domingo, 30 de novembro de 2008

A gota d´água



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Podemos falar dos sentimentos, descrever
as impressões que nos ameaçam, e revelar o vazio
que se descobre na ausência um do outro: nada,
porém, é tão inquietante como a dúvida,
o não saber de ti, ouvir o desânimo na tua voz,
agora que a tarde começa a descer e, com ela,
todas as sombras da alma. É verdade que o amor não é
apenas um registro de memórias. É no presente
que temos de o encontrar: aí, onde a tua imagem
se tornou mais real do que tu própria,
mesmo que nada te substitua. Então, é
porque as palavras são supérfluas; mas como viver
sem elas? Como encontrar outra forma de te dizer
que o amor é esta coisa tão estranha, dar o que nunca
se poderá ter, e ter o que está condenado
a perder-se? A não ser que guardemos dentro de nós,
num canto de um e outro a que só nós chegamos,
sabendo que esse pouco que nos pertence é
tudo o que cabe neste sentimento
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Nuno Júdice


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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Fundação

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Tenho, ainda, o teu corpo nos meus braços;

Sobre os meus ombros, teu cabelo.

Descansando dos meus e teus cansaços,

Tu dormes por nós ambos. Só eu velo.



Nos meus braços teu corpo estremeceu,

Desse tremor o meu foi percorrido.

Colados, curva a curva, onde começa o teu?

Onde se acaba o meu? Teu e meu têm sentido?



Teu ligeiro suor penetra a minha pele:

Teu suor dos transportes de há momento

Que me atrevo a provar como quem lambe mel,

Em que refresco as mãos como num leve unguento.



Brandamente, por vezes, te desvio

De mim, para melhor, depois, sentir

Que és bem tu que eu agarro, acaricio,

Bem tu que eu pude, em mim, fundir.


