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terça-feira, 5 de agosto de 2008

Johnny Hartman em dose dupla

Johnny Hartman, que Ruy Castro chama de O Sinatra Negro em seu livro Tempestade de Ritmos, gravou muito pouco e é pouco conhecido, mesmo entre os que gostam de jazz. Talvez vocês se lembrem de uma música que acompanhava as sequências mais tocantes em que Clint Eastwood e Meryl Streep viviam seu amor maduro e talvez impossível em As Pontes de Madison. Era ele, Johnny Hartman, cantando I see your face before me, For all we Know, e It  was almost a love song. Entre as poucas coisas que gravou (ele não era muito comercial), o Lp junto com Coltrane, então no auge da fama e revolucionando o jazz, é considerado uma obra-prima. E era tal o respeito que os músicos tinham por Johnny Hartman que ele conseguiu, nesse LP, fazer de Coltrane um baladista romântico quando este já começava a se aventurar pelos caminhos do free jazz. Como diz Ruy Castro, é um disco a ser levado para uma ilha deserta. 
Alguns posts atrás eu já havia colocado uma faixa do LP aqui para vocês: My one and Only Love. Coloquei a mesma faixa no YouTube e recebi, por lá, o vídeo que posto agora como uma carinhosa resposta ao meu. Divido-o com vocês esse comentário musical que me foi carinhosamente enviado. Deixo como link para o YouTube para que os devidos créditos possam ser dados à desconhecida que me acarinhou.
E aproveito que é fácil e coloco mais um Johnny Hartman em um vídeo com imagens do belo filme de Clint Eastwood.




quinta-feira, 27 de março de 2008

O Filósofo, as mulheres e os botequins

Na década de noventa, século passado, tive um outro período em Barão Geraldo. No início em um dividir-me entre Rio e Campinas. Mais tarde, quando fui tentar tornar-me um douto ignorante na Psicanálise, lá na PUC de São Paulo, tirei todas as licenças a que tinha direito na UFRJ e aboletei-me por aqui em Barão. Mas tudo isso já foi dito lá no Eununca Suméria, primeira parte de minha autobiografia não autorizada. Aqui me interessa a história que leva à música de hoje.
Naqueles tempos havia um barzinho em Barão, de nome Salsichic, que era meu ponto habitual nas noites baronenses. O Salsichic era um bar muito especial, destes que quase já não se fazem mais e, sem dúvida, melhor do que qualquer coisa que já conheci nesta Barão século 2i em que me meti.
O Salsichic era um bar pequeno, sem nenhuma frescura, com música ao vivo todas as noites, cerveja geladíssima, preço mais do que justo, que dificilmente fechava antes das 3:00 ou 4:00 hs da madrugada, qualquer que fosse o dia da semana (com exceção dos domingos, em que fechava lá pela meia-noite, não por vontade do dono mas por falta de movimento. Os horários do bar eram tão inusitados que nem no Rio, de onde eu vinha, conhecia qualquer lugar semelhante.
A música, com cantores e/ou pequenos conjuntos de MPB e chorinho, era da maior qualidade, as pessoas vinham de Campinas, Paulínia e outros lugares todas as noites para encher o bar de risos e cantorias, sem que isso me impedisse de, lá na minha mesa quase cativa, eu estudasse Lacan, escrevesse trabalhos de doutorando (meu primeiro trabalho para a PUC/Renato Mezan foi dedicado ao bar assim: Ao Salsichic, pelo lugar.
Minha mesa ficava quase na entrada do banheiro masculino e era tão quase cativa que Miltinho, o Gerard Depardieu em miniatura que ficava atrás do balcão vivia me prometendo uma plaquinha e um abajur para facilitar a leitura, coisas que nunca se cumpriram. E a caminho do banheiro, quase que todos os dias, passava um já mamado Ramón, parava ao meu lado e, com o dedo em riste, me acusava: Você é uma fraude! Só Sartre estudava em botequim. E seguia impávido para atender os chamados da natureza. Ramón e esse Deux Magots tupiniquim, lembrei em um poema em fevereiro de 2007, lá pelos inícios do blog (depois coloco nos comentários).
Os outros homens todos não me acusavam de fraude, pelo menos não como Ramón, mas juravam que tudo não passava de uma cena para impressionar as moças do lugar. E como realmente impressionava, não adiantava eu querer dizer que estudava de verdade, escrevia coisas seríssimas, elocubrava nós borromeanos e bandas de Moebius enquanto o corpo balançava com a música. De um certo modo, eu me sentia sendo mais divertido do que Sartre, que há muito já havia caído de moda. Além disso sempre fui mais bonito que o medonho filósofo francês (e as mulheres que eu impressionava eram bem mais bonitas que a Simone do outro). E não falava francês, só lacanês.
Pois alí eu estudava, pelo menos até uma certa hora, até o momento de me juntar a alguma outra mesa e ficar até o fechamento do bar. Na maior parte das vezes, Jailson, o dono, fechava as portas e mantinha um grupinho bebendo por conta da casa. Não era raro o dia que bebíamos até lá pelas 6:00 hs da manhã e, depois, seguíamos em romaria para o café da manhã na casa de Jailson.
Às quartas, cantava um rapaz muito bom, Marcílio, cheio de marcilietes. Marcílio cantava MPB moderna acompanhado de seu violão. Tipo Chico, Caetano, zum de besouro, luz da manhã,´ssas coisas que a gente gostava sem vergonha nem saudades. Inevitavelmente, em algum momento da noite, Marcílio gritava lá do seu "palco": Esta é para o filósofo, e apontava para mim, metido com meus Lacans e cadernos. Eu sorria de volta e ele mandava, com a maior seriedade, a música que posto hoje.
E não me perguntem porque ele achava que a música combinava comigo. Deve ser porque, para ele, que não me achava uma fraude ou um sedutor disfarçado de intelectual, só podia haver uma explicação para aquele afastamento da bagunça reinante no ambiente; uma dor de amor mal resolvida. Mal sabia ele que era só porque estava apaixonado. Pela Psicanálise.
Mas a música me caía bem. Até hoje.