sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Para a Gilza em mim.


No momento mesmo em que encerro um ano que começou nos inícios de dezembro de 2006, esse vídeo é a maneira como achei de dizer que a presença da Gilza, suas óperas, sua Callas, sua Casta Diva, seguirão comigo, agora de janelas abertas, por onde enxergo só o luar, as árvores de minha paisagem e a vida que corre lá fora. Callas era um pouco ela, ópera era um pouco ela, Casta Diva era um pouco ela. O muito dela carregarei em mim, até o fim.

Com isso encerro ano no recomeçar um outro.

Obrigado, Inês, por ter me ajudado a embrulhar esse presente.

Feliz Ano Novo? Presente!




quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Sob o dossel de minha cama


Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?
.
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de
desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O poema dos amantes anônimos



Me Basta Así


Ángel González (Espanha-1925)
.


Si yo fuese Dios
y tuviese el secreto,
haría un ser exacto a ti;
lo probaría(a la manera de los panaderos
cuando prueban el pan, es decir:
con la boca),
y si ese sabor fuese
igual al tuyo, o sea
tu mismo olor, y tu manera
de sonreír,
y de guardar silencio,
y de estrechar mi mano estrictamente,
y de besarnos sin hacernos daño
—de esto sí estoy seguro: pongo
tanta atención cuando te beso—;
entonces,
si yo fuese Dios,
podría repetirte y repetirte,
siempre lo mismo y siempre diferente,
sin cansarme jamás del juego idéntico,
sin desdeñar tampoco lo que fuiste
por lo que ibas a ser dentro de nada;
ya no sé si me explico, pero quiero
aclarar que si yo fuese
Dios, haríalo posible por ser yo
para quererte tal como te quiero,
para aguardar con calma
a que te crees tú mismo cada día
a que sorprendas todas las mañanas
la luz recién nacida con tu propia
luz, y corras
la cortina impalpable que separa
el sueño de la vida,
resucitándome con tu palabra,
Lázaro alegre,
yo,
ojado todavía
de sombras y pereza,
sorprendido y absorto
en la contemplación de todo aquello
que, en unión de mí mismo,
recuperas y salvas, mueves, dejas
abandonado cuando —luego— callas…
(Escucho tu silencio.
Oigo
constelaciones: existes.
Creo en ti.
Eres.
Me basta).

Tem horas que ter é tão maior que estar...



Navegando meio sem rumo por esses mares virtuais acabei caindo em um lugar que me pareceu um esconderijo de dois amantes muito especiais, meio antigos até. Me senti um pouco invadindo algo que era, obviamente, um cantinho no beira mar internético, reservado para uma troca intensa de declarações de amor e delicadezas que só na fragilidade do amor somos capazes. Pelo que pude perceber, trata-se de um daqueles amores impossíves, cujas razões da impossibilidade não me foi dado advinhar. No entanto, ao ler os bilhetes ali trocados me veio a sensação que para aquelas duas pessoas o ter uma à outra era mais importante que o poder ou não estar juntos. Nada sei sobre eles a não ser que são belos e felizes, ainda que a tristeza do não poder ser algo mais não deixe de comparecer na história que ali se advinha. Afinal, já dizia Vinícius, todo grande amor só é bem grande se for triste. Das coisas que lá encontrei, uma me tocou mais fundo, em um certo ponto de inveja, numa vontade de que fossem minhas aquelas palavras, que fosse minha aquela mulher que as merecia. E, por uma dessas coincidências incríveis, o bilhete termina com palavras de um poema que eu gosto muito e que já devia ter colocado aqui no blog. Talvez coloque o Me Basta Asi em seguida ao bilhete de amor que posto agora e que lá recolhi furtivo. Poema e bilhete se uniram numa inveja boa que agora divido com vocês por aqui. Esse bilhete, que mantém uns poucos sentidos obscuros para nós que o lemos de fora da história, é uma linda declaração de amor, principalmente se acreditamos no compromisso com as palavras e com o bem dizer. Se um dia o roubado autor, ou a amada que mererceu as linhas abaixo, passar por aqui e, como será inevitável, perceber o roubo aqui publicado, peço que me perdoe e que saiba que apesar de toda beleza do que lá li, torço por um "quem sabe" diferente, pois o mundo anda muito carente de amantes vivendo juntos um cotidiano amoroso. Omito, por respeito à intimidade que, sem querer, invadi, o site e os nomes; em tudo mais, o bilhete lá me encontrou exatamente como copiei abaixo.


"Essa foi a coisa mais bonita que já ganhei de alguém. Digito dedo a dedo, com um aperto no peito, com os olhos molhados, numa confusão de emoções que, chego a pensar, assustam meu coração ferido. Mas me lavam a alma e todos meus por dentro. E me metem medo do demais de tudo.
Me cala uma vontade enorme de tudo que não posso e tanto queria. Me cala a beleza dos poemas trocados. Me cala a espera que espero contigo. Me cala esse sentir confuso, mistura rara que não sei nomear. Me cala o ouvido no qual não posso sussurrar, os lábios cujo sorriso não vou poder beijar, os olhos que não enxugarei, o medo que não posso abraçar e espantar de ti. Me cala o corredor onde não andarei nervoso a espera de tua volta. Me cala o não poder te olhar quando você acordar depois e o sorriso que não poderei te dar. Tudo me cala fundo.
Digito, paro, busco músicas, nada diz o que em mim é calado. O início de Tatuagem, prá ficar no teu corpo quando a noite vem, pedaços de outras letras, canções de ninar, mas nada diz tudo, nada é suficiente, nada revela o buraco que nesse momento sinto no peito, não de falta, mas de excesso, de turbilhões. Medo de explodir de tanto você.

Me calo.

Creo en ti.
Eres.
Me basta


Teu, para sempre como você quiser."


(Saturday, April 14, 2007 11:31 PM)
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Torço por vocês, meninos (os amantes são sempre meninos, pois não?)

PS. O bilhete é datado de abril, mas a correspondência continua, cheia de outras coisas tão belas como esta.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Beba das palavras


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Caminhei sempre, bêbado e equilibrista, no fio agudo das palavras, sempre belas. Nelas meu caminho se fez, se faz e se fará. Pois só as palavras existem, ainda que eu nunca deixe de ser, delas, atabalhoado aprendiz.

Objeto há


Por detrás daquele muro,
reinava a escuridão.
E uma voz, quase um sussurro
que só sabia dizer não.
.
As coisas ao bater no muro
viravam o seu próprio avesso
e voltavam daquele escuro
avessadas de volta ao começo.
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E assim as coisas eram,
as coisas e as coisas não,
para todos os que quiseram
nas coisas botar as mãos.
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E de avesso em contrário,
cada qual uma coisa louca,
nasceu o vocabulário
e o homem abriu a boca.
.
Mas o muro permanece,
continua a escuridão
e a palavra acontece
somente quando diz não.