José Régio
com Inês

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Traçado on the rocks

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E. Hooper

As belas, e as feias, que me perdoem, mas botequim é coisa de homem. Apesar dos tempos igualitários, das nossas (homens) necessidades de tê-las por perto certas horas, botequim, no fim das contas, continua coisa de homem. Ou vocês conhecem algum que, cheio de freguesas, olha estranhado para um homem que entra? Ou uma mesa de botequim com zentas moças e dois moços fazendo figuração enquanto elas discutem "coisas de mulher"? Ou algum botequim onde a moça, no meio de um porre inesquecível, pelo menos até o raiar do próximo dia, fecha o bar bebendo um eterno "mais um" com o dono/gerente da casa, ou com o garçon anônimo sem intenções de tracá-lo after hours? Houvessem os botequins das moças, eles não durariam muito, invadidos que seriam pelos caçadores desocupados. Mas, botequim que se preza não é território de caça e, por isso, continuam coisa de macho. Botequim não é barzinho, nem point, nem castelo de Caras, muito menos "espaços culturais", apesar de não conhecer outro espaço tão cultural quanto um botequim, como tento demonstrar nesta postagem.
Não que isso seja uma vantagem dos homens, até porque são coisa de macho por que neles impera a Mulher, nas conversas, nas confissões, nos choros, nas ironias falsas, em tudo aquilo que só um bando de macho sustenta no faz de conta que os alivia. Uma mulher, real, de CPF e lousa e tal, só atrapalha a nossa eterna ligação com a "Mulher", essa mesma que Lacan insiste em dizer não haver e que, nós homens, teimamos em sofrê-las com o se fossem as pequenas mulheres de nossos desenganos. E toma dor de corno, especialidade de qualquer botequim que se preze, mesmo quando para não falar deles falamos de mil outras coisas, futebol, mulher dos outros, outros cornos, mal do PT, sociologia profunda sem colarinho, amizades fundamentais que nunca ultrapassam a porta de saída do bar, etc e tal.
Pois dor de corno é outra coisa que só homem sente. Talvez porque as mulheres tenham sido feitas, por definição, para serem "traídas", sendo as aspas em questão as aspas que sempre colocamos nas constantes eventuais traições que, nós homens, cometemos; ou seja, elas não são nunca corneadas, vivem o, delas, destino. "Traímos", mais das vezes, sem amor, da mesma forma como somos capazes de fazer sexo ou seduzir moças, só para nosso solitário divertimento, ou para a prova do teorema de nós mesmos, ou para contar aos amigos no botequim. Diferente das mulheres, que sempre traem por amor, só dão por afeto, isto é, traem, colocam chifres, nos arrasam a masculinidade pressuposta, nos injuriam a testa, dividem o nosso amor (não conto aqui as sem homens, que são mais fáceis mas, por definição, nunca têm quem trair). Daí o fato de um belo par de chifres ser coisa só dos veados machos, como a própria natureza nos ensina (o que, levado às últimas consequências da analogia, nos faria, homens, todos meio veados, coisa que sabemos ser vera, por nossa, homens, impossibilidade de querermos outro sexo que não o nosso, isto é, o grande defeito das mulheres, aquilo que nos faz, em última instância, veados misóginos, é que elas nunca serão nossas companheiras de botequim, nosso templo mais sagrado (homem que não gosta de botequim? los hay, mas .....) - importante para a argumentação: botequim é diferente de "barzinho", essa coisa modernosa onde homens e mulheres bebem cerveja juntos e ninguém fica after hours chorando no Balcão).
Não sei se vocês, queridas leitoras (onde andarão os meus leitores machos? ou, como quase me garantem olhares e sorrisos dos botequins que frequento, blog é coisa meio assim "Diário da Margarida"? Qui lo sá, Vardemá!) me acompanham na concordância, mas that´s it, like it or not!. Botequim e dor de corno são coisa de macho! E se aqui não fiquei bem provado a culpa é da exiguidade do espaço, e do saco, já que o espaço é meu, que me impedem tratado mais bem fundamentado, em alongamentos (não, nada que ver com aqueles que vocês, mulheres, fazem nas academias, coisa de mulher e boitolas). Dou os pontos como provados e continuo.
Mas, em sendo coisa de machos, botequins e dor de cornos variam no de acordo com a linguagem do macho em questão, com o Outro que o determina em intimidades sociais, num reconhecimento que a histeria das mulheres jamais será capaz (as mulheres tendem a acreditar num Outro possível que encontrarão no próximo romance, enquanto os homens sabe que eles não são Ele, nem nunca serão, merda!). Ou seja, apesar do botequim ser o templo onde ofertamos em público as nossas dores, doemos na linguagem, na especificidade de um Outro que faz social com a gente (e até conosco bebe cerveja), nessa intimidade desconhecente que a cultura permite e determina.
Vejam, por exemplo, Frank e Nelson, ou Sinatra and Mr. Gonçalves. Vejam as músicas, a elegância swingenta de um versus o esculachado tango do outro, o papel do botequim do carcamano de olhos azuis (a conversa solitária com o moço detrás do balcão no final da noite) e o do cafona brasileiro a convocar mais e mais gente para afogar, em bebida e confissões públicas, suas respectivas dores de corno (aqui me corrijo, antes que fique a impressaõ de que trocamos dores de corno uns com os outros em uma mesma noite; nada mais falso! a cada dia o corno da hora é exclusivo e pode contar com a total solidariedade dos outros homens na mesa, até que o dia raia, se vá dormir e o amanhã determine um outro corno, que não tem coisa mais chata do que o corno constante).
O que os une, solidários, no balcão do final de noite, ou pagando a rodada dos desconhecidos e amigos, é a solidão que Hopper expressa. No caso de Sinatra, uma solidão que se revela na música e no desacompanhamento; no caso de Nersão, no tango rasgado, bem mais visceral, e no convite à multidão botequinesca que consome com ele sem, no fundo, fazer suas dores consumidas. Em ambos, uma mesma solidão, que as dores são sempre assim, particulares, mesmo quando as fazemos semi-públicas.Há sempre um depois do botequim, uma cama vazia, uma lembrança vadia, um encontro com si mesmo, Sinatra ou Nelson.
Poderia elaborar ainda muito mais, falar das mulheres que só fazem fundo para Nersão no filminho, as mesmas que aqui, e lá, têm o botequim como impedido, dos homens solitários de Frank, e da mesmice da solidão em suas duas vertentes. Mas, se vocês prestarem atenção, o filminhho diz tudo, das diferenças e das mesmices, e, principalmente, das dores e igrejas dos homens de todos os tempos.
E chega de sociologia barata que barata é coisa de botequim, mesmo que nunca apareçam nos filmes de Hollywood. As via aos montes no Leblon, quando fechava o bar trocando papos ébrios com o Azeitona que me patronava. Hoje quase não as vejo no Frango, talvez por me faltarem as dores de corno que as atraem. Mas, vivido, elaboro, sobre botequins, homens, músicas, imagens, baratas e amores mal passados. Na falta de água benta exagero na pretensão, coisa que me garante a avó de meu discurso, não faz mal a ninguém.
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PS. E pensar que tudo começou como começam muitas coisas nesse blog. Eu havia descoberto uma maneira de "fundir música" e resolvi experimentar com essas duas que já havia postado anteriormente. Daí, tive que inventar filminho, caçar imagens, publicar a coisa no YouTube, etc e tal. Quando me dei conta, tinha um filme ainda mudo pedindo por algumas palavras. Acho que exagerei, culpa do Frango onde nem pensei nisso mas tomei algumas.Vocês hão de me desculpar. Ou não, como nunca saberei pelos comentários que nunca se escrevem, apesar de todos os santos tantos que aqui me conta o contador.
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PS2. Nelson Gonçalves, queiram ou não, é um pouco nosso Sinatra. Só não o é todo por já ter começado cantar depois da invasão americana nas formas de nossos sonhos. Mais ainda, as duas músicas são quase da mesma data; a de Nelson de 1955, a de Sinatra de 1958. A de Frank, conceitual como o LP onde surgiu (se esquecermos Ava e seu toureiro), a de Nelson a vida como ela é, bem antes do outro Nelson, o Rodrigues vestido de noiva.
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domingo, 23 de novembro de 2008

Relógico

Colin Anderson/Blend Images/Corbis (Inês)

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cuatro
y acabo la planilla y pienso diez minutos
y estiro las piernas como todas las tardes
y hago así con los hombros para aflojar la espalda
y me doblo los dedos y les saco mentiras.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cinco
y soy una manija que calcula intereses
o dos manos que saltan sobre cuarenta teclas
o un oído que escucha como ladra el teléfono
o un tipo que hace números y les saca verdades.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las seis.
Podrías acercarte de sorpresa
y decirme "¿Qué tal?" y quedaríamos
yo con la mancha roja de tus labios
tú con el tizne azul de mi carbónico.


Mário Benedetti / Amor de tarde

sábado, 22 de novembro de 2008

O Síndico do Brasil


Do rock ao soul/funk, o blog segue perseguindo a sopa dos inocentes, mas, mosquiteiro guerrilheiro, sem perder a ternura jamás
Do maluco beleza de Raul Seixas à Tim Maia, o síndico do Brasil, o blog cai na gandaia, entre um poema e outro, e dá um descanso aos Chicos, Zizis, Miles, Coltranes, todos belamente corretos como Raul e Tim nunca quiseram ser. Só para incomodar anônimos, enquanto a bela calma não volta.

Reflexos de uma agitação que me revolta os mares, de um querer que me faz permanentemente querendo e querido, a ordem é, como em um dos gritos de guerra do genial "preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofrências e deficiências capilares", "Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo!"
O filminho ilustrei com fotos de Chaouen, uma cidade azul da cor do mar, lá no Marrocos onde o beirute e o haxi são "du bão" e agradariam o insaciável Tim Maia entre uma e outra ida ao banheiro para dar um brilho (no cabelo, é claro).
Acabo de ler a biografia do dele, escrita pelo Nelson Motta. Apesar de achar que o Nelsinho não soube fazer jus ao personagem, serviu para relembrar o gordo e planejar este post.
Nesse encontro marcado com o blog Tim não faltou. Desvantagens da desencarnação que o gordo resolveu desencarnar há dez anos atrás, dessa coisa de voltar ao pó em que ele se meteu pensando noutra coisa: agora é só colocar ele para cantar que o bicho baixa, e nem pede licença para dar uma saidinha estratégica.
Usem e abusem
! Só do vídeo, é claro!!
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Varanda


foto: Zédu
Hemos perdido aun este crepúsculo.
Nadie nos vio esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.

He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.

A veces como una moneda
se encendía un pedazo de sol entre mis manos.

Yo te recordaba con el alma apretada
de esa tristeza que tú me conoces.

Entonces, dónde estabas?
Entre qué gentes?
Diciendo qué palabras?
Por qué se me vendrá todo el amor de golpe
cuando me siento triste, y te siento lejana?

Cayó el libro que siempre se toma en el crepúsculo,
y como un perro herido rodó a mis pies mi capa.

Siempre, siempre te alejas en las tardes
hacia donde el crepúsculo corre borrando estatuas.

Pablo Neruda,
20 Poemas de amor
poema 10

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Sacada bem acompanhada

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foto: Inês


Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ter uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia
de ser uma madrugada?

Alberto Caeiro / Poemas Incojuntos

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