca tê-lo perdido, nem quando 34 anos de pausa interromperam uma linda história de encontros, desencontros, alegrias fulminantes, olhares de despedida, chorares por detrás da porta, portas que se quebraram de pura alegria, tardes de vinho, taças de chuva, um ser que sempre foi maior que o ter, sustos, tragédias, uma vida para poucos. Mas, cada um destes momentos, destes sentimentos, foi só um parágrafo nessa escritura que não terá fim no para sempre que nos caberá nessa história que reescolhemos nossa.
E é por esse encontro que peço, com as palavras com que sei pedir, para que ele permaneça e que eu possa seguir cada vez mais encantado com nossa coragem de, deste encontro, fazer nosso conto sem ponto final.
Bom te ver novamente, menina de meus colares de pérolas.
Alguns encontros são fugazes, são como coisas pequenas que se escreve nas sobras do dia, de ponto final apressado, de gosto de sobras de fácil digestão. Difícil um escrito curto que nos toque para além de uma graça ligeira, uma competência com o jogar com as palavras, um "bonitinho" mortal como avaliação. São, esse tipo de escrito e encontro, feitos para nos exercitar, para nos lembrar dos verdadeiros, escritos e encontros, e nos preparar para eles. Querer, deles, mais do que eles podem dar é exercício inútil que, mesmo assim, fazemos no quando em vez de nossas ilusões. O ponto final que os encerra deixa pouco no paladar, um quase nada na lembrança, uma marca em areias que qualquer mar dissolve.
No entanto, escritos e encontros, desses que que fazem valer todas as nossas penas, têm uma diferença fundamental. O escrito está sempre fadado a ser somente depois do ponto final. Mesmo lembrando que é o ponto final que permite os próximos escritos, cada um deles termina, inexoravelmente, bem ou mal dito, no ponto final que, às vezes, relutamos em colocar. É como um bom livro que nos captura e, a medida que vamos chegando ao seu final, diminuimos o ritmo da leitura para evitar o momento da última página, do ponto final definitivo. Talvez por isso eu goste muito de algumas obras inacabadas, como O Homem Sem Qualidades, de Musil. Talvez por isso eu me estenda, quase sempre, mais do que deveria, na evitação da angústia do ponto final. Mas isso, lembro, é coisa para boas escrituras, obras com intenção e arte. E, aqui como nos bons encontros, mesmo que o ponto final seja definitivo, as marcas do escrito permanecem, embalam nossa imaginação, se metem em nossos próprios escritos, moldam nossos estilos. Pois os escritos, todos, são sempre fundados em todos os escritos que o escritor já leu até o ponto final.
Já os encontros fundamentais não acabam nunca e, portanto, nunca chegam a seu ponto final, a menos até que a morte os separe, aos encontrantes. Muitas vezes, a maioria eu acho, os aparentes pontos finais só lembram que um novo parágrafo vai começar e a história continuará em um para sempre, mesmo que outra, mas, sempre, com algo que nunca muda na teia que o encontro sempre teceu. Mesmo que, por instantes, se acredite que, na teia do encontro, só reste uma aranha alucinada e sem sentido. Pois, se o encontro valeu, cedo ou tarde, o novo parágrafo se escreverá e a teia, qual colcha de Penélope será de tessitura sem fim na odisséia dos heróis dos encontros. Porque há um heroísmo no fazer de um encontro um para sempre que dure para além de todas as tempestades, de todas as mudanças de ritmo e estilos, de propósitos e sonhos. É coisa para poucos, encontros e encontrantes.
Como o encontro que aqui reencontro sem nunca tê-lo perdido, nem quando 34 anos de pausa interromperam uma linda história de encontros, desencontros, alegrias fulminantes, olhares de despedida, chorares por detrás da porta, portas que se quebraram de pura alegria, tardes de vinho, taças de chuva, um ser que sempre foi maior que o ter, sustos, tragédias, uma vida para poucos. Mas, cada um destes momentos, destes sentimentos, foi só um parágrafo nessa escritura que não terá fim no para sempre que nos caberá nessa história que reescolhemos nossa.
E é por esse encontro que peço, com as palavras com que sei pedir, para que ele permaneça e que eu possa seguir cada vez mais encantado com nossa coragem de, deste encontro, fazer nosso conto sem ponto final.
Bom te ver novamente, menina de meus colares de pérolas.
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A música, e a traquitana que toca, roubei dela
Um Zé melhor, mais simples, mais bonito, roubei dela
A Inês, roubei dela que tem tanta Inês para dar
Dela, no reencontrando, roubei minha vontade de sonhar.
Um Zé melhor, mais simples, mais bonito, roubei dela
A Inês, roubei dela que tem tanta Inês para dar
Dela, no reencontrando, roubei minha vontade de sonhar.
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sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Para sempre, poesia
.
.
Pede como puderes e souberes
Pede com o olhar ou com
um mero pensar.
Pede com as palavras silenciadas
com os acordes das músicas entoadas
ou nos teus ditos de poetizar.
Pede do jeito que quiseres
com os dedos entrelaçados
ou os joelhos dobrados
sob um ipê desflorado.
Pede no tragar de uma cerveja
a cada baforar de uma incerteza
ou nos aromas de uma tarde de vinho
servido na taça de uma chuva cristalina.
Pede pelo desatar dos meus nós
pela existência de uma estrela guia
que te aponte a evidência
do meu continuar.
Pede em todos os sinônimos
que couberem na tua súplica
em todas as crenças e convicções
de que fores capaz...
mas pede por mim.
Há de haver por entre céus mares e rios
alguém que acolherá o teu pedir...
.

