domingo, 1 de março de 2009

A primeira poesia a gente nunca esquece

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De Profundis (para O.W.)

Nada como Pessoa, navegado qual Paulinho,
Faço do blog odisséia de onde retornarei.
Se ainda a tortos caminhos,
Ao chegar me saberei.

Nas teias com que me tecem,
Nas sereias que enlouquecem,
No umbigo em escravidão,
Espero, que finda a jornada
Aqui já não reste nada,
Nem sonho, nem assombração.

Se hoje sou quase morto,
Se vivo, me erro torto,
Navego para um litoral
E blogo com todas as velas,
Pintando, em quase aquarelas,
Com tintas que sabem sal.

Nas areias que chegarei,
Não quero sexta, nem feira.
Retrato de Dorian Gray,
Em cinza, para não ser bandeira.

No meio de todos ausente,
Nas grades não verei prisão,
Que a verdade a gente mente
Pra, do eu, prestar a-tensão

De mim mesmo serei alcaide,
De meus desejos não saberei.
De Profundis, Oscar Wilde!
Salomé, viva meu rei!


C´Oração

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Ave Marias de todas as raças
Mistérios, gozares, desgraças
Bendita sois vós, em mim demente
Desvarios, de'lírios, serpentes
Infinito desvio de meu não saber

Bendita sois vós, tod'as mulheres
Desrazão benvinda de meus bem quereres
Perdição infinda onde me erro ermo
Sentido pleno de meus mancos termos
Cruzes de meu mais phoder

Bendita a fruta de vosso ventre
Que tomo com bocas, línguas e dentes
E mais narizes, dedos e pobre caralho
E molho nas gotas de teu orvalho
A flor de meu convosco ser.

Bar do Frango, 01 de março de 2007
Publicado no blog no dia 01 de março de 2007

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pós Carnavalesca



Harlequim, Cezane

Se acaso você chegasse
(Lupicínio Rodrigues, música)
,
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Se acaso você chegasse
e no meu chapéu encontrasse
aquela pomba que, um dia,
dali voou.
.Será que tinha coragem,
de perdoar a minha bobagem,
em nome daquilo
que de mim restou?
.
Eu falo porque essa pomba,
já gira no meu cansaço
a beira de um fracasso
e de um eu em dor.
De noite me faz medonho,
de dia me apaga os sonhos,
e assim,
nós vamos vivendo
de horror.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sobre febres, fogos e infernos

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"Feito febre, baixava às vezes... aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa, impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé alegria, mas certamente qualquer coisa assim"

Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados




"Nós pensávamos... que a vida no inferno fosse o lugar do eterno desespero... Ai de mim, não, pois este é o lugar da inextinguível esperança, que torna cada dia pior do que o outro, pois esta sede..., que nos é mantida viva, não é jamais satisfeita"

Umberto Eco
, A Ilha do Dia Anterior

Sobre o blog

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'A culpa é minha
e eu ponho ela
em quem eu quiser!'
(Homer J. Simpson)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A verdade mais doída, foi o rasgo da ferida...

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A loucura é viver na solidão dos outros, numa ordem que ninguém partilha. Durante muito tempo achei que escrever podia me resgatar da dissolução e da escuridão, porque implica uma sólida ponte de comunicação com os outros e anula, por isso, a solidão mortal... Depois, compreendi que aqueles que chamamos loucos estão, muitas vezes, para além de qualquer resgate.
Rosa Montero, A Louca da casa

domingo, 4 de janeiro de 2009

Velho Ano Novo

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Sin embargo mi muevo

De cuando en cuando soy feliz!,
opiné delante de un sabio
que me examinó sin pasión
y me demostró mis errores.

Tal vez no había salvación
para mis dientes averiados,
uno por uno se extraviaron
los pelos de mi cabellera:
mejor era no discutir
sobre mi tráquea cavernosa:
en cuanto al cauce coronario
estaba lleno de advertencias
como el hígado tenebroso
que no me servia de escudo
o este riñón conspirativo.
Y con mi próstata melancólica
y los caprichos de mi uretra
me conducían sin apuro
a un analítico final.

Mirando frente a frente al sabio
sin decidirme a sucumbir
le mostré que podía ver,
palpar, oír y padecer
en otra ocasión favorable.
Y que me dejara el placer
de ser amado y de querer:
me buscaría algún amor
por un mes o por una semana
o por un penúltimo día.

El hombre sabio y desdeñoso
me miró con la indiferencia
de los camellos por la luna
y decidió orgullosamente
olvidarse de mi organismo.

Desde entonces no estoy seguro
de si yo debo obedecer
a su decreto de morirme
o si debo sentirme bien
como mi cuerpo me aconseja.

Y en esta duda yo no sé
si dedicarme a meditar
o alimentarme de claveles.
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Pablo Neruda