terça-feira, 4 de novembro de 2008
Esperando as flores
Novembro veio como sempre, depois de um outubro que parecia não querer terminar. Começou com um convite inesperado, e continuou entre tardes de vinho taças de chuva paulistana cariocamente temperadas, um sorriso que fazia tempo e, quem sabe, continuará, logo, logo, com flores no ipê da Praça, que este, sentindo cheiro das coisas no ar, dessecou-se, cobriu os galhos magros com folhas fartas e, acredito, ameaça amarelar-se em breve. Coisas destes tempos fora de hora em que ando, novamente, vivendo. Como na imagem acima, que, ao contrário do que se pensa, é a de uma flor sendo reconstruída, pétala por pétala.
A música, como vai retornando comum, foi roubada junto com a traquitana que a toca, a imagem que abre o post e a vontade de retomar o caminho que, um dia, julguei passar pelo aqui me escrever escancaradamente.
A música, é só uma outra versão de uma nossa velha conhecida no blog (vejam os vídeos com o autor e com Maysa, em algum lugar do passado).Na sua terceira apresentação, esse pedido de Jacques Brel se torna o mais insistente do blog. E vira uma quase promessa de retomada do blog, da vida, dos encontros e das saudades. Agora é esperar o ip~e, nem que seja até o ano que vem.
Boomp3.com
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Saudades do outono
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Acho que de todas as coisas que vivi em meus quase quatro anos de Inglaterra, uma das que mais tenho saudades é a coisa do outono que quase não temos por aqui. A profusão de cores nas folhas das árvores, a luz já meio caída do sol ajudando a tingir tudo mais amarelo-avermelhado, o azul mais profundo do céu (coisa que, confesso, não era tão fácil assim de ver lá por Londres e seu tempo quase sempre cinza), tudo isso faz do outuno uma estação particularmente cheia de cores, mais do que consegue a primavera e suas flores.
Acho que de todas as coisas que vivi em meus quase quatro anos de Inglaterra, uma das que mais tenho saudades é a coisa do outono que quase não temos por aqui. A profusão de cores nas folhas das árvores, a luz já meio caída do sol ajudando a tingir tudo mais amarelo-avermelhado, o azul mais profundo do céu (coisa que, confesso, não era tão fácil assim de ver lá por Londres e seu tempo quase sempre cinza), tudo isso faz do outuno uma estação particularmente cheia de cores, mais do que consegue a primavera e suas flores.
E outono é coisa meio de calendário por aqui, A passagem do verão para o inverno se dá sem grandes explosões, apesar de que, no Rio, a mudança da luz sempre foi bela, e as amendoeiras, que por lá abundam, se amarelam e se desfolham bem no que pede a estação. A questão é que são poucas as árvores que ligam para o outono e, assim, a aquarela é bem mais pobre.
Ora direis, outono agora? certo, perdeste do senso. E eu vos direi no entanto que foi o calor insuportável da semana, agora passada em temperaturas um pouco mais primaveris, que me fizeram atento aos outonos de nunca mais.
Além disso, a saudade levou à música, outra faixa do histórico encontro entre John Coltrane e Johnny Hartman, dois veludos melodiosos, voz e sax que se desfolham como árvores no outono.
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008
A pedidos
Adoro minhas comentaristas, mesmo sem nunca ter entendido porque só as tenho no feminino. Às vezes, quase sempre, me orgulho dessa coisa das mulheres que me comentam.
Hoje, sigo um comentário que já nem sei mais onde foi postado e, apesar de todos os encontros que desenham essa minha vida, coloco a música que, entre tantos encontros, lembrou alguém de algum desencontro, de um caso de amor sem ponto final.
E, lembro, a dor do amor quando não passa é porque o amor valeu.
Hoje, sigo um comentário que já nem sei mais onde foi postado e, apesar de todos os encontros que desenham essa minha vida, coloco a música que, entre tantos encontros, lembrou alguém de algum desencontro, de um caso de amor sem ponto final.
E, lembro, a dor do amor quando não passa é porque o amor valeu.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Ponte dos Suspiros

Andas por esos mundos como yo; no me digas
Que no existes, existes, nos hemos de encontrar;
No nos conoceremos; disfrazados y torpes
Por los caminos echaremos a andar.
No nos conoceremos, distantes uno de otro
Sentirás mis suspiros y te oiré suspirar.
¿Dónde estará la boca, la boca que suspira?
Diremos, el camino volviendo a desandar.
Quizá nos encontremos frente a frente algún día,
Quizá nuestros disfraces, nos logremos quitar.
Y ahora me pregunto... ¿Cuando ocurra, si ocurre,
Sabré yo de suspiros, sabrás tú suspirar?
Que no existes, existes, nos hemos de encontrar;
No nos conoceremos; disfrazados y torpes
Por los caminos echaremos a andar.
No nos conoceremos, distantes uno de otro
Sentirás mis suspiros y te oiré suspirar.
¿Dónde estará la boca, la boca que suspira?
Diremos, el camino volviendo a desandar.
Quizá nos encontremos frente a frente algún día,
Quizá nuestros disfraces, nos logremos quitar.
Y ahora me pregunto... ¿Cuando ocurra, si ocurre,
Sabré yo de suspiros, sabrás tú suspirar?
Alfonsina Storni / Un día
Com Inês.
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sábado, 25 de outubro de 2008
Seda
Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluír de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
É um diluír de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir,
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas como o pensar te pudesses partir.
António Gedeão ( Poemas escolhidos)
Para Inês
Para Inês
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Regaço
quero...
um regaço para chorar,
mas um regaço enorme, sem forma,
espaçoso como uma noite de verão, e
contudo próximo, quente, feminino,
ao pé de uma lareira qualquer.
um colo, um berço,
um braço quente
em torno do meu pescoço,
uma voz que cante baixo
e que pareça querer fazer-me
chorar.
um calor no inverno,
um extravio morno da minha
consciência.
e depois, sem som,
um sonho calmo,
um espaço enorme como a lua
rodando entre as estrelas.
Bernardo Soares
Livro do Desassossego
um regaço para chorar,
mas um regaço enorme, sem forma,
espaçoso como uma noite de verão, e
contudo próximo, quente, feminino,
ao pé de uma lareira qualquer.
um colo, um berço,
um braço quente
em torno do meu pescoço,
uma voz que cante baixo
e que pareça querer fazer-me
chorar.
um calor no inverno,
um extravio morno da minha
consciência.
e depois, sem som,
um sonho calmo,
um espaço enorme como a lua
rodando entre as estrelas.
Bernardo Soares
Livro do Desassossego
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