Pede como puderes e souberes
Pede com o olhar ou com
um mero pensar.
Pede com as palavras silenciadas
com os acordes das músicas entoadas
ou nos teus ditos de poetizar.
Pede do jeito que quiseres
com os dedos entrelaçados
ou os joelhos dobrados
sob um ipê desflorado.
Pede no tragar de uma cerveja
a cada baforar de uma incerteza
ou nos aromas de uma tarde de vinho
servido na taça de uma chuva cristalina.
Pede pelo desatar dos meus nós
pela existência de uma estrela guia
que te aponte a evidência
do meu continuar.
Pede em todos os sinônimos
que couberem na tua súplica
em todas as crenças e convicções
de que fores capaz...
mas pede por mim.
Há de haver por entre céus mares e rios
alguém que acolherá o teu pedir...
Inês, 24 de outubro de 2008
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Pérolas do brinco de uma menina

Para sempre me ficou esse abraço.
Por via desse cingir de corpo minha vida se mudou.
Depois desse abraço trocou-se, no mundo,
o fora pelo dentro.
Agora, é dentro que tenho pele.
Agora, meus olhos se abrem apenas
para as funduras da alma.
Nesse reverso, a poeira da rua me suja é o coração.
Vou perdendo noção de mim, vou desbrilhando.
E se eu peço que ele regresse é para sua mão
peroleira me descobrir ainda cintilosa por dentro.
Todo este tempo me madreperolei,
em enfeitei de lembrança.
Mas o homem de minha paixão se foi
demorando tanto que receio me acontecer
como à ostra que vai engrossando tanto
a casca que morre dentro de sua própria prisão.
Mia Couto
De Inês, no 24 de setembro de 2008
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Impressão Digital

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão
(Portugal/1906-1997)
Obrigado, Inês
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quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Aprendizado

Respiro o teu corpo
Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.
Eugénio de Andrade
Inês
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quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Um olhar

"Foram os olhos. Foram os olhos dele, quando pousaram, devagar, sobre os meus olhos, que me trouxeram esta sede até esse momento apenas pressentida. Foram os olhos dele, tão acesos nos meus, que encheram os meus olhos de estrelas e de sonhos e de lágrimas e de pássaros errantes. E juro que pensei: não me importava de ficar cega de tanto o olhar, porque a imprevisível cor de todas as madrugadas ficará, para sempre, intacta, no meu peito. Desde então, os meus olhos atraem a nitidez da noite e as aves nocturnas deslizam no meu corpo, para lamber a lua escondida nos meus lábios. Cerro as pálpebras à inquietação da manhã. Não procuro razões para a súbita armadilha que foi o seu olhar. A sua respiração perto da minha era uma espécie de afago. Tantas vezes me apeteceu dizer-lhe: aceita o vazio das mãos que te estendi e guarda dentro delas teus desejos. Tantas vezes quis falar-lhe do meu amor, como de barcos que chegam e partem de algum lugar onde eu gostaria de ter nascido. Tantas vezes escrevi o nome dele em todas as paredes imaginadas. E se ele me dissesse onde era o lugar da sua sede, eu estaria lá para saciar com ele a minha sede"
Graça Pires / Carta 1, In "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos"
De Inês.
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