domingo, 31 de agosto de 2008

Fim de mês


Não sei se vocês me entendem, e isso não importa muito.
Aqui acaba agosto, mês de meu morrer de amores.
Nele o fim e o começo, sendo um o outro, cada qual à sua vez.
Nenhum carrega só tristeza, nenhum é só alegria, ambos são plenos de flores
são ambos cheios de vida, no tempo de cada um.
E, dando por findo o que amanhã recomeça,
declaro acabado, a gosto, o que soube deste mês.
E vou esperar setembro para morrer outra vez.

De Regina para o Bar do Frango



Meio intelectual, meio de esquerda
De Antonio Prata.

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar "amigos" do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. "Ô Betão, traz mais uma pra gente", eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.

Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil! Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que agente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim, Câmara Cascudo, saca?).

- Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

Esse obscuro objeto do desejo




"Contada por ìtalo Calvino, em seu livro Seis propostas para o próximo milênio. Calvino tirou-a de um caderno de notas do escritor romântico francês Barbey d´Aurevilly, que por sua vez a tirou de um livro sobre a magia: a cultura é sempre assim, camada após camada de citações sobre citações, de idéias que provocam outras idéias, faiscantes carambolas de palavras através do tempo e do espaço. A história é assim: o imperador Carlos Magno, já muito velho, apaixonou-se por uma garota alemã e começou a caducar de maneira penosa. Ficou tão arrebatado de paixão pela jovem que esquecia os assuntos de Estado e caía no ridículo, com o conseguinte escândalo na corte. De repente, a garota morru, coisa que encheu os nobres de alívio. Mas a situação só fez piorar: Carlos Magno ordenou que embalsamassem o cadáver e o deixassem em seu aposento, e não se separava de sua morta nem por um instante. O arcebispo Turpin, horrorizado com o macabro espetáculo, suspeitou que a obsessão de seu amo tinha uma origem mágica e examinou o corpo da moça; embaixo da língua gelada encontrou, de fato, um anel com uma pedra preciosa. O arcebispo tirou a jóia do cadáver e, assim que o fez, Carlos Magno ordenou que enterrassem a mulher e perdeu todo interesse por ela; em compensação, foi tomado por uma paixão fulminante pelo arcebispo...Então o atribulado e acossado Turpin decidiu jogar a jóia encantada no lago Constanza. E o imperador se apaixonou pelo lago e passou o resto da vida junto à sua margem"
Copiado de A louca da casa, de Rosa Montero
que tirou de Calvino, que tirou de dÁubervilly
que tirou de um livro antigo, 
que tirou de uma lenda, que tirou...


sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Início e fim de Análise


Análise
Fernando Pessoa


Tão abstrata é a idéia do teu ser

Que me vem de te olhar, que, ao entreter

Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,

E nada fica em meu olhar, e dista

Teu corpo do meu ver tão longemente,

E a idéia do teu ser fica tão rente

Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me

Sabendo que tu és, que, só por ter-me

Consciente de ti, nem a mim sinto.

E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto

A ilusão da sensação, e sonho,

Não te vendo, nem vendo, nem sabendo

Que te vejo, ou sequer que sou, risonho

Do interior crepúsculo tristonho

Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
12-1911

.

O poema se repete, a análise é sempre uma outra mesma coisa. 

Coração valente


Foto: Por de sol no Leblon
Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade
Lembrado pela Flávia

O sábio poente


Receios

São tantas as coisas que penso,
se você soubesse...
Tantas decisões tomadas,
ansiedades pensadas,
se você soubesse...
Tantos os entristecimentos,
as impossibilidades,
se você soubesse...
Se soubesse como vejo a coerência inexistente
se você soubesse...
Se soubesse como um sorriso teu me alegra
e como teu sorriso me entristece,
se você soubesse...
Se soubesse como fica meu coração
a cada afastar que deixo transparecer
e como perco a energia
a cada vez que você me chama e eu repito
não, e não, e não.
Se você soubesse...
ah se você soubesse...
Se você soubesse como me é cara a tua companhia
e como me falta de mim o que não te posso dar.
Se você soubesse...
Se soubesse meus receios,
meus anseios,
se você soubesse...
Se você apenas soubesse!

Ordem e Progresso, salve, salve, Brasil!


Dedicado ao Brasil.
Com todo o afeto que se encerra em meu peito juvenil!