quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Contagem Regressiva: -5 (Só as palavras me acreditam)

Vivo pelas palavras,
É nelas onde me acredito.
Mas elas não me são escravas,
ao invés, me escrevem os ditos.

Das palavras sou sujeito,
Em um amor de perdição.
São rochas, areias e seixos,
Ferramenta, enfeite, facão.

Não me abandonam nos sonhos,
Acordado me tecem as telas.
E amoroso , triste, alegre ou risonho,
As palavras ventam minhas velas.

Com elas encanto amores,
Acolho, penas e risos, dos amigos,
Consolo minhas próprias dores
E piso nos astros distraído.

Mas as palavras são poderosas.
Bem ditas, me fazem as vontades
Mas, mal ditas, são perigosas
E semeiam tempestades.

Há que cuidar no dize-las,
Com desejo, torná-las benditas,
Com amor, bem escolhe-las
Para que valham a fala e a escrita.

Postado em 03 de setembro de 2007
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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Martha, my dear


Quando os Beatles apareceram ficamos numa encruzilhada. Por um lado tinha a música que nos apontava algo novo; por outro, os velhos comportamentos românticos que insistíamos em continuar sob o novo som. Tolinhos, não percebemos que algo muito mais fundamental que um novo som estava começanco a reformar a nossa sujeição (aliás, nem os meninos da banda sacavam isso). E só por isso os Beatles até hoje marcam esse momento de reviramento nas artes e manhas do discurso que nos sujeitava/sujeitaria.
Os ecos dessa virada vinham desde muitos anos atrás, mas muitos mesmo! Freud, avô da Xuxa, inventando a sexualidade infantil que a neta até hoje explora, nem desconfiava o que a clareza que sua análise da cultura permitiria um Outro bem maior que as tonterias vienenses ousavam a apontar corrigido pelo futuro de uma ilusão que morreu na praia que em Viena nunca houve. E muito mais ensinou o bom velhinho ao discurso atemporal que o continha. Ou alguém tem dúvida de que a Psicanálise mudou o mundo e reensinou o Outro?
Quando os alegres meninos de Liverpool chegaram, sem saber de onde vinham, nem para onde apontavam (lembrem-se que os Rolling Stones já eram bem mais mal comportados que eles e, por isso, nunca maracaram a virada que exigia uma ingenuidade que já não tinham), ainda vivíamos, nós, os que namoramos ao som deles, nos limites de uma pré-história romântica e tolinha. E isso, mais a brincadeira aqui nomeada, é o que nos mostra este vídeo: o ridículo e a modernidade (a pós só viria depois, como soe acontecer com tudo que vem após). O Outro, cansado de ser sensor, começa a se propor nosso sensor, o seis por meia dúzia que mudou tudo.
Mas a música é divertida, o nome se encaixa e o século é pós pós, doutorando-se em cada vez mais novas formas de sujeição.
Sorry pelo pequeno tratado. Curtam a música e, como diria o da Sociologia Príncipe, esqueçam tudo que eu disse.



A razão é uma loucura caseira


Aprendizado


Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade
Inês

Ouvindo estrelas



... Diz tua boca: "Vem!"

"Inda mais!", diz a minha, a soluçar... Exclama 

Todo o meu corpo que o teu corpo chama:

"Morde também!" 

Ai! morde! que doce é a dor

Que me entra as carnes, e as tortura! 

Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,

Morto por teu amor!


Olavo Bilac / Sarças de Fogo

The big question: Wiil you?

Preparando os sessenta que já me espiam na esquina da semana, mudo meus critérios e já olho para o mais além. Aproveito e me divirto um pouco com os velhinhos de Liverpool. E me lembro da época em os 64 ficavam em um futuro remoto.


segunda-feira, 1 de setembro de 